Crónica
Jornal de Espiritismo nº 74 · Janeiro 2016Página 135 min
Assustado, dizia que, por causa dos maus teria que mudar de casa. Percebendo a sua intranquilidade, o pai sossegou-o dizendo - -lhe que a França era a sua casa e que em todo lado existiam pessoas más. Não convencido, o catraio ripostou: “Mas os maus são mesmo maus, eles têm pistolas.” O pai vacilou com a rigidez daquele argumento bélico mas, deparando-se com o memorial que os parisienses erguiam para homenagear os que tinham partido, respondeu: “Eles têm armas mas nós temos flores!
” O menino surpreendeu-se com aquela ingenuidade do pai. As flores não faziam nada, como é que os iriam proteger das armas? O pai pediu ao filho que olhasse bem. Tanta gente que trazia flores, que acendia velas para recordar as vítimas. O menino esboçou um sorriso e pareceu aliviado. Respondeu ao repórter que já se sentia melhor porque as flores e as velas os protegiam. O vídeo tornou-se viral e foi partilhado por milhões de pessoas, mostrando a quem ainda não o tivesse percebido que a poesia é indispensável nas nossas vidas.
Os poetas podem não ser tão venerados como acontecia no passado, pode-se até não gostar de poemas nem sabê-los recitar de cor, mas precisamos muito da poesia. Só ela é capaz de definir o indefinível, explicar o inexplicável e representar o que não tem representação. A racionalidade é preciosa mas esgota-se com facilidade, é limitada. A sabedoria não tem limites, a sua linguagem adorna-se dos recursos poéticos para sugerir, inspirar e emocionar.
Quanto mais simples a imagem poética mais intenso é o seu poder emocional, mais eficaz se torna a capacidade para nos resgatar ao atordoamento, levar-nos ao essencial. A experiência da guerra revela-a semelhante a um boomerang: mais cedo ou mais tarde, regressará de alguma forma para atingir aqueles que a lançaram. Quando terá isto um fim, quando a inteligência derrotará a ignorância? Guerra Junqueiro, no livro “A Morte de Dom João” escreveu que “a poesia é a verdade transformada em sentimento”.
Usar flores como proteção contra metralhadoras parece risível e estupidamente ingénuo para mentes atordoadas na sua sensibilidade, no entanto, nestes dias conturbados em que parecemos rios perdidos que não encontram o caminho para o mar, a imagem poética é talvez a melhor forma de nos resgatar ao medo e, aceitando a incapacidade para explicar racionalmente o inexplicável, manter a lucidez e a esperança. O sangue que mancha as ruas das nossas cidades, a dor e o medo que nos aflige os corações não são diferentes do sangue, da dor e do medo das ruas e corações de cidades mais distantes.
São também ruas e corações devastados pelo absurdo da guerra, pela agonia da dor e o drama da incompreensão, que vão alimentando o medo e o desespero bem como o impulso para retaliar as ofensas e aderir a posições extremadas, criando uma escalada de agressões e um ciclo vicioso de vinganças que ora voltarão a manchar as nossas ruas ora mancharão as ruas e corações dessas cidades mais distantes. A experiência da guerra revela-a semelhante a um boomerang: mais cedo ou mais tarde, regressará de alguma forma para atingir aqueles que a lançaram.
Quando terá isto um fim, quando a inteligência derrotará a ignorância? Levado pelo pai ao memorial improvisado, aquele menino encontrava-se em sobressalto, disposto até a largar a sua casa e os seus amigos para abrigar-se em algum lugar onde estivesse a salvo dos “maus” e das suas pistolas. Ele sabia que os “maus” existiam algures mas julgava-os distantes, em lugares longínquos talvez confinados aos ecrãs das televisões e dos computadores.
Ao perceber que eles se encontravam na sua cidade sentiu-se vulnerável. Este menino somos nós, Flores Contra a Violência surpreendidos e aterrorizados, ávidos por segurança num mundo repleto de confrontações que nos desafiando a todo o instante na nossa fragilidade. O pai encarna a voz da sabedoria, confortando-o, instigando-o à sensibilidade, abrindo a lucidez dos seus olhos para que visse o mundo para lá do imediatismo, para que o sentisse para além das aparências.
As flores são magníficas em suas formas aveludadas, encantadoras nas cores vibrantes e nos perfumes sedutores com que deliciam os sentidos mas, são tão frágeis, uma ventania mais forte pode desfazer as suas pétalas e quebrar os caules que as sustentam. Como é que nos protegem contra a violência extrema? É que a sua força não é inerente. Essa força encontra-se em quem é capaz de distinguir a sua beleza, em quem as oferece por amor, em que as dedica à memória de alguém, em quem não esquece de lembrar, em quem as coloca na lapela como símbolo da paz ou da liberdade, em quem com elas representa a sua alegria, a esperança.
A força que nos protege encontra-se em todos os que, mesmo desarmados perante a face mais aterradora que a condição humana pode assumir, se mantêm resilientes na defesa dos valores espirituais e dos princípios humanistas que nos sustentam como sociedade. A Holandesa Etty Hillesum, numa carta escrita no campo de concentração de Westerbork e dirigida aos seus amigos, escreveu: “E quantos mais delitos e horrores se derem, mais amor e bondade teremos de oferecer em contrapartida, sentimentos que temos de conquistar dentro de nós.
Podemos sofrer, mas não podemos sucumbir. E se escaparmos a estes tempos, imaculados no corpo e na alma, sem rancor, sem ódio, então também nós teremos algo a dizer após a guerra.” Existem pequenos gestos de bondade que são poemas a sinalizar o ideal da fraternidade e que nos revelam uma humanidade que não verga diante da ameaça do medo, não cede perante a tentação do ódio, muito menos se deixa vencer por uma visão apressada de um mundo à beira da catástrofe.
Mesmo mergulhadas no meio da loucura, da barbárie mais doentia, felizmente existem muitas vozes lúcidas de esperança, pequenas azáleas que brotam deslumbrantes e que enfrentam a adversidade sem sucumbir à tragédia íntima. Sigamos-lhes o exemplo. Carlos Miguel Junto a um memorial improvisado às vítimas dos abomináveis atentados terroristas de Paris, um menino de 6 anos respondia às perguntas de um jornalista. Assustado, dizia que, por causa dos maus teria que mudar de casa.
foto arquivo JANEIRO.FEVEREIRO.
