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Entrevista (pág. 11)

Jornal de Espiritismo nº 75 · Março 2016Página 117 min

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prestação à população em geral, não só com esta consulta, mas criar outras consultas. Temos outros médicos que também se estão a organizar para poderem doar um pouquinho do seu tempo. Há algo que é muito importante, quando falamos da AME Norte: é obrigatório falar dos jovens. Há uma característica muito particular. Aqueles que formaram a AME Norte é um grupo pequeno, mas temos já um grupo muito significativo de jovens, de estudantes de medicina, médicos recém-formados que querem continuar a fazer parte do departamento académico.

Temos estudantes de enfermagem, fisioterapeutas, temos um grupo muito jovem e com muita vontade de estudar, de aprofundar o seu conhecimento da doutrina e levar realmente esse conhecimento inclusive para dentro das faculdades. Nós sabemos que temos de apostar realmente na juventude, não é? Eles têm outra garra, outra determinação para levarem estes projetos em frente. Um dos nossos grandes objetivos é servirmos de esteio, como mais velhos, pelo menos como encarnados, para os auxiliar nesse crescimento.

Sentimos que eles estão a crescer de uma forma muito segura. Eles próprios também estão a começar a estruturar não só um trabalho de estudo mas também um trabalho de assistência à população, em pequenas coisas: visita aos idosos, ajudando nas medicações, levar um medicamento que falta, medir umas tensões arteriais, obviamente que são estudantes a maior parte deles, mas já levam também essa componente da doutrina e da AME.

Eles estão a preparar trabalhos dentro das faculdades, no caso das suas teses de mestrado, incluindo a espiritualidade. É gente com um grande caminho à sua frente e são uma grande aposta da AME Norte. Para as pessoas que passam na rua, os médicos seriam as últimas pessoas a interessar-se por espiritualidade, pois associam-nos a uma profissão centrada no paradigma materialista. Como explica esta associação a uma dessas pessoas?

Maria Paula Silva – Nem sempre foi assim. Se recuarmos no tempo vamos ver que a medicina sempre esteve ligada à espiritualidade. Historicamente a medicina cresceu com a espiritualidade. No Ocidente vemos que essa ligação entre medicina e espiritualidade foi-nos trazida por Hipócrates. Nessa época ele traz a relação entre saúde e doença pelo desequilíbrio dos humores e das paixões. Os humores eram a relação entre as substâncias químicas e as hormonas; já as paixões traduziam a relação entre o corpo e a mente.

Já nessa altura havia essa relação muito forte, ligando o ser espiritual e o ser físico. Com certeza que sobretudo nos dois últimos séculos, em que se verificou uma explosão da ciência e durante esse período o homem quase que se sentiu omnipotente, ele achou que pela ciência dentro do paradigma materialista podia explicar tudo. Houve então um afastamento entre a medicina e a espiritualidade. Mas mais ou menos a partir da década de 1970 isso tem vindo a mudar, porque os méfoto ulisses.

com.pt MARÇO.ABRIL.2016 dicos percebem cada vez mais que não conseguem explicar tudo pelo paradigma materialista e têm exemplos e testemunhos no seu dia a dia de que realmente assim é. Agora, é como Jesus disse: aqueles que tiverem olhos de ver que vejam e os que tiverem ouvidos para ouvir que ouçam. Sendo uma médica, com toda a exigente formação universitária que caracteriza essa profissão, como se sentiu atraída por estes assuntos?

Maria Paula Silva – Depois de ter tido conhecimento da doutrina espírita, percebi: há aqueles que são chamados pelo amor e os que são chamados pela dor. Fui atraída para a doutrina espírita pela dor. Não vim como muitos companheiros nossos que vêm como missionários, não. Fui chamada à doutrina espírita por um momento de grande dor na minha vida, relacionada com uma situação de doença, lá está, em que fui confrontada com a incapacidade de obter todas as respostas à luz do paradigma materialista.

A partir dessa altura não mais parei de estudar e tentar levar o meu humilde contributo, porque aprendemos que a quem muito for dado muito será pedido. Considero que muito me foi dado e, para além do grande amor que sinto e a necessidade que sinto deste trabalho, sinto também uma grande responsabilidade por isso mesmo. É fácil ou difícil para um médico entender o ser humano como uma composição dirigida por um ser de natureza espiritual, a alma ou espírito, que possui um corpo espiritual e um corpo físico?

Maria Paula Silva – É fácil e é difícil, ou seja, se falarmos de médicos na sua perspetiva global, sabemos que muitos ainda estão presos ao paradigma materialista. Para esses é realmente difícil. Agora, há um caminho. E percebemos que cada vez há uma maior busca dessa associação. Para quem já teve oportunidade de conhecer a doutrina espírita, de a estudar, e de tentar enveredar pelo estudo que faz essa ligação, não só é fácil como é o que faz sentido.

