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Jornal de Espiritismo nº 72 · Maio 2015Página 136 min
A complexidade da vida e do comportamento humano seriam reduzidos na equação: bom => céu e mau => inferno. Mesmo compreendida de forma simbólica e pictórica, esta visão da vida eterna é limitada e incapaz de dar resposta a questões simples: Será que uma mãe era capaz de suportar as delícias de um paraíso eterno sabendo que um filho estaria a sofrer no inferno pelos erros cometidos? E como é possível que Deus, o infinito amor, castigue a ignorância pela eternidade?
É difícil de entender. A reencarnação, crença de que dispomos de múltiplas vidas para dar sequência a um aperfeiçoamento intelectual e moral, predomina na cultura oriental há muitos séculos mas existe a ideia de que esta crença é pouco mais do que insignificante no Ocidente. Os dados atuais não dão razão a esse argumento. Sabia que quase um em cada três portugueses e um número próximo dos 25% dos europeusquase 200 milhões de pessoasacreditam na reencarnação?
Os números não são novos mas merecem ser relembrados. O European Values Study é o mais exaustivo projeto de investigação sobre valores humanos alguma vez realizado na Europa. É uma investigação abrangente e diversificada, que se sustenta em inquéritos feitos em larga escala e repetidos em ciclos de nove anos sobre temas como família, trabalho, religião, política e sociedade. Iniciado no final da década de 70 com um reduzido número de participações, o último estudo foi concluído em 2008 contando com dados de 47 países da Europa, permitindo assim ter uma maior compreensão sobre as ideias, preferências, crenças e valores assumidos pelos cidadãos europeus, explorando também aquilo que os distingue e as variações que os resultados apresentam entre regiões.
Existem inúmeros indicadores preciosos para análise dos investigadores mas iremos debruçar-nos nos dados produzidos no último inquérito de 2008 pela questão “Acredita na reincarnação, ou seja, que nós vivemos mais do que uma vez?”. Os resultados são surpreendentes. Existem 17 países da Europa em que mais de 25% da população acredita na reencarnação, sendo os valores mais elevados encontrados na Letónia (41%), Ucrânia (37%), Lituânia (37%) e Islândia (36%).
Apenas em 14 países existe menos de 20% da população a acreditar na reencarnação, salientando-se os valores mais reduzidos do Azerbaijão (7%), Geórgia (10%), Eslováquia (14%) e Croácia (15%). Outros valores que importa salientar: Alemanha (24%), Portugal (31%), Rússia (33%), Espanha (23%), Reino Unido (27%), França (23%) e Itália (19%). Mesmo havendo uma variação natural entre os diversos países, pelos números apresentados é impossível não concluir que a reencarnação é já uma das principais crenças dos cidadãos europeus.
Qual a explicação para que uma crença que desafia as ideologias religiosas predominantes na Europa e que não alinha pela lógica científica dominante, esteja a revelar uma proeminência tão acentuada e com tendência de crescimento? Num artigo para a revista «Nordic Psychology» de 2006, em que procurava analisar as elevadas percentagens de crença na reencarnação nos países de Leste da Europa, o emérito professor de Psicologia da Faculdade de Ciências Sociais da Universidade da Islândia e investigador de fenómenos sugestivos de reencarnação, Erlendur Haraldsson, procurou responder a esta questão.
Nesse artigo, o professor Haraldsson afirmou que existem pelo menos três fatores que têm um impacto significativo na forma como a crença da reencarnação se difundiu na Europa. A primeira delas foram as crenças pré - -cristãs. Diversas fontes históricas oferecem razões fortes para assumir que a crença na reencarnação já fazia parte da cultura de alguns povos na Europa pré-Cristã: Através de poemas nórdicos antigos retirados da “Edda Poética” sabe-se que as tribos escandinavas acreditavam na reencarnação; O filósofo grego Plato, discípulo de Sócrates e um dos mais estudados filósofos da Antiguidade, discute também a reencarnação em vários dos seus escritos (“Fédon” 81c-82b, “Fédro” 248c - -249b, “A República” 617d-620e e “Timeu” 41- 42, 90c-92c.)
