Crónica
Jornal de Espiritismo nº 70 · Maio 2015Página 133 min
Noutras palavras: o codificador da doutrina espírita nunca forçou adesão de ninguém ao Espiritismo. Com isso ele firmou uma pilastra de respeitabilidade às convicções religiosas alheias, numa demonstração de caráter doutrinário merecedor de destaque e credibilidade. Aquele resistente às ideias espíritas recebera naquele instante uma lição: a liberdade de crença é postulado de respeito do Espiritismo e, naturalmente, dos verdadeiros espíritas.
No livro ‘O que é o Espiritismo’ podemos encontrar exemplos de lealdade e fidedignidade a uma doutrina séria e de amor ao próximo. Os charlatães seguramente se afastarão de princípios espíritas, por encontrar neles o despertar de uma nova era. Torna-se fácil entender os porquês da vida e na busca incessante pela verdade, o Mestre Jesus torna-se naturalmente o centro das convicções filosófico-religiosas capazes de libertar qualquer pensamento duvidoso que surgir no caminho.
Nesse diálogo publicado na obra esclarecedora, Kardec abre o debate com o seu interlocutor, chamado de Visitante, demonstrando a transparência de uma fé raciocinada, que não tropeça no lodaçal da ignorância e nem se permite ao engodo da curiosidade leviana. Quando solicitado para a promoção das coisas inusitadas da mediunidade, conclamado a fazer o seu ouvinte dobrar-se pelas impressões causadas pela manifestação prática, o codificador obtemperando as insistentes solicitações do Viajante assim respondeu: “[...]
Eu não forço nenhuma convicção. Quando encontro pessoas sinceramente desejosas de se instruírem e que me dão a honra de solicitar-me esclarecimentos, é para mim um prazer, e um dever, responder-lhes no limite dos meus conhecimentos. Quanto aos antagonistas que, como vós, têm convicções firmadas, eu não faço uma tentativa para os desviar, já que encontro bastante pessoas bem dispostas, sem perder meu tempo com as que nãoosão.
A convicção virá, cedo ou tarde, pela força das coisas, e os mais incrédulos serão arrastados pela torrente. Alguns partidários a mais, ou a menos, no momento, não pesam na balança. Por isso, não vereis jamais zangar-me para conduzir às vossas ideias aqueles que têm tão boas razões como vós para delas se distanciarem”. O parecer de Allan Kardec acerca da liberdade de crença é tão atual como até se confunde com uma contradição sem precedentes, tendo em vista que o proselitismo religioso somente procura nas pessoas números suficientes para atestar o poder de sua religiãoeo alcance verdadeiro de sua crença.
Não sendo outra a intenção almejada, os movimentos religiosos quando fracassam no argumento de dobrarem os seus séquitos à sua fé, buscam impressioná-los com a forma dominadora pelas atitudes exteriores – que em nada contribuem para o desenvolvimento moral do ser interior. Muitos desavisados hão de estranhar essa atitude lógica que tão bem demonstra uma postura espírita. E, sabedor das dúvidas e falseamentos possíveis, o cauteloso Kardec deixou insculpido nas elucidações do ‘Credo espírita’, em ‘Obras póstumas’, que o verdadeiro crescimento espiritual e sua ordem moral superior será assim estabelecida: “Dando a prova material da existência e da imortalidade da alma, nos iniciados nos mistérios do nascimento, da morte, da vida “Eu não forço nenhuma convicção”* futura, da vida universal, tornando-nos palpáveis as consequências inevitáveis do bem e do mal, a Doutrina Espírita faz, melhor do que todas as outras, ressaltar a necessidade de aperfeiçoamento individual.
Por ela o homem sabe de onde vem, para onde vai, por que está sobre a Terra; o bem tem um objetivo, uma utilidade prática; ela não forma o homem somente para o futuro, forma-o também para o presente, para a sociedade; pelo seu aperfeiçoamento moral, os homens preparam sobre a Terra o reino de paz e de fraternidade”. É perfilado desses valores que se desdobra - -se a paz, não deixando esquecer que essa construção é individual, espontânea e interior, sem o que tudo que se ergueu ruirá quando não atende a esses postulados.
Antes de pensar em convencer, necessário é semear a liberdade religiosa. Por Kildare de Medeiros Gomes Holandakildare.gomes@gmail.com O diálogo prolongou-se por mais tempo, mas na afirmação de liberdade Kardec ensejou de forma lúcida que cada ser individualizado pelo espírito que possui desempenhe, como senhor da sua própria vida, a escolha que merecer ou promover na seara religiosa. MAIO.JUNHO.2015 Quando encontro pessoas sinceramente desejosas de se instruírem e que me dão a honra de solicitar-me esclarecimentos, é para mim um prazer, e um dever, responder- -lhes no limite dos meus conhecimentos.
