Opinião (pág. 15)
Jornal de Espiritismo nº 76 · Abril 2016Página 157 min
Já reparou que não há pardais em locais abandonados? A relação desta pequena ave com os humanos é tão estreita que, quando estes abandonam um lugar, os pardais fa- zem o mesmo. Estes membros da família Passeridae acom- panham-nos há séculos. Porém, os alarmes já foram lançados: em 30 anos, a população de pardais comuns caiu 63%. Em grandes cidades, como Londres, os pardais já desa- pareceram quase por completo.
Este declínio nesta espécie que tanto se liga a nós tem causas conhecidas: a contamina- ção, a falta de espaços verdes e a invasão de espécies exóticas. No meio rural, ainda que o desaparecimento dos pardais seja menor, também está a acontecer devido à intensificação da agricultura, ao uso abusivo de pesticidas e ao despovoamento generali- zado. Sendo uma ave sedentária, o seu de- clínio está sempre ligado ao ambiente que o rodeia.
Ora, o pardal comum não existia antes do aparecimento das cidades e, afinal, a mesma actividade que os criou está ago- ra