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Atualidade (pág. 11)

Jornal de Espiritismo nº 69 · Dezembro 2015Página 117 min

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limitada de recursos alimentares. Estes consistem basicamente em pequenos invertebrados, como aranhas ou os insetos e as suas larvas. Se o casal de carriças não defender com competência este bem escasso de intrusos não conseguirá provavelmente levar a bom termo a sua prole. Por isso, para prevenir danos corporais que resultam de um combate corpo a corpo, antes que se tenha de chegar a vias de facto, usa também técnicas de persuasão.

Basicamente é a sonoridade do seu canto e uma série de expressões corporais. Resulta! Há custos a apontar? Sim, obriga a um maior dispêndio de energia, há risco de lesões, dá maior exposição a predadores… E benefícios? Ei-los: diminuição da pressão predatória, aquisição mais eficiente de alimentos, aumento da atração reprodutiva, proteção das crias e parceiros reprodutores, defesa mais eficaz de recursos limitados… Face a este balancete, não é de estranhar que a espécie humana também use formas de persuasão, pára-choques de conflituosidade, até sem pensar nisso, que tentam evitar o combate direto e os ferimentos daí decorrentes.

Mas o caso não carece aqui de desenvolvimento. E, agora, fica esta pergunta: até que ponto uma opinião que se imponha num qualquer grupo de seres vivos levará consigo um desejo afim de ascendência territorial? Será por isso que fazemos tanta questão de ter razão face a outrem? Na história do ser humano a territorialidade, embora inicie sempre no indivíduo, ganha uma dimensão social. Para se defender ou fazer valer a sua vontade, isolado pouco pode, mas associado a outros, ganha uma força expressiva.

Da família passa à tribo, desta passa ao clã e depois à nação. De repente vê-se como uma peça num sistema global, sem nunca conseguir deixar de lidar com a sua individualidade. Todos iguais, todos diferentes. Opiniões extremadas Às duas por três os jornais dão conta dos dramas. Recordo ter ouvido há alguns anos que numa simples disputa de rega de campos agrícolas, no Norte, um proprietário resolveu cortar o caminho à água de rega quando esta seguia com normalidade para um campo vizinho.

Este outro proprietário decerto somou a picardia a algumas outras e, num dia mau, ao discutir, levantou a sachola à cabeça e mandou o interlocutor para o hospital. Mais um caso de polícia e um desencarne (falecimento) eventualmente prematuro. Lembro também, algo mais recente, dois automóveis que se picaram na auto-estrada Porto-Lisboa. Depois da troca de galhardetes em ultrapassagens sucessivas acompanhadas dos comentários de feição, um dos carros estaciona na primeira estação de serviço, seguido do outro.

Eram dois casais, de idades diferentes. O que seguiu o primeiro saiu da viatura com um revólver na mão e desferiu dois tiros no peito do antagonista. Mais um caso de polícia e um desencarne (falecimento) eventualmente prematuro… E os casos recorrentes de ciumeira e paixão assolapada? São mais que muitos. Haja paciência! As pessoas que dizemos amar não são passarinho de gaiola. São autónomas, livres de gostar de nós ou não, conforme nós próprios gostamos de requisitar essa regalia a nosso favor a toda a hora.

Contudo, há uma larga escala que vai do mais grave ao mais suave no que toca a diferenças de opinião. Dois amigos vão na estrada, um furo no pneu. Impossível ignorar. Esteve a chover na noite anterior. Com o carro parado na berma, vê-se que a seguir ao pavimento alcatroado há saibro, amoleceu. O mais experiente diz: «Olha que é preferível meter por baixo do macaco um pedaço de madeira ou uma pedra, senão o pneu não sobe».

O compincha, que já vai de ferramenta em punho, tem pressa. Fala na risota: «Macaco? Isso é no jardim zoológico!». Manipulada ao limite a ferramenta com nome de mamífero, o carro não subiu. Basta refazer de forma inteligente. Tudo se resolve, não há conflito. Aprender a brincar É sempre bom atenuar a conflitualidade que facilmente nasce da interação humana. A maior parte das vezes nos conflitos a violência aparece sem necessidade.

Podemos revisitar esse facto no nosso próprio dia-a-dia. O mais engraçado é que no quotidiano, em casa de cada um, há mínimas contrariedades vindas de pequenas diferenças de opinião que se vão somando e se sedimentam. Com isso, aumentam a pressão devagar, muito devagarinho. Só se dá conta quando a panela já não aguenta e começa a avisar… Fernando pôs mais uma vez a mesa para o jantar, ligeirinho, porque há outras tarefas para desbastar.

Conhece aquelas toalhas de mesa que depois de uma dúzia de passagens pela máquina de lavar já não se sabe qual é a frente e o verso? Pois é! Este compincha garantiu-me que ainda hoje vê um lado e outro destas toalhas de mesa e fica numa dúvida imortal… qual é a frente e qual é o verso? O assunto seria irrisório, mas Maria quando vê a mesa posta, perante a expressão incrédula do colaborador dispara invariavelmente: «Poça!

