74 — índice de conteúdos

Atualidade Janeiro.fevereiro.2016 (pág. 11)

Jornal de Espiritismo nº 74 · Janeiro 2016Página 116 min

Partilhar
Idioma

ATUALIDADE JANEIRO.FEVEREIRO.2016 as suas conclusões, de que eram absolutamente eficazes as cirurgias ou de que eram todas fraude. Não apresentavam evidências sobre isso e veio a ideia. Como realizava nessa época investigação científica em patologia, conversei com a minha professora: «Podíamos fazer uma investigação muito simples, para ver se é fraude ou não: coletaremos o material que eles dizem que extraem dos pacientes, e faremos um estudo patológico».

Começámos assim o nosso primeiro estudo de espiritualidade, precisamente para trazer dados. Sobre estes assuntos muitas pessoas têm muitas opiniões, mas poucos estudaram realmente a fundo o tema. Surgiu assim o nosso interesse de investigaçãoea primeira pesquisa mostra um pouco essa busca de apurar evidências concretas que nos ajudem a entender este fenómeno, independentemente do facto de vir a corroborar ou a contraditar o fenómeno.

O que o levou a escolher temas relativos à mediunidade para a sua tese de doutoramento? Alexander Moreira de Almeida – A minha esposa é historiadora. Realizava uma pesquisa histórica sobre as relações da psiquiatria com as experiências religiosas no Brasil. Ela percebeu que havia uma tendência na Europa, nos EUA e no Brasil, nos finais do século XIX e início século XX, de catalogar essas experiências religiosas como experiências patológicas.

Então, havia uma grande discussão histórica sobre isso. Percebi novamente que havia muito pouco estudo psiquiátrico sobre a saúde mental ou doença mental em relação a essas marcantes experiências espirituais. A partir disso, investigámos a saúde mental de médiuns para tentar trazer evidências ao mundo científico. A pesquisa foi realizada sob a supervisão do meu orientador, o Prof. Doutor Francisco Lotufo Neto, que já havia investigado, em sua tese de livre docência, a saúde mental de pastores protestantes, pois havia uma discussão sobre se o religioso é mais ou menos saudável.

Ele investigou pastores protestantes e eu investiguei médiuns espíritas, ou seja, ambos procurámos produzir dados objetivos e bem controlados que pudessem fomentar uma discussão mais racional e centrada cientificamente sobre esses dados, como por exemplo a saúde mental de religiosos. Tornou-se uma referência mundial na investigação da mediunidade. Isso faz com que seja bem ou mal visto pelos seus pares? Alexander Moreira de Almeida – O estudo dos fenómenos chamados espirituais, ou paranormais ou psíquicos estão na origem da investigação psicológica e psiquiátrica.

Sabe-se hoje em dia que grande parte de conceitos como por exemplo dissociação, histeria, transe, tiveram origem na investigação de estados alterados de consciência, de experiências mediúnicas. Os fenómenos mediúnicos, no contexto do funcionamento da mente, foram algo de importante na história da medicina, da psiquiatria e da psicologia. Infelizmente, ao longo do século XX, houve uma diminuição desses estudos, que estão a ser retomados atualmente.

Nos últimos 20 a 30 anos o estudo da espiritualidade tem-se tornado um campo respeitável no ambiente científico. Vários pesquisadores pioneiros, como Harold Koenig, por exemplo, estabeleceram a seriedade deste campo, um campo legítimo de investigação no ambiente científico. Posso dizer que na minha carreira não tive problemas em relação a isso, fundamentalmente porque a nossa preocupação tem sido uma investigação extremamente rigorosa, submetida à investigação e à crítica dos nossos pares, em congressos, em publicações, de diversas áreas, como a da psiquiatria, da psicologia, da parapsicologia, da teologia, da ciência, da religião, isto é, quisemos submeter a investigação também a esse tipo de escrutínio.

Nesse sentido, procurando fazer uma investigação séria e rigorosa sobre o assunto, sem haver a preocupação de promover ou de criticar tal ou qual corrente religiosa ou filosófica, temos tido uma boa aceitação do nosso trabalho. Na sua prática clínica, aparecem-lhe casos de mediunidade descontrolada? Alexander Moreira de Almeida – O que aparece, na minha prática clínica, e também na dos psicólogos e psiquiatras pelo mundo fora, de acordo com vários estudos, são pessoas com vivências religiosas ou espirituais que geram uma série de conflitos.

