Opinião Setembro.outubro.2015
Jornal de Espiritismo nº 72 · Maio 2015Página 126 min
OPINIÃO SETEMBRO.OUTUBRO.2015 Acredito que mais importante do que saber perguntar é saber escutar a resposta. Não apenas para ser um bom jornalista, mas também para ser uma boa pessoa. Temos de saber ser constantemente um copo vazio, prontos para receber o mundo. Basta observar. As pessoas não querem escutar, só querem falar. Quando não escutamos o mundo do outro, não aprendemos nada. Acontece com o chefe que não consegue escutar realmente o que o colaborador tem a dizer.
A priori ele já sabe – e já sabe mais. Assim como acontece com a mulher que não consegue escutar o companheiro. Ou o amigo que não é capaz de o escutar a si. Interpretamos e catalogamos rapidamente, mas somos avessos a criar o tempo e silêncio necessários para escutarmos. O reverso da medalha é que quem não escuta torna-se muito sozinho, por isso está sempre a emitir mensagens, a querer fazer algo, a interpretar, a fazer, a dizer, etc.
No filme Revolutionary Road (Sam Mendes, 2008), a cena final é a síntese dessa relação simbiótica entre surdez e solidão. Não a surdez causada pela deficiência auditiva, mas a outra que é mais triste por ser escolha. Por que as pessoas falam tanto – e por que têm tanta dificuldade de escutar? Qual é a ameaça contida no silêncio? O que temem tanto ouvir se calarem a sua voz por um momento? Por que precisamos preencher o nosso mundo – inclusive o interior – com tantos ruídos?
Claro que há uma pressão para que nos tornemos falantes. Supostamente, ser falante é uma vantagem, especialmente no mundo do trabalho. Falar qualquer coisa é marcar uma presença, é uma tentativa de garantir que somos necessários. E ser quieto, calado, é visto como um tipo invisível de deficiência. Enchemos a nossa vida de barulho da mesma forma que atulhamos os nossos dias de tarefas, com medo do vazio. E o vazio também é uma forma de silêncio.
Há dois livros interessantes sobre a escuta. «A Hermenêutica do Sujeito», de Michel Foucault e «Como Ouvir», de Plutarco. Ambos mostram que escutar é arriscar ao novo, ao desconhecido. Na audição, mais do que em qualquer outro sentido, a alma encontra-se passiva em relação ao mundo exterior e exposta a todos os acontecimentos que dele advêm e que podem surpreendê-la. Ao ouvir, arriscamo-nos a ser surpreendidos e abalados pelo que ouvimos, muito mais do que por qualquer objecto que possa ser-nos apresentado pela visão e pelo tacto.
Escutar a sério implica despirmo-nos de todos os preconceitos, das nossas verdades de pedra, das nossas imensas certezas, para nos colocarmos no lugar do outro. Seja o filho, o pai, o amigo, a namorada. E até o chefe ou o funcionário. Esquecemos muitas vezes que ser gente é ser vulnerável e tememos essa nossa vulnerabilidade. Num estudo que eu orientei sobre o «Nosso Lar», a certa altura, uma senhora mais velha do que eu dizia-me: “Obrigada por nos mostrar que não é perfeita.
A maioria dos oradores faz o oposto”. Foi das melhores coisas que já me disseram, mas, novamente, o que está em causa é essa capacidade de nos conectarmos ao mundo do outro com toda a generosidade do mundo que cada um de nós é. E isso é escutar muito antes de debitar fórmulas ou perfeições como fardos para o ego. Se o autoconhecimento é o objectivo e a base do Espiritismo, os vários métodos de prática que ele oferece, incluindo o seu aspecto fundamental – o estudo do Evangelho – voltam o homem para dentro de si a fim de reconhecer e alcançar o que essencialmente é.
Na visão do Evangelho, o homem é essencialmente puro, divino, pleno, seguro e o objectivo do Evangelho é, pois, fazê-lo reconhecer-se a si mesmo. “Sede perfeitos como perfeito é o vosso Pai”, exortava Jesus. Então, todas as práticas e estudos que o Espiritismo oferece não são diversões, pois levam o homem não para longe de si, mas para si próprio. Isto escrito parece simples, mas não o é na prática, sobretudo, quando a tendência dominante no homem, seduzido pelos atractivos terrenos, é precisamente evitar o autoconhecimento, tal como evita o silêncio.