No clássico da literatura antiga “A Guerra nas Gálias”, Júlio César descreve não apenas as batalhas travadas durante a conquista da Gália mas também o modo de vida e os costumes das tribos que foi encontrando. No Livro VI, 14, encontramos: “A doutrina basilar que a escola de druidas procura ensinar é que as almas não morrem mas que passam de um corpo para outro.” Esta cultura Celta foi dominante durante alguns séculos na Europa Ocidental, inclusive em grande parte da Península Ibérica; Poemas celtas de períodos anteriores ao cristianismo encontrados na Irlanda contêm histórias de renascimento similares às da “Edda Poética”; um historiador da Roma Antiga, Apiano de Alexandria, refere ainda crenças parecidas em tribos Germânicas.
Segundo o professor Haraldsson, estas fontes levam-nos à conclusão de que a crença na reencarnação era comum em grande parte dos povos da Reencarnação uma certeza cada vez maior Europa antes da Cristianização. Outro factor importante para a disseminação da ideia da reencarnação na Europa foi a influência das filosofias Hindu e Budista que a partir do século XVIII começaram a ser introduzidas na Europa e que tiveram uma grande repercussão em alguns círculos intelectuais.
Durante o século XIX e XX, algumas sociedades e movimentos culturais criados na Europa fizeram da ideia da reencarnação um dos seus princípios basilaresum desses movimentos foi o Espiritismo. Por fim, o aumento dos números de crença na reencarnação é também fruto de uma razão intuitiva para muitas pessoas. Com a decadência do sagrado, os dogmasmesmo sendo simbólicosao contrariarem de forma tão ostensiva a razão, não possuem força suficiente para proporcionar um sentido à existência.
Muitas pessoas encontram na reencarnação um conceito lógico, evidente, o fio de Ariadne que as ajuda a explicar alguns dos enigmas mais intrincados da vida. É curioso constatar que esta tendência de crescimento não é apenas europeia. Um estudo do Instituto norte-americano Pew Research Center em 2009 revelou que cerca de 24% dos cidadãos dos Estados Unidos da América acreditavam na reencarnação. Através de pesquisas informais, estima-se também que um número próximo de 50% da população brasileira acredite na reencarnação.
É óbvio que a generalização de uma crença não a torna verdadeira. A realidade da reencarnação independe do número de pessoas que nela acredite, existindo múltiplas evidências que a sugerem. Mas é com alegria que percebemos que, numa sociedade cada vez mais informada e instruída, é cada vez maior o número de pessoas que estão recetivas às ideias espíritas – mesmo não sendo exclusivas do Espiritismo. Quando Leon Denis insinuou que o Espiritismo seria o futuro das religiões, era precisamente disto que ele falava.
Das centenas de milhões de pessoas que no mundo Ocidental acreditam na reencarnação apenas uma ínfima parte é espírita. Isso é o menos importante. A divulgação do Espiritismo não tem como objetivo fazer adeptos ou acumular seguidores mas fazer as pessoas estarem mais conscientes de uma realidade que transcende a dimensão física, despertá - -las para a magia do amor e da bondade, mostrando-lhes formas mais libertadoras de pensarem o mundo e de conduzirem as suas vidas.
A melhor divulgação do Espiritismo não é a que faz disparar o número de espíritas mas a que conseguir ser mais eficaz no processo de florescimento dessas ideias na vida das pessoas. Por Carlos Miguel Durante muitos séculos, no mundo ocidental, foi quase unânime a assunção de que a narrativa da vida passaria por nascer, viver e morrer. Nessa altura, um juiz celestial teria a responsabilidade de ponderar as boas atitudes com as violações perpetradas à letra das escrituras, sentenciando sem direito a recurso o destino das criaturas para a eternidade.
seminários. SETEMBRO.OUTUBRO.
