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Crónica

Jornal de Espiritismo nº 69 · Dezembro 2015Página 133 min

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foto loucomotiv “Sede perfeitos” não é, pois, o que poderia parecer: exigência severíssima, desanimadora, impossível de cumprir. O Bom Pastor, profundamente cônscio dos textos sagrados, sabia o que dizia, e a quem. Demonstração viva de quanto ensinava, compreendia e procurou fazer compreender que no Homem, imagem e semelhança do seu Criador, está impresso o germe da infinita perfeição divina para se desenvolver, florescer, frutificar, no longo percurso pelos três reinos da Natureza; e para além, muito além deles.

Criatura alguma foge ao processo, programadas que foram todas, pela Inteligência Suprema, para atingirem a plenitude. Em «O Evangelho Segundo o Espiritismo», o capítulo XVII traça um perfil do homem de bem, que em consciência se interroga: Fiz todo o bem que podia? Fiz aos outros o que gostaria que me fizessem? O Prémio Camões de Literatura, instituído vai para três décadas pelos governos de Portugal e Brasil, foi no ano passado atribuído ao poeta, ensaísta e historiador brasileiro Alberto Costa e Silva.

A jornalista Fátima Campos Ferreira entrevistou-o para a TV, observando a certa altura: com essa paixão por livros, o seu paraíso terá muitos livros? O entrevistado respondeu ser descrente, não acreditar em paraísos. Adiante, a jorna- lista quis saber em que atividade (professor, diplomata, escritor) ele se sentira mais realizado; retorquiu o entrevistado não se sentir realizado nelas, mas algo frustrado na ambição de ser santo.

Comentando a jornalista ser isso impossível, já que ele era descrente, aduziu Costa e Silva com vivacidade: “santidade não depende de crenças religiosas; santo é um ser excecional que faz os outros felizes”. A tocante singeleza do conceito faz ponderar a sua profundidade, dar atenção à obviedade de que ser santo consiste, não em rezas e confissões, mas antes num harmonioso estado interior de presença do nosso melhor (a raiz divina), que rescende naturalmente, derramando paz.

O início deste texto refere o sermão da montanha como arrebatador. Não pela qualidade retórica, aliás excelente, mas por uma intensa comunicatividade, continuando a arrebatar dois mil anos depois. O enorme potencial de persuasão que o Rabi exsudava provinha-lhe do íntimo, afeito à puríssima energia da comunhão espiritual com o Pai. O capítulo 6.º do Evangelho de Lucas refere que Jesus, quando proferiu o extraordinário sermão, estivera isolado toda a noite anterior em oração, na montanha.

Não ocorre a ninguém que o Divino Amigo o fizesse entre velas, paramentos, cerimónias, fórmulas rituais; mas podemos imaginar o profundo recolhimento da sua comunhão mental com o Pai, reunindo energia sublime com que discursou à multidão e lhe trouxe a alegria Novas de alegria – 4 dum novo conceito de Deus: já não o velho ser implacável, de temíveis oscilações de humor; antes o Pai de infinita compaixão, desejoso não da morte do pecador, mas da sua conversão e vida; o Pai de amor inesgotável acessível a todos, sem limites senão os da nossa ignorância.

No empolgante sermão da montanha e em todo o seu magistério, o incomparável Educador de Nazaré legou à Humanidade uma pedagogia riquíssima, de bases necessárias e suficientes para amadurecermos, nos libertarmos de mitos aberrantes, como condenações eternas ou a moralzinha flácida do poder religioso seu coetâneo e do vindouro. Detentor de porte irrepreensível, o divino Amigo, sereno perante usurários, ladrões, adúlteros, traidores, corruptos, jamais condenou ou excomungou: antes exortava e estimulava, sempre compassivo, edificante, persuasivo.

Por João Xavier de Almeida “Sede pois perfeitos, como perfeito é o vosso Pai celeste” - exortava o Divino Amigo, no arrebatador sermão da montanha. Como advertira antes, não estava a revogar a Escritura Sagrada nem ensinava algo que ela não contivesse; o Antigo Testamento (Levítico 19.2) já exarava: “Santos sereis porque Eu sou santo, Eu o Senhor vosso Deus”. MARÇO.ABRIL.2015 “santidade não depende de crenças religiosas; santo é um ser excecional que faz os outros felizes” Divulgar o Espiritismo?