Não é possível avaliar as intenções de todos nem isso é importante, pois “não possuímos suficiente visão para identificar doentes de espírito, os coxos de pensamento, os aniquilados do coração” (Emmanuel/Chico Xavier, «Caminho, Verdade e Vida»). A única preocupação e, por vezes, tábua de salvação, deve ser saber qual o nosso foco e compromisso. Se estes estiverem claros para nós, conseguiremos separar o trigo do joio.
Que compromisso ter? Esta é, então, a questão seguinte que se coloca. Cabe lembrar que a força de um espírita não deriva de nenhuma capacidade, vontade, iniciativa, currículo, poder, desejo pessoal ou movimentos, mas antes da entrega a Deus. A nossa existência deve ser inteiramente dedicada a Deus. Logo, o nosso foco e compromisso é com a Verdade, a qual designa a Realidade que dá origem às coisas: Deus. A este devemos ‘adicionar’ o conhecimento e uma meta ou propósito.
Este composto, portanto, pode ser definido como o propósito de manter o foco sobre o conhecimento da verdade. O conhecimento dessa Realidade implica reconhecer que não somos diferentes nem estamos separados dela. Esse reconhecimento é a libertação: “conhecerás a Verdade e a Verdade vos libertará”, dizia Jesus. Noutras palavras, é não perder de vista o autoconhecimento como meta prioritáFoco e compromisso ria, de maneira que os outros objectivos menores que possamos ter ao longo da caminhada não nos desviem da prioridade essencial.
“Basta que te deixes conduzir por Ele [Deus], e sintonizado com a Sua misericórdia e sabedoria, busca realizar o melhor, assinalando o teu caminho com as pegadas de luz, características de quem se entregou a Deus e em Deus progride” (in Joanna de Ângelis/Divaldo Franco, «Filho de Deus»). Só se honra o valor pela verdade quando realmente se assimilou esse valor. Praticar o valor da verdade produz atenção aos nossos pensamentos e acções e à relação de causa e efeito entre eles.
Este valor também inclui sensibilidade em relação aos sentimentos dos outros. “Pois se nem ainda podeis fazer as coisas mínimas, por que estais ansiosos pelas outras?”, Jesus (Lucas, 12:26). Agora, é claro que muitos são os que dizem que querem descobrir a verdade, mas só até perceberem que a Verdade irá ‘roubar’ as suas ideias mais impregnadas, crenças, esperanças, e sonhos. A ideia de liberdade pela compreensão e assimilação total do Evangelho significa muito mais do que a experiência de amor e paz.
Significa descobrir uma verdade que vai virar a nossa visão do “eu” de cabeça para baixo. Para aquele que realmente está preparado, isso será completamente libertador. Mas para aquele que ainda está apegado de qualquer maneira que seja, isso será extremamente desafiador, insuportável ou mesmo indesejado. Mas como saber se estamos prontos? Estamos prontos quando estivermos dispostos a ser absolutamente consumidos por um fogo sem fim.
Paulo dizia: “Levanta-te direito sobre teus pés”. Essa recomendação inclui ter uma vida simples, evitando complicações desnecessárias. Isso vai desde ser selectivo com a quantidade de actividades que realizamos no quotidiano, a sermos disciplinados para não virar escravos dos «gadgets» tecnológicos tão comuns actualmente, ao discernimento essencial para completar o processo de auto-conhecimento. Cultivar o discernimento é o que nos permite dar valor ao Evangelho, ao ensinamento sobre si mesmo e a realizar o que nos propõe: já somos a felicidade que procuramos.
Porque o Espiritismo realiza o que Jesus mencionou acerca do Consolador Prometido: conhecimento das coisas, que faz o ser humano saber de onde vem, para onde vai e por que está na Terra; convocação aos verdadeiros princípios da lei de Deus e consolo por meio da fé e da esperança” (ESE, cap. 6, item 2-4). Porque o trabalho de regeneração de si mesmo é o mais árduo, é o princípio, o meio e o fim de tudo o que se faça em nome do Espiritismo.
“É preciso atender à verdade enquanto é tempo” (idem). Texto: Filipa Ribeiro Qual o seu foco? Há uns tempos, ao dar uma formação em jornalismo de ciência, alguém me perguntava o que era preciso para fazer boas reportagens e entrevistas. A minha resposta é sempre a mesma: escutem. Basta observar. As pessoas não querem escutar, só querem falar. Quando não escutamos o mundo do outro, não aprendemos nada.