Não é que não fazes nada de jeito? Eu acho que fazes de propósito, para ver se acabas por não fazer nada!». Se ainda der para rir, ele ri e diz, dúbio: «Eu era lá capaz de te fazer uma coisa dessas!». O humor desanuvia, descomprime. Desdramatizar, simplificar é a melhor medida. É fantástico brincar com as imperfeições que não conseguimos até hoje superar. Ajuda-nos a identificá-las, a conhecê- -las melhor para as podermos sublimar, corrigir se quiser.

O pior a fazer seria aumentar a sequência de agressividade que normalmente funciona em dois pólos – o nosso e o de outrem. Se nos recusarmos a entrar nesse jogo, o fogo diminui e tende a apagar-se. Às vezes para perceber as razões dos outros, basta ver apenas um pouco mais do que o nosso ângulo sobre a questão. Zé Quim olha para um 9 que rodou 45 graus no sentido dos ponteiros do relógio e ri-se a bandeiras despregadas só porque Quim Zé, do outro lado, afirma que não é o que ele diz, o número é obviamente um 6.

Quem usar a cabeça para pensar decerto entenderá que de um lado o número correto é mesmo 6 e do outro – o mesmo carater – é um 9 perfeito… Isto evidencia um trabalho elementar que a maioria da humanidade ainda não encarou. Na verdade, ter um ponto de vista diferente não é sinónimo de inimizade. Por que motivo temos de ter sempre razão? Se esta pergunta fosse colocada por cada um a si próprio diariamente quem sabe se o caminho de autoconhecimento não progrediria um tanto mais?

Será que no fundo gostamos é de ser valorizados no grupo em que estamos? Por que se gosta tanto de ter razão? Será por uma questão imperativa de haver justiça? É porque apreciamos a satisfação do bem comum? E isso justifica realmente que grau de conflito? Perdemos razão só porque outros não a reconhecem? Não. Só se for no papel, mas vivemos sobretudo na realidade em matéria de consciência… O problema está mesmo no outro ou está em mim?

O que é ter razão? É crer que se está na posse da melhor solução. Nem sempre compensa forçar a nossa razão. Pode ser inoportuna, podemos estar enganados por não termos acesso aos dados suficientes, e pior ainda: a imposição da nossa razão pode gerar danos maiores ao bem comum do que simplesmente guardá-la na nossa própria consciência. Estamos a caminhar há muitos milénios numa estrada chamada amor, mesmo sem sabermos, e estamos também nesse percurso a aprender a substituir a agressividade recorrente pelo incomensurável poder da gentileza.

Pouco a pouco, pela experiência desta vida de muitas faces em muitos tempos dirimimos numerosos conflitos internos e externos na interiorização de uma conclusão assaz luminosa: “o meu amigo não é o que pensa como eu – é o que pensa comigo”. Para isso, há um treino excelente que é o de lidar o mais possível com pontos de vista diversos e deixar socializar fraternalmente as nossas opiniões com as de outrem. Em soluções que têm de surgir, vem a jeito criar consensos e colocar o interesse geral acima do ego.

A necessidade de ter razão que vemos quer em crianças quer em adultos normalmente revela uma predominância subjetiva, relativa ao sujeito que a possui. Por isso por vezes é tão difícil explicar problemas simples a quem se ancora nessa imobilidade de natureza emocional. Quando se dialoga sobre divergências de opinião de forma racional, é mais fácil: o fio condutor é objetivo, vincula-se a uma realidade universal, revela uma estrutura racional.

Ninguém precisa de renunciar a ter opinião. É bom quando ela existe. Há, porém, que perceber as limitações dos próprios pontos de vista e estar aberto a factos confirmados. Nas emergências que por vezes surgem, é de partilhar consigo estas ideias que se leem num livro psicografado por Francisco Cândido Xavier, intitulado «Pai Nosso», ditado pelo Espírito Meimei: «O silêncio ajuda sempre: Quando ouvimos palavras infelizes.

Quando alguém está irritado. Quando a maledicência nos procura. Quando a ofensa nos golpeia. Quando alguém se encoleriza. Quando a crítica nos fere. Quando escutamos a calúnia. Quando a ignorância nos acusa. Quando o orgulho nos humilha. Quando a vaidade nos provoca. O silêncio é a gentileza do perdão que se cala e espera o tempo.» Fonte: adaptação de texto do livro “Do pós-vida à mediunidade e da reencarnação ao bulllying” de Jorge Gomes, edição FEP, 2014.

MARÇO.ABRIL.2015 É sempre bom atenuar a conflitualidade que facilmente nasce da interação humana. A maior parte das vezes nos conflitos a violência aparece sem necessidade.