obsessão do Capitão Ahab é um excelente ponto de partida para uma refl
Jornal de Espiritismo nº 68 · Outubro 2015Página 165 min
A obsessão do Capitão Ahab é um excelente ponto de partida para uma reflexão sobre a ideia de justiça e os impulsos vingativos ainda latentes na nossa sociedade. Cego pela vontade de vingança, o capitão Ahab não ficara apenas privado de uma das suas pernas, a baleia roubara-lhe também a sanidade e os valores que o fizeram um homem respeitado. Já no final da epo- peia, ainda antes de Moby Dick afundar o baleeiro e destruir quase toda a tripulação, o imediato Starbuck procurou em último recurso despertar a lucidez atordoada do capitão: “- Oh, Ahab!
Não é muito tarde, mesmo hoje, ao terceiro dia, para desistir! Vê! Moby Dick não te procura. És tu, tu, quem loucamente o persegues!”. Starbuck procurava que o capitão enxergasse o óbvio. Para além da enormidade apresentada e do violento instinto selvagem, nada havia de maléfico naquela baleia branca rasgada por cicatrizes profundas e cravejada de velhos arpões, símbolos pouco gloriosos da vitória sobre incontáveis tentativas de captura.
O único monstro que existia em Moby Dick era projectado pelo distúrbio obsessivo de um homem magoado. A obsessão do Capitão Ahab é um excelente ponto de partida para uma reflexão sobre a ideia de justiça e os impulsos vingativos ainda latentes na nossa sociedade. Nas épocas longínquas das fases primitivas da humanidade, a vingança era a lança afiada da justiça, punindo-se o agressor de uma forma desproporcional ao crime como castigo pelo desrespeito revelado.
Numa fase posterior, com o aparecimento das primeiras sociedades, passou a conceber- -se a justiça em rigorosa reciprocidade aos delitos, uma justiça fiel ao princípio do “Olho por olho, dente por dente”. O surgimento do Iluminismo marca o início de uma fase mais humanista, de respeito pela dignidade humana e dos seus direitos fundamentais, rejeitando os castigos físicos e as penas torturantes. A ideia de justiça deixava de ter como único objectivo punir o crime mas também prevenir a reincidência e reabilitar o criminoso.
Com o progresso científico e uma maior compreensão da psicologia humana, passaram também a ser conside- rados imprescindíveis para a aplicação da justiça a análise das circunstâncias emocio- nais, sociais e motivacionais, servindo estas como fatores atenuantes ou agravantes para a aplicação das medidas coercivas. A ideia de justiça foi evoluindo do ímpeto punitivo para uma maior preocupação em compreender e reabilitar.
Mas, por vezes, parece inglório fazer esta ideia saltar dos calhamaços filosóficos, éticos e jurídicos para se implantar na consciência das pes- soas. Pelos padrões morais de grande parte da população mundial, a vingança é um comportamento negativo e desajustado que deve ser evitado mas, na prática, a vingança como instrumento punitivo de uma ideia de justiça rudimentar ainda não desapareceu da face da nossa sociedade.
O instinto para provocar sofrimento aos que nos prejudica- ram ainda abunda na vida diária. Um quinto dos assassinatos em países desenvolvidos tem como causa primária a vingança mas quem pensa que ela se resume aos crimes hediondos ou às insanidades dos povos em guerra, engana-se. Vingamo-nos todas as vezes que repetimos comportamentos que nos magoaram com a justificação de que o outro também o fez. Quando violentamos os direitos daqueles que nos prejudicaram, quando desprezamos os que nos odeiam, quando devolvemos intrigas aos intriguistas, quando respondemos ao desrespeito com humilhação, quando usamos a indiferença como resposta à ingratidão, estamos a utilizar posturas vingativas.
E quantas vezes, doridos por perdas irreparáveis, humilhados no amor-próprio, cruciados pela injustiça de uma dor que não julgávamos merecedores, permitimos que emoções corrosivas nos fa- çam confundir justiça com a vontade de ver o responsável por essa dor sofrer? Poderá o sofrimento de alguém restituir o que per- demos? Sem nos darmos conta, a vingança primitiva toma a forma mentirosa de justiça tal como o lobo se dissimula na pele de um cordeiro, e vai-nos possuindo e transfigu- rando até quase não haver distinção entre a qualidade dos nossos sentimentos e os atos praticados por quem consideramos agressor.
Mas esta singular perseguição a Moby Dick não termina por aqui. Se a justiça humana pactua com a impunidade ou não é sufi- ciente para sossegar a sanha vingativa, é comum transferir-se a responsabilidade punitiva para Deus, apelando ao tribunal de suprema instância do Universo. “Deus não dorme!”, “Deus tarda mas não falha!”, são algumas das muitas expressões utilizadas para amenizar as feridas abertas que o ressentimento não deixa cicatrizar, reféns de velhos hábitos em que se entendia a dor como um instrumento divino de punição.
Como pode o amor mais sublime aplicar uma ideia de justiça que nada fica a dever aos mais selvagens dos homens? Deus não é juiz e muito menos carrasco. A todos os Espíritos confusos e em ignorância, erro após erro, Deus concede consecutivas e infindáveis oportunidades para aprenderem, corrigirem a sua postura e evoluírem rumo à perfeição. O maior julgamento acontece no reduto da alma, quando a ignorância e o egoísmo despertos para o erro, se confrontam com a consciência.
A Lei de Causa e Efeito e a Reencarnação são as mais sublimes expressões da justiça divina, que tem na reabilitação do infrator o grande objectivo dos seus procedimentos. A vida é uma permanente oportunidade de evolu- ção e reabilitação, oferecendo ao espírito através de diferentes condições e desafios a possibilidade de crescimento e sublimação, aprendendo a ajustar as suas acções e sen- timentos com as leis divinas que regulam o Universo.
Mas, enquanto alimentarmos os mais ínfimos resquícios de vingança, o Capitão Ahab ainda dominará as nossas emoções. E sempre que alguém nos roubar um qualquer pedaço precioso, sempre que nos permitirmos embarcar em jornadas íntimas de ressentimento, retaliações e lembran- ça permanente das agressões sofridas, a baleia Moby Dick continuará a assombrar o navio da nossa vida, levando-nos com ela até ao impenetrável e sombrio mundo da loucura íntima.
Por Carlos Miguel No rasto de Moby Dick OPINIÃO Numa das perseguições mais minuciosas da história da grande literatura, o escritor Herman Melville transporta-nos a bordo do baleeiro Peacock para que acompanhemos de perto a obsessão do seu capitão por Moby Dick, a lendária baleia branca que lhe levara a perna esquerda numa caçada anterior. foto loucomotiv JANEIRO.FEVEREIRO.