Alguns autores propõem que sejam vistas como situações de emergência espiritual. Quando surgem, trazem confusão, trazem perturbação ao indivíduo, até que ele consiga encontrar um entendimento ou uma utilização saudável dessas vivências. O nosso trabalho é ajudar a pessoa a resignificar, entender e conseguir integrar de modo construtivo as vivências espirituais e religiosas que tem e que podem ser ligadas a qualquer grupo religioso, ou mesmo a indivíduos não ligados a qualquer grupo religioso.

Que atividades desenvolve o Núcleo de Pesquisas em Espiritualidade e Saúde (NUPES)? Alexander Moreira de Almeida – O Núcleo de Pesquisas em Espiritualidade e Saúde está ligado à Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Juiz de Fora dentro do programa de pós-graduação em saúde. O programa também tem mestrado, doutoramento e pós-doutoramento. É um núcleo interdisciplinar. Temos pesquisadores das diversas áreas da medicina, da psicologia, enfermagem, filosofia, sociologia, história, fisioterapia.

É um grupo que não está ligado a nenhuma corrente histórico - -filosófica ou religiosa específica. Temos membros de diversos grupos religiosos, de diversas correntes filosóficas, temos agnósticos, mas o que nos interessa é a investigação séria, rigorosa e aberta da espiritualidade – isso é fundamental. O NUPES tem três linhas de pesquisa, basicamente. O estudo dos fenómenos espirituais, dos fenómenos psi, é um desafio.

O interessante numa pesquisa é que se começa a investigar e não se sabe realmente qual vai ser a conclusão, onde os dados vão levar. Vejo isso como sendo o mais interessante, o desafio mais aliciante da ciência Uma primeira linha de pesquisa diz respeito ao que chamamos Epidemiologia da Religiosidade, ou seja, o quanto as vivências religiosas ou espirituais estão relacionadas ou não com saúde e doença; por exemplo, um indivíduo que tenha um envolvimento religioso tem maiores ou menores níveis de depressão, de uso de drogas, por exemplo.

Uma outra linha de pesquisa é a investigação das Experiências Espirituais. Investigamos experiências espirituais tais como experiências mediúnicas, ou experiências de quase-morte. Aqui realizamos investigação tanto no aspeto neurofisiológico, de neurociência e neuroimagem, investigação dos aspetos psicológicos, alterações bioquímicas, psiquiátricas, etc. E, por fim, temos outro campo que se chama História e Filosofia das Pesquisas Científicas em Espiritualidade, que consiste em tentar entender qual o histórico que existe na humanidade em investigação científica, tentativas de investigação científica da espiritualidade e também aspetos epistemológicos, como é que a filosofia da ciência nos pode ajudar na metodologia de investigação da espiritualidade.

O NUPES também enfatiza a divulgação científica. Para esse efeito temos uma página na internet (www.ufjf.br/nupes), temos um Facebook (www.facebook.com/ufjf.nupes ) e temos um canal no Youtube em ciência e espiritualidade, que é a TV Nupes (www. youtube.com/nupesufjf). Temos grande preocupação em transmitir informação acessível, mas confiável, à população em geral. Então, a TV Nupes é um canal bilingue, em português e em inglês, e todas as semanas há um vídeo novo de três a cinco minutos sobre ciência e espiritualidade.

Pode deixar alguma mensagem dirigida especialmente a jovens cientistas que possam vir a ver os fenómenos psi como matéria de pesquisa? Alexander Moreira de Almeida – O que nos motiva enquanto cientistas é o interesse de entender mais o universo, como ele funciona. O estudo dos fenómenos espirituais, dos fenómenos psi, é um desafio. O interessante numa pesquisa é que se começa a investigar e não se sabe realmente qual vai ser a conclusão, onde os dados vão levar.

Vejo isso como sendo o mais interessante, o desafio mais aliciante da ciência. O verdadeiro cientista deve ter um caráter de humildade intelectual e abertura para a natureza, estando atento ao que ela nos vai indicar, mas temos de ter rigor nessa investigação. Então, recomendaria isto primeiro a essas pessoas que estão perante uma área de extremo interesse e desafiadora. Segundo, que busquem ter uma formação científica extremamente rigorosa.

É muito importante uma grande formação tanto em termos de filosofia da ciência como de métodos de investigação em epidemiologia e estatística, por exemplo, para que desenvolvam boas bases metodológicas de investigação. Investigar com rigor, submeter a sua pesquisa a uma crítica rigorosa dos seus pares e compartilhar essa pesquisa com outros pesquisadores – estas são as principais dicas que podem ajudar à construção de uma carreira e fazer avançar o conhecimento nessa área, um conhecimento que ajude a entender a natureza humana.

Talvez por isso seja tão interessante, tão debatido. Texto: LP e JG Encontra a versão em vídeo da entrevista neste link da internethttps:// youtu.be/Ugh20HlycxA?