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Opinião

Jornal de Espiritismo nº 76 · Abril 2016Página 135 min

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Nos grupos humanos a sua importância não é menor. Vários estudos aplicados ao âmbito empresarial mostraram que grupos compos- tos por indivíduos mais heterogéneosida- de, sexo, raça, culturatomam melhores decisões e promovem mais a inovação do que grupos de maior homogeneidade. Indi- víduos semelhantes partilham as mesmas perspectivas e crenças, tenderão a concor- dar mais facilmente uns com os outros e a resvalar para a mesmice.

A diversidade é um desafio, potencia a criatividade e a inovação, é um factor que promove o progresso e o de- senvolvimento. Evoluímos na relação com a diversidade. Mas conviver com a diferença não é fácil, ela é causa de insegurança, ansiedade, ten- são e desconfiança. Em algumas situações até mesmo irritação pois, será que existe alguém que goste de ser contrariado? A ver- dade é que nos sentimos mais confortáveis junto dos que se parecem e pensam como nós.

Porquê isso? Muitos dos comporta- mentos que exibimos são fruto de impulsos biológicos que escapam à interferência cons- ciente. Julgamentos, preferências, a própria noção de normalidade ou bizarria são mui- tas vezes resultado de processos intuitivos automáticos que nos permitem ultrapassar pela faixa de emergência a lenta e esforçada racionalidade. O efeito da mera exposição, identificado pelo professor Robert B. Zajonc em 1968, é um dos efeitos mais replicados em psicologia e é abusado pela publicidade e pelas máquinas de propaganda.

Este cien- tista americano desenvolveu várias experiên- cias em que expôs jovens voluntários a uma seleção de fotos de pessoas. Algumas eram repetidas frequentemente numa série de apresentações, outras eram mostradas me- nos vezes e outras raramente. Questionados posteriormente sobre qual as faces acharam mais agradáveis, os voluntários apontaram de forma segura aquelas que tinham sido mostradas mais vezes. O professor Zajonc re- petiu esta experiência com caracteres chine- ses, palavras sem sentido e até com formas abstratas que surgiam em modo subliminar e os resultados confirmaram a sua hipótese: Temos tendência para apreciar mais aquilo que vemos mais vezes; somos mais atraídos por aquilo que nos é mais familiar.

De uma perspectiva evolutiva, foi algo bené- fico. Num ambiente agreste e incontrolável o mais familiar seria mais seguro mas, ainda hoje, o homem prefere viver entre os que são mais parecidos com ele. Isto significará que estamos biologicamente programados para não gostar do que é estranho ou diferente? Se não quisermos repetir erros antigos, sig- nifica sobretudo que precisamos compreen- der o que somos, não nos deixando conduzir permanentemente em piloto automático.

Os grupos foram e são indispensáveis como elementos de proteção, cooperação mas também de construção do que somos. São agentes de desenvolvimento, de união de vontades, ideias e esforços na obtenção de objetivos comuns. Mas se o grupo, desde o mais pequeno como a família até ao de maior dimensão, não abraçar a diversidade nem souber lidar com a divergência, se não estimular a emancipaçãoea autonomia, estará a promover a clonagem de ideias, o pensamento único e a obediência.

A mesmi- ce acabará moldando os indivíduos segundo uma determinada norma que é a norma do grupo, limitando o exercício das suas singula- ridades. No tradicional conto para crianças, é como tentar moldar um belo cisne a compor- tar-se como um patinho feio. Na experiência humana, é como se nos adaptássemos a ca- minhar toda a vida com uns sapatos três nú- meros abaixo do tamanho dos nossos pés. E habituados ao exercício dessa normalização, quando nos deparamos com alguém que exi- be uns confortáveis sapatões 44 ficamos na- turalmente incomodados.

Quando nos con- frontamos com alguém que não pertence ao clã, que tem um comportamento diferencia- do, se parece de uma outra maneira ou pen- sa de forma diferente, o animal gregário que há em nós, embora repita bem alto a norma social “é preciso respeitar as diferenças”, fica assustado, sente-se ameaçado e ansioso. Este problema pode ser instigado pelo grupo mas o indivíduo não fica isento de respon- sabilidades. Quando descansamos no pen- samento do grupo abdicando da nossa inte- Diversidade: um outro como nós gridade, da capacidade de pensarmos sem estarmos constrangidos a uma formatação, largamos mão da nossa singularidadeaqui- lo que nos faz únicos e especiais.

É uma es- colha que fazemos. Eis uma reflexão que é urgente ser feita para compreendermos os perigos que a homogeneização de comportamentos e a incapacidade para questionar e refletir são capazes de produzir. Em situações extremas, escolhas parecidas tiveram consequências terríveis. Ainda hoje, ninguém consegue esconder a perturbação ao procurar entender como pessoas “nor- mais” foram capazes de comportamentos tão perversos e insensíveis quando inseridas no contexto de um grupo.

Julgados em Nu- remberga, generais nazis desculparam-se dos seus atos afirmando que apenas cum- priram ordens. Um alto oficial nazi de nome Eichmann – responsável pela logística que permitiu a existência dos campos de concen- traçãojulgado em Jerusalém, revelou que nunca colocou a hipótese de questionar as ordens recebidas porque desejava ser bem sucedido e subir de posto. O que motivou Eichmann a cumprir um trabalho que pos- sibilitou o extermínio de milhões de seres humanos foi o mesmo objetivo que ainda hoje faz mover milhões de pessoas em todo o mundo.

Eis uma reflexão que é urgente ser feita para compreendermos os perigos que a homogeneização de comportamentos e a incapacidade para questionar e refletir são capazes de produzir. O desafio mais precioso que a vida nos colo- ca não é o do sucesso ou da excelência mas o do bem-estar íntimo, a iluminação interior. São objetivos que não poderão ser alcança- dos sem integridade, se não formos verda- deiros com a essência que em nós clama: Sê genuíno.

A prática da singularidade aumenta o estímulo para a integração da diversidade. Para que no futuro, aquele que não se com- porta, nem pensa, nem se parece connosco, deixe de ser um estranho e passe a ser um outro como nós. Por Carlos Miguel foto ulisses.com.pt MAIO.JUNHO.2016 A diversidade é um quesito indispensável à vida. Na genética desempenha um papel fundamental para a sobrevivência e adaptabilidade de uma espécie enquanto na Natureza é imprescindível para a sustentabilidade dos ecossistemas.