Crónica
Jornal de Espiritismo nº 68 · Outubro 2015Página 154 min
Imagine um diálogo com os livros de Allan Kardec que começa assim: “quero ter medo da morte”. E O Livro dos Espíritos, na sua paciência, per- gunta sorrindo: “E porquê esse desejo agora se nunca na tua vida tiveste tal medo?”. Sem jeito, insistimos: “tenho um familiar que sofre de hipocondria. Sendo uma das causas desse distúr- bio o medo da morte, acho que só vou conseguir ajudá-lo se perceber exacta- mente o que ele sente, já que ele rejeita o Espiritismo ou qualquer espiritualis- mo”.
Neste ponto do diálogo, damo-nos conta de que já fomos levados pela conversa da mente. E a mente tem de perder a capacidade de atrair a nossa atenção. Além disso, sabemos que existe uma presença que é constante, que não está a pensar, que não tem emoções, que é completa e livre, e essa presença é o verdadeiro ser do pensar, do sentir, do imaginar e do perceber. É a essa presença que Léon Denis chama de “consciência profunda”, onde está inscrita a lei de Deus (LE, q.
621), que se revela à “consciência normal”. Essa consciência profunda não vai e vem, é a presença perene e permanente em cada momento. Isto precisa de ser reconhecido e só acontece quando não agarramos os pensamentos e resisti- mos à curiosidade de seguir a mente como espelho do que somos. Nesse momento, estamos em conexão com Deus, em lembrança e em contempla- ção. Essa lembrança é permanecer, de forma firme, sem objectificação e sem esquecimento no conhecimento de que somos criaturas de Deus, do amor Dele e “mergulhados no fluido divino” (“A Génese”, cap.
2). Não esquecer significa a disponibilidade desse conhecimento sem esforço, como quando perguntam o nosso nome: a resposta é espontâ- nea, não fazemos um esforço para lem- brar o nosso nome. Normalmente não nos lembramos dele, mas quando nos é perguntado, está disponível para nós. Assim deve ser a lembrança de que somos filhos de Deus. Afinal, que pode a morte fazer contra aquela pessoa que não se deixou confundir, nem distrair por desejos ou pelos objetos com que se ocupa a cada momento?
Para essa pessoa, a morte não inspira medo. Da mesma forma, para aqueles que buscam refúgio com o conhecimento que vence a morte, a noção de «eu» morre primeiro. Mas, sendo nós espíri- tos imortais por natureza, como existe novamente espaço para a ideia de morte? A mortalidade é uma sobrepo- sição no que somos, que pode até ser sustentada por vivências na infância, como nos ensina “O Livro dos Espíri- tos” (q. 941). Porém, nós não precisa- mos de atingir a imortalidade porque essa já é a nossa natureza.
Só precisa- mos de remover a noção equivocada de mortalidade com a ajuda do autoconhe- cimento. Só assim percebemos que a realidade do “eu” ou do “ego” é mera- mente transitória. E se a realidade do ego, que é a base para o medo e para a insegurança típicos num hipocondríaco cai, deixa de existir razão para o medo. Então, vemos como o Espiritismo é um conhecimento que põe em causa o eu filho, em vez do problema do filho, o eu pai, mãe, irmã, marido, esposa, empregador, empregado, espírita, em vez do problema do pai, mãe, irmã, marido, esposa, empregador, emprega- do, espírita.
O mesmo é dizer que não devemos atacar o problema do filho ou do irmão, mas perguntar-nos se somos o filho ou a irmã. É esse questionamen- to que também é incitado neste trecho: “Quando considero a brevidade da vida, dolorosamente me impressiona a incessante preocupação de que é para vós objeto o bem-estar material, ao passo que tão pouca importância dais ao vosso aperfeiçoamento moral, a que pouco ou nenhum tempo consagrais e que, no entanto, é o que importa para a eternidade (ESE, cap.
6). Muitas vezes, a questão é que, maio- ritariamente, as pessoas vêm para o Espiritismo como uma individualida- de, como pai, mãe, filho, engenheiro, médico, etc... A individualidade vem e luta para mudar a visão do mundo sem tentar mudar a visão de si mesmo. O indivíduo vem para o Espiritismo não para remover a sua individualidade, mas para a melhorar. E o Espiritismo, sendo baseado no roteiro de vida que é o Evangelho de Jesus, também pode ajudar nisso: como posso ser um filho mais feliz, um amigo, companheiro, um pai ou mãe mais competente, etc.
Isto significa que raramente abrimos mão desses papéis. Mas, em algum momento, é preciso compreender que o foto loucomotiv Porém, nós não precisamos de atingir a imortalidade porque essa já é a nossa natureza. Só precisamos de remover a noção equivocada de mortalidade com a ajuda do autoconhecimento. JANEIRO.FEVEREIRO.
