Opinião (pág. 12)
Jornal de Espiritismo nº 70 · Maio 2015Página 124 min
É por isso que todos os sistemas de conhecimento válidos, desde os Vedas ao Evangelho e ao Espiritismo, sugerem uma disciplina em relação à palavra que se resume ao estar alerta para o tipo de conversas que são fomentadas. Regra geral, a expressãoeo pensamento estão associados. Se um é apropriado, o outro também o é. Na forma de nos expressarmos podemos corrigir a forma de pensar. É quase impossível corrigir directamente o pensamento, mas se nos corrigirmos na expressão, o pensamento ajusta-se naturalmente.
Assim, abandonamos palavras e reclamações que não têm qualquer significado e não servem nenhum propósito, mesmo numa época de banalização e hiperbolização do uso da palavra em redes sociais. Um exemplo típico são as reclamações sobre o tempo, “chove muito”, “está tanto calor”, “ que frio”. Não podemos mudar o tempo, logo não serve de nada reclamar. Falar sobre os demais – mesmo que os demais sejam espíritas ou centros espíritas – também é um uso desnecessário da palavra.
Aliás, foi Jesus o primeiro a dizer (referindo-se à palavra e não à alimentação): “Não é o que entra na boca que macula o homem; o que sai da boca do homem é que o macula. O que sai da boca procede do coração e é o que torna impuro o homem; - porquanto do coração é que partem os maus pensamentos, os assassínios, os adultérios, as fornicações, os latrocínios, os falsos-testemunhos, as blasfémias e as maledicências. - Essas são as coisas que tornam impuro o homem” (Mateus, 15:11- 20).
Em termos práticos, a literatura espírita sugere nunca falar da vida pessoal das pessoas ou relatar conversas privadas a terceiros ausentes nessas conversas. Uma coisa é falarmos, com base em experiência própria, sobre o que uma pessoa diz em termos do ensinamento, do Evangelho, do Espiritismo ou outra coisa, mas tudo o mais não deve ser tocado. Por exemplo, um professor pode ter de lidar com visões de outras pessoas sobre o ensinamento para eliminar dúvidas, mas não sobre visões, atitudes ou sobre a vida pessoal.
Outra sugestão é evitar o uso desnecessário de adjectivos e de redundâncias. É importante não nos juntarmos a lados ou a facções e não nos deixarmos associar emocionalmente ao relativo. Deve-se, sim, procurar desenvolver uma neutralidade na mente que permita evitar reacções automáticas ou mecânicas que privilegiem a escolha deliberada de acções de resposta ao mundo (“Pondera sempre”, in “Pão Nosso”, Emmanuel/Chico Xavier).
Claro que isto é diferente de querer agradar aAeB para aproveitar os dois. Podemos ver estas instruções em dois sentidos: de nós para com os demais e vice-versa. No primeiro sentido, significa não alimentar excesso de simpatia, de crueldade ou de ódio em relação aos outros. Porquê? Porque, em nome de querer agradar aos demais, a pessoa vê-se na circunstância de agir, fazer isto ou aquilo O carácter sagrado da palavra disciplina desenvolve um alerta e um estar presente em cada momento incomparáveis.
Por exemplo, certos vermes podem viver confortavelmente em meios tóxicos, sem serem afectados pela toxicidade do ambiente. Esse exemplo ilustra uma situação em que alguém considera algo como sendo sem valor, mas esse algo, para outra pessoa, significa muito, como o macaco que come a banana e descarta a casca, que irá ser comida por outro, bem como a sua possibilidade contrária. Este exemplo aponta para a situação daqueles que, sem suspeitar que existe a felicidade ilimitada de e em nós contentam-se com insignificâncias banais expressas pela palavra e pelos acfoto loucomotiv Que palavras sem significado não sejam ditas.
A recomendação evangélica é simples, mas o seu cumprimento nem tanto. Emmanuel, em Pão Nosso (psicografia de Chico Xavier) sublinha que “nunca é demasiado comentar a importância e o carácter sagrado da palavra”. MAIO.JUNHO.2015 Não é o que entra na boca que macula o homem; o que sai da boca do homem é que o macula. e, muitas vezes, afasta-se do que sabe ser apropriado. Com isso, a pessoa perde-se. No segundo sentido, que o elogio, a indiferença ou a censura das pessoas não sejam valorizados.
Às vezes, elogiam-nos e outras vezes censuram-nos. O adequado será não nos deixarmos afectar nem por uma situação nem por outra. Por que é que esta disciplina da palavra é tão importante? Ela é, na verdade, uma das mais cruciais práticas de quem pretende aplicar o Evangelho no seu quotidiano, mas também de quem busca o conhecimento de si próprio como filho de Deus, cumprindo o programa divino da palavra de Jesus. Esta tos.
E é facto sabido que se não estivermos preparados para receber o conhecimento sobre nós mesmos, ele não irá chamar a nossa atençãoenão lhe daremos a menor importância. Como deve, então, ser o nosso discurso ou conversa? Um discurso que não cause agitação, que seja verdadeiro, agradável e benéfico, e o estudo diário do Evangelho é o que se entende por disciplina da palavra. Em resumo, devemos obedecer a 4 princípios: 1.
Ser cuidadoso na forma de se expressar para que as palavras não magoem ou agridam ninguém. Isso por si exige logo um estar alerta para perceber a tendência em si mesmo para a crítica, a culpabilizaçãoeo denegrir. 2. Ser verdadeiro. A verdade no plano empírico é essencial à descoberta da verdade no plano absoluto. A verdade no discurso faz - -nos aptos a perceber a verdade da existência. A mente deve ser levada a perceber que cada mentira, por mais pequena e insignificante que pareça, cria uma perturbação na mente.
3. O discurso deve ser agradável. Não só no tom, mas também na forma de expressão. 4. Bom para o ouvinte. Regra geral quando falamos estamos interessados no nosso benefício, mas devemos procurar saber se isso é bom também para o ouvinte. Renovemo-nos, pois, no nosso modo de sentir (Efésios, 4:23), mas também no de falar. “E sede cumpridores da palavra, e não somente ouvintes, enganando-vos com falsos discursos.” (Tiago, 1:22).
