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Opinião (pág. 14)

Jornal de Espiritismo nº 66 · Setembro 2014Página 144 min

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“Quando tiverdes feito tudo aquilo que vos foi ordenado, dizei: somos servos inúteis, fizemos o que devíamos fazer” (Lucas 17:10). Referíamos em texto anterior que evangelho significa “boa nova” e que às vezes aparenta austeridade e exigência pouco atraentes. Ponderemos com Paulo que “a letra mata mas o espírito vivifica” (2ª Cor 3:6), e que a boa nova nunca viria para nos desencorajar, pois é o seu arauto incomparável quem convida com mansidão reconfortante: “Vinde a mim todos os que estais cansados e oprimidos…Tomai sobre vós o meu jugo… E achareis alívio para as vossas almas, pois o meu jugo é suave e o meu fardo é leve” (Mat 11: 28-30).

Kardec aduz conspicuamente: tal jugo e fardo (as directrizes do Bom Pastor) são necessariamente suaves e leves porque assentes no grande princípio cósmico do amor (que a doutrina espírita reflete num lema primordial: “fora da caridade não há salvação”). Todo o contexto da Boa Nova nos mostra quão persuasivo e estimulante é o discurso do divino Amigo. Por exemplo, o grande mandamento de amar o próximo “como a si mesmo” implica amar-nos a nós próprios, despojar-se cada um de todo o sentimento de culpa, auscultar e fruir a própria harmonia e paz interiores, pressentindo-as também no íntimo do próximo, para lá dos equívocos e desvios do seu e do nosso ego.

Essa harmonia e paz intrínsecas, podemos e devemos encontrá-las no íntimo, onde Deus as imprimiu ao criar-nos “à sua imagem e semelhança”. Esta semelhança subjaz em germe no ser, para se desenvolver e florescer no processo natural de evolução; complementa (não contraria) o quesito 133 de O Livro dos Espíritos: “os espíritos são todos criados simples e ignorantes e instruem-se nas lutas e tribulações da vida corporal”.

Por exemplo, o grande mandamento de amar o próximo “como a si mesmo” implica amar-nos a nós próprios, despojar-se cada um de todo o sentimento de culpa, auscultar e fruir a própria harmonia e paz interiores, pressentindo-as também no íntimo do próximo, para lá dos equívocos e desvios do seu e do nosso ego. Aprofundando um pouco o trecho evangélico citado no início, alcançamos algo mais da sua riqueza pedagógica: se um bom servidor “não faz mais que o seu dever”, não lhe cabe envaidecer-se nem depreciar os menos adiantados e menos cumpridores, mas auxiliá-los a valorizarem-se.

Também já passou por aquela fase e perante Deus somos todos iguais, com a mesmíssima origem e também o mesmo objectivo final, apenas diferindo o número de etapas já vencidas por cada um, e as que lhe falta vencer. Com tal discernimento, vai a escalada evolutiva desbravando acesso para patamares e valores mais altos, como a tolerância, o sentido do perdão. Seria ilógico rotular as feras de “más”, e “bons” os animais mansos.

O lobo ou o cordeiro não são maus nem bons: apenas lobo, apenas cordeiro, conforme os programou a Inteligência Suprema para ordem e equilíbrio da Vida (no caso, da cadeia alimentar e outras áreas da natureza global). “Não há rapazes maus”, repetia o Padre Flanagan, protagonista do filme americano “Alarme na Cidade dos Rapazes”, muito em voga há uns setenta anos. Com efeito, em rigor não há pessoas más: vai cada um no seu nível evolutivo, com acervo mais ou menos rico de progresso em sentimentos e inteligência.

Não pode a humanidade duma época avaliar com critérios atuais, atos e factos de épocas anteriores, de contexto evolutivo muito diferente, sendo relevante a exortação do divino Amigo para “não julgarmos…” (Mat 7:21). Ainda no versículo de abertura destas linhas, ponderemos: o Bom Pastor não se coloca na postura de amo autoritário diante dos servidores, como poderia supor-se. Muitas outras passagens mostram inequivocamente o seu carinho de mestre para com os discípulos.

Por exemplo, as palavras de despedida na última ceiam, horas antes de acabar a presença física entre eles: “Vós sereis meus amigos se fizerdes o que vos mando… Chamei-vos amigos, porque tudo quanto ouvi do Pai vo-lo dei a conhecer” (João 15:15). E perfeitamente sabedor da situação ao receber o beijo traiçoeiro do discípulo equivocado, longe de o recriminar disse com afabilidade: “Amigo, a que vieste?” (Mateus 26:50).

João Xavier de Almeida foto loucomotiv SETEMBRO.OUTUBRO.2014 existe total aceitação e me submeto, com alegria, ao Senhor, dizendo-Lhe: Senhor, ajuda-me a aceitar inteiramente o meu passado. Se eu tiver tido inúmeros nascimentos, ajuda-me a aceitar todos eles. Que eu veja claramente a sabedoria de aceitar-me e de como posso mudar o entendimento de mim, de Ti e do mundo. Que me esforce na medida certa para o conseguir.

Que o meu tempo e energia sejam direccionados a mudar o que posso e não a tentar mudar o que não posso. Ajuda-me, Deus, a aceitar a mente autojulgadora, autocrítica, autoacusadora, autocompassiva. Ofereço-te a minha vontade. Não quero a Tua graça para evitar a autocrítica, mas sim para aceitá-la. Peço-Te serenidade para simplesmente aceitar a totalidade do meu passado e as suas consequências. Possa eu ter o amor por reconhecer, o amor por ser objectiva/o.

Que eu não fique com temor do erro, nem confundida/o entre convicções válidas e infundadas. Ora e ora sempre, advertia Joana de Ângelis. A liberdade última é a do pensamento; “pode-se-lhe deter o voo, porém, não aniquilá-lo”, ensina “O Livro dos Espíritos”. Não posso saltar do avião, mas não deixo de me encher de alegria ao ‘recordar’ umas belas croquetes nas nuvens.