Deus deve ser tão alérgico à rotina que a excluiu do Universo inteiro
Jornal de Espiritismo nº 66 · Setembro 2014Página 167 min
privilegiando a diversidade, criando um mundo em permanente modificação e evolução. O nervosismo e a ansiedade têm contagiado muitas pessoas e vários colegas já me confidenciaram não se darem nada bem com mudanças. Sendo normal que as mudanças criem um pouco de instabilidade no dia-a-dia, é imperioso não desenvolvermos anticorpos contra elas. É que vivemos num mundo em permanente mudança e quem lhe quiser resistir é bom que se prepare: vai ter de lutar contra ela durante toda a sua vida.
À nossa volta as mudanças acontecem a todos os instantes. Deus criou um mundo em permanente mutação, um mundo em constante aperfeiçoamento. Deus deve ser tão alérgico à rotina que a excluiu do Universo inteiro, privilegiando a diversidade, criando um mundo em permanente modificação e evolução. Como nos afirma a famosa Lei de Lavoisier: Na Natureza nada se perde, nada se cria, tudo se transforma. Ou seja, tudo muda. Nós próprios estamos em constante evolução e transformação física.
Todos os dias envelhecemos um bocadinho, todos os dias morrem células no nosso corpo e outras surgem no seu lugar, aprendemos coisas novas, pensamos e sentimos de forma diferente. Aqueles que amamos estão também a mudar. Os meus pais estão mais velhos e com uma disponibilidade física e necessidades diferentes, a minha mulher já não é a mesma pessoa que eu conheci há vinte anos. Era uma menina e agora está uma mulher, pensa de maneira diferente, age de forma diferente.
Os meus filhos que ainda há poucos anos conduzia pela mão, já falam com voz grossa, têm ideias próprias e ambições distintas. Eu não posso amar a menina por quem me apaixonei há vinte anos, nem a imagem dos meus pais quando eu era um adolescente, nem aquelas crianças entusiastas que vinham a correr para os meus braços sempre que eu chegava a casa. Essas pessoas já não existem de facto, todas elas mudaram de uma forma extraordinária.
O meu amor por todos eles também tem de mudar e ser diferente. Por vezes esquecemo-nos de que a vida faz-se em movimento. E como a vida está em permanente transformação nós somos constantemente solicitados à mudança. Só que temos a tendência inata para lhe resistir porque mudar significa substituir o que nos acostumamos por algo que ainda é incerto e a que nos temos de adaptar. Por vezes, revoltamo-nos quando a mudança nos é imposta contra a nossa vontade, outras vezes ficamos deprimidos e ansiosos.
Será mesmo necessário? Certamente já se aperceberam da enorme diferença de comportamento entre um velho e uma criança quando confrontados com um aparelho sofisticadíssimo, cheio de luzes e botões com símbolos estranhos. O velhinho paralisa diante da complexidade, nem ousa tocar no aparelho pois tem medo que ele se escangalhe nas suas mãos. Não será até estranho que solte alguns palavrões e pragueje contra os malfeitores que inventaram aquela tecnologia e recorde em voz alta os bons tempos das velhas telefonias e das simples grafonolas.
Já a criança carrega em tudo o que pisca e no que não pisca também, e se não estragar o aparelho primeiro, ficará certamente a perceber como funciona. Este é um bom exemplo do comportamento adequado diante da vida. A vida impõe-nos constantemente situações novas e situações que nos exigem mudanças: As coisas mudam lá no escritório, ficamos sem trabalho, surgiu um divórcio, o peso da idade começa a reclamar alteração de comportamentos, uma doença que impõe novas regras à vida, os filhos que batem as asas e vão à vida deles, um ente querido que se afasta temporariamente regressando ao mundo espiritual.
São infindáveis as formas que a vida encontra de nos solicitar à mudança. Diante dessas mudanças que são inevitáveis na vida de todos nós, temos sempre duas opções: Ou fazemos como os velhinhos desanimados e frustrados que vão recalcitrando contra os ventos de mudança ou nos comportamos como aquelas crianças que aceitam a inevitabilidade das mudanças na nossa vida, ajustando a forma de se comportarem e usando-as como uma ferramenta de aprendizagem e crescimento.
Qual é o principal objectivo da vida? Como seres espirituais a desfrutarem de uma existência física, a principal razão da nossa vida, não apenas desta existência física, mas de toda a nossa vida espiritual, é mudar através da sublimação de nós mesmos, aprendendo e crescendo moral e intelectualmente. Não existe ambiente mais apropriado à aprendizagem do que esta vida. É um percurso cheio de vicissitudes, incertezas e lições duras que nos oferecem a oportunidade de aprender, corrigir e crescer ao longo de todo caminho.
Ao compreendermos que tudo o que nos acontece na vida está ao serviço do nosso crescimento e daquilo que precisamos aprender durante esta viagem com destino à felicidade, começamos a encarar a vida de uma perspectiva diferente. Começamos a entender a vida como um casulo que transforma a lagarta em borboleta, um ciclo permanente e extraordinário de oportunidades, experiências e desafios que nos convidam a desabrochar, desenvolver e prosperar.
