Consultório Julho.agosto.2015
Jornal de Espiritismo nº 71 · Junho 2015Página 55 min
CONSULTÓRIO JULHO.AGOSTO.2015 foto loucomotiv Hiperatividade e défice de atenção «Tenho um filho de 8 anos e foi-lhe diagnosticada Hiperatividade e défice de atenção. Está a ser medicado, mas, já houve quem me dissesse que o seu problema era espiritual. Que devo fazer? Acha que também pode ser mediunidade?», indaga Maria do Carmo. Dr.ª Gláucia LimaInicialmente vamos definir a Perturbação de Hiperatividade e Défice de Atenção (PHDA), como “um transtorno neurobiológico, de origem genética, de longa duração, que tem início na infância, podendo persistir pela idade adulta, comprometendo o funcionamento da pessoa em vários setores da sua vida”.
A sua etiologia é multifatorial, “resultando de uma interação de fatores: genéticos/hereditários, neurobiológicos e ambientais”. Esta complexidade de fatores resulta na variabilidade da expressão dos sintomas aquando do seu aparecimento, como a idade e a severidade dos sintomas. Apesar de ser uma patologia muito mediática no presente, acomete 5 a 8% das crianças em idade escolar, tendo uma prevalência mundial em torno de 5,3 (3 a 5 milhões de crianças tem este diagnóstico em todo mundo).
Está definido o fator genético, sendo que 25% das crianças com PHDA têm um familiar próximo com o diagnóstico; existe o risco aumentado de 30 a 40% entre irmãos e entre gémeos monozigóticos (verdadeiros) o risco chega a ser de 90%. De acordo com estudos de neuroimagem, como PET (tomografia por emissão de positrões), SPECT (tomografia por emssão de fotões) ou RMf (Ressonância Magnética funcional) as crianças com PHDA apresentam diferenças estruturais no cérebro, como também funcionais, relacionadas a diminuição da substância cinzenta nos lobos frontais e gânglios da base, havendo também uma disponibilidade alterada da dopamina e da noradrenalina nos circuitos neuronais, estando também definida uma causa orgânica, neurobiológica.
Estas estruturas cerebrais afetadas na PHDA estão relacionadas com funções executivas, auto-regulatórias, do controlo inibitório, e da atenção, entendo-se por esse facto que estas crianças (ou adultos), tendo estas áreas mais afetadas, tenham maior dificuldade em captar e fixar a atenção, quando não se tratam de atividades que lhes despertem o interesse. As condições etiológicasambientais, que vão desde a alimentação aos fatores sociais, familiares, culturais da criança e incluimos ainda a sua formação moral, cívica, religiosa e espiritual.
De uma forma geral, a criança ou o adulto com PHDA tem uma noção do tempo alterada, vivem para o “agora”, para a realização imediata, com manifesta dificuldade em relação ao tempo e ao futuro, o que se reflete na capacidade de planeamento e na organização. Essa perturbaçãoanível do tempo, desorganização, impulsividade, existe em vários setores da vida do indivíduo (social, familiar, escola, trabalho) com prejuízo para a sua economia pessoal.
Na criança são frequentes as dificuldades de aprendizagem, inadaptação escolar, os problemas inter-pares, e com as figuras de autoridade-professores, podendo surgir casos de bullying e, nas situações mais graves, ruptura com o sistema escolar. Os primeiros sinais de alerta geralmente surgem a volta dos 3 / 5 anos, quando normalmente surge um comportamento inquieto, que por vezes se confunde com a atividade motora própria da idade.
O diagnóstico é dado quando a criança, na idade escolar, é mais exigida, surgindo com mais evidência os sintomas de desatenção, seguidos das alterações de comportamento que dificultam a adaptação escolar. Consideram-se três formas de apresentação clínica do PHDA: predominantemente desatento, predominentemnete hiperativo - -impulsivo, e o tipo misto ou combinado (mais frequente). Logo, pode haver o diagnóstico de PHDA, cujo sintoma central é a desatenção, sem hiperatividade.
Na adolescência, a tónica se traduz pela imaturidade emocional, evidenciando-se o isolamento e inadaptação social. Na perspetiva espíritual a presença de uma comorbilidade (de outra condição patológica), do foro obsessivo, pode alterar a evoluçãoea resposta ao tratamento. Nessa condição, a criança ou o adulto, podem apresentar pior evolução e resistência à terapêutica. Naturalmente, sendo uma condição multideterminada, o tratamento, não pode cingir - -se ao tratamento farmacológico.
Mas, também não o deve excluir. É uma condição que merece a atenção em vários níveis de intervenção: pedagógico, psicológico, psiquiátrico, familiar. E espiritual! A PHDA não é um sinónimo de mediunidade descontrolada e nem deve ser assim entendida ou tratada. Também as crianças quando hiperativas ou agitadas nãoosão por estarem obsidiadas, ou por estarem sob influência espiritual, mas, por defeito cerebral, nos circuitos inibitórios na zona frontal.
A desatenção é o foco central desta perturbação e frequentemente respondem positivamente ao tratamento farmacológico, melhorando a adaptação escolar/trabalho, não causando dependência. Sendo uma perturbação do neurodesenvolvimento, pode resolver-se com o crescimento ou permanecer na idade adulta, com outras características: redução da atividade motora comparativamente com a criança hiperativa, predomínio de uma sensação interna de inquietação, desassossego, agitação contínua, dificuldade em diminuir o nível de atividade ou parar de trabalhar.
Conclui-se que a PHDA é uma doença de base neurológica, com forte influência genética, modulada por fatores ambientais, que não dispensa o tratamento químico, mas que poderá ser auxiliada por outros metódos auxiliares de tratamento, incluindo a terapia espírita. Pode a doutrina espírita oferecer a fluidoterapia (passe e água fluidificada) e a evangelização para orientar a criança, o jovem ou o adulto, equilibrando o complexo neuroquímico e auxiliando no equilíbrio integral do SER.
O Espírito Joana de Ângelis, pela mediunidade de Divaldo Franco, no livro «Adolescência e Vida», capítulo 25, adverte que “No período da Infância e da Adolescência, o ser forma caráter sob as heranças das reencarnações anteriores, que se expressam, nem sempre de forma feliz, produzindo, às vezes, choques e dores que devem ser atenuados, canalizados pela educação, pelos exercícios moralizadores, até que se fixem as disposições do rumo feliz “, sendo estes problemas do neurodesenvolvimento situações provacionais para as famílias e para os pais.
Conclui a referir: “... Nunca, porém a caminhada se dará sem dificuldades, sem tropeço, sem esforço. Quem alcança uma glória sem luta, não é digno dela”. PHDA – porque tratar? • As crianças com este diagnóstico normalmente têm pior rendimento escolar. • Dificuldades nos relacionamentos interpessoais são frequentes. • Desenvolvem baixa auto-estima porque não conseguem o mesmo rendimento escolar do que os seus pares ou irmãos e estão sujeitos a comparações.
• Estão mais propensas a problemas de adicção: álcool e drogas. • Mais propensas a vários tipos de acidentes, incluindo os de trânsito. • Têm maior comorbilidade com outros transtornos: depressão, transtornos ansiosos (85% apresentam outras comorbidades). A terapêutica ideal deve conjugar o tratamento farmacológico com o psicopedagógico, psicossocial e espiritual, este último, orientado pela casa espírita. Conhecedora dos conteúdos da doutrina espírita, Gláucia Lima, psiquiatra, dá continuidade a esta secção do jornal e responde à dúvida exposta no título.