Quando aprendemos, não por uma fé cega como alertou Allan Kardec mas por uma fé raciocinada, essa ligação entre o ser espiritual e o ser humano, com certeza que outra forma de olharmos para o ser humano deixa de fazer qualquer sentido, não é? Não podemos esquecer aquilo que aprendemos e aquilo que faz sentido na nossa vida. Temos noção de que a ciência necessita deste conhecimento espiritual, pois todos já percebemos que só pelo paradigma materialista não vamos encontrar todas as respostas que buscamos há séculos.

Muitas das incógnitas que me iam surgindo no dia a dia no exercício da minha profissão, a partir do momento em que consegui ver o homem como um ser integral, encontrei explicações. Claro: todas? Não, com certeza. Isso é uma utopia, pelo menos no patamar evolutivo em que o ser humano se encontra. Não podemos ter a pretensão de sabermos tudo e pretendermos explicar tudo. Mas muitas das dúvidas que tinha e que me faziam sofrer e não entender muito daquilo que acontecia com os doentes, em relação à nossa limitação, com certeza que encontrei essas respostas.

Porquê? Porque de facto percebemos que somos um ser integral, que o ser essencial é o espírito e não o corpo físico, e que esse corpo físico é apenas um instrumento do espírito que é sim a essência de cada um de nós e que é imortal. É importante a visão que nos traz a doutrina espírita da reencarnação, trazendo-nos um significado para a vida e uma explicação para muito daquilo que nos acontece no presente ligado a um passado mas também projetando - -nos num futuro, trazendo-nos sempre uma linha não de sofrimento nem de castigo, mas sim de aperfeiçoamento progressivo com destino à felicidade.

Vê-se por isso a busca da saúde de uma forma completamente diferente. Aliás, a definição que nos é trazida pela Organização Mundial de Saúde já não é dizer que saúde é ausência de doença. Já é uma definição mais avançada, mesmo dentro do paradigma materialista, dizendo-nos que é o bem-estar físico, psíquico e social. Conseguimos ir mais além dessa definição. Para nós, adoptaríamos a definição de Emmanuel quando ele diz que saúde é a perfeita harmonia da alma.

Como médica, compreendendo o corpo físico, entendemos que saúde é essa verdadeira harmonia da alma. Poderão estas ideias ligadas à espiritualidade ter algum valor terapêutico? Maria Paula Silva – Todo o valor. Já percebemos que dentro do paradigma materialista já conseguimos controlar muitas doenças. Controlar! Curar, conseguimos poucas. Quando compreendemos esta relação passado, presente, futuro, entre corpo e espírito, entendemos o porquê.

É porque quando achamos que encontrámos a causa da doença, na verdade essa causa, que consideramos dentro do paradigma materialista primária, não é a causa primária, é a causa secundária. Porque a primária muitas vezes antecede a doença do corpo físico e está relacionada não poucas vezes com desajustes, com desequilíbrios, provenientes da nossa mente. Por vezes com uma alteração vinda do passado, outras vezes com um despoletar por atitudes desta vivência.

Seja as causas infecciosas que parecem tão óbvias – então se é um microorganismo, se está identificado que é aquele microorganismo parece que é ali a causa primária, não há que ver. Mas há sim. Porquê? Porque se estivermos aqui dez pessoas e se estivermos todos sujeitos a por exemplo – agora estamos na altura da gripe – com o vírus veremos que nem todos vamos adoecer, e aqueles que adoecem não adoecem com a mesma intensidade.

Porquê? Porque há muitos outros fatores que vão ter repercussão na manifestação e progressão das doenças no nosso organismo. Chegará o tempo em que com estes conhecimentos as terapêuticas vão ser menos agressivas, porque vamos conseguir harmonizar o nosso organismo sem necessidade de recorrer a terapêuticas ainda por vezes tão agressivas para o nosso corpo físico. Na sua opinião o espiritismo aprisiona ou liberta o ser humano?

Maria Paula Silva – Meu Deus, mas disso não tenho dúvida nenhuma: é a grande libertação do ser humano. Mas é assim… uma convicção sem qualquer dúvida. A doutrina espírita liberta-nos de tudo. Liberta-nos dos dogmas, dos rituais, dos preconceitos, e liberta-nos a nós próprios. Quando tomamos conhecimento da doutrina espírita, percebemos que o nosso destino está nas nossas mãos. É o livre-arbítrio. Então, a nossa liberdade é total.

As escolhas dependem unicamente de nós. Agora, há um lado inverso: temos de ter a consciência que aquilo que nos vai acontecer não depende de ninguém, não podemos atribuir a culpa a ninguém, porque temos a certeza que as escolhas e o caminho dependem de nós próprios. Então é o caminho mais libertador que existe, na minha perspetiva. * Pode assistir ao vídeo desta entrevista no canal da ADEPno Youtube na lista de reprodução intitulada “À conversa com...