Por Carlos Miguel Mudanças necessárias OPINIÃO Lá no escritório as coisas mudaram bastante nos últimos tempos e estão previstas ainda mais mudanças num futuro bem próximo. As alterações radicais que irão ser aplicadas à forma como trabalhamos estão a gerar bastante desconforto em quase toda a gente. foto loucomotiv SETEMBRO.OUTUBRO.2014 “A menina que nasceu duas vezes” é um excelente filme francês de 1989, realizado por François Villiers e que narra a impressionante história de Manika, uma adolescente que vive numa aldeia de pescadores no Sul da Índia e que desde pequena é assaltada por recordações de uma vida passada.
As memórias dos tempos em que vivia numa terra em que os Himalaias tocavam o céu e numa família de uma casta superior eram tão vívidas que Manika lembrava-se do seu antigo nome, da cidade onde morou, de quem era o seu marido, das causas da sua morte e de detalhes ainda mais particulares da sua outra vida. Frequentando uma escola católica, Manika atreve-se então a confidenciar algumas das suas lembranças ao seu professor, o Padre Daniel, que fica intrigado com o facto de uma criança tão pobre do Sul da Índia ter conhecimento sobre detalhes de lugares tão distantes.
Cada vez mais obstinada pelo seu passado e incapaz de se fazer compreendida pela família e pela comunidade, a jovem decide fugir sozinha para Mathura no Nepal, onde pretende confrontar as suas memórias com a realidade e reencontrar a sua antiga vida. O padre Daniel descobre-a a meio caminho e aceita conduzi-la aos lugares das suas lembranças, onde ela vai, não apenas comprovar a veracidade daquilo de que se lembra, reconhecer os mais minuciosos detalhes da sua vida e reencontrar o ex-marido e a sua família, como também ser plenamente aceite por eles como a reencarnação da sua querida Lakshmi.
Para o padre Daniel, esta torna-se uma viagem de descoberta que abala as fundições em que assenta a sua fé. As evidências que ele mesmo pôde comprovar dão-lhe a certeza de que a reencarnação é a única resposta possível para explicar um fenómeno tão impressionante, criando conflitos aparentemente insanáveis entre as novas convicções e os dogmas da sua igreja. A história de “A menina que nasceu duas vezes” baseia-se na vida de Shanti Devi, uma criança nascida no Sul da Índia em 1926 numa aldeia de pescadores.
O caso de Shanti Devi foi investigado pelo psiquiatra Ian Stevenson e está documentado na sua obra “20 Casos Sugestivos de Reencarnação”. Stevenson foi chefe do Departamento de Psiquiatria e Ciências Neurocomportamentais da Universidade de Virgínia nos Estados Unidos da América e dedicou parte da sua vida à pesquisa, análise e documentação meticulosa de cerca de três mil casos de crianças de todo o mundo que se lembravam espontaneamente das suas vidas passadas.
Através do seu trabalho de pesquisa, Ian Stevenson recolheu evidências científicas que comprovam a reencarnação e demonstrou que este tipo de lembranças de vidas passadas em crianças pequenas é muito mais comum do que se pensa. Mas pode o leitor questionar: Então porque a reencarnação não é aceite pela ciência? Para investigar casos com tal particularidade e de carácter excepcional, é necessário socorrer-se de um método de pesquisa e um modelo de recolha de dados que não se ajusta ao modelo materialista que é dominante.
Para além disso, a hipótese de que o cérebro não produz a consciência é aterradora para muitos cientistas. Felizmente, esta alergia não contagia a todos. Doris Kuhlmann, especialista Alemã em física e engenharia e colega de Ian Stevenson na Universidade de Virgínia, reconheceu que o trabalho do seu colega demostrou que “a probabilidade estatística de que a reencarnação seja uma realidade é tão elevada que a sua evidência não é menor do que a maior parte, se não de todos, os ramos da ciência.
” “A menina que nasceu duas vezes” é uma bonita história que honra a memória deste homem que saiu da zona de conforto em que se encontrava para estudar a reencarnação e deixar documentadas evidências científicas da sua realidade. Ian Stevenson estava convencido que quando os mecanismos que estão por detrás da reencarnação fossem conhecidos, isso iria originar uma “revolução de conceitos que iria fazer com que a revolução de copérnico parecesse banal.
” Quando se tornar universal, a ideia da reencarnação irá transformar completamente o mundo em que vivemos e a forma como se estabelecem as relações entre as pessoas. Nessa altura, os abismos das nacionalidades, dos credos, culturas e raças, que ainda fragmentam a humanidade em compartimentos estanques e limitados, ficarão reduzidos a tristes lembranças que apenas os livros de história recordarão. Título Original: Manika, Une Vie Plus Tard Realização: Fraçois Villiers Com: Ayesha Dharker, Julian Sands, Stéphane Audran França, 1989 - 106 min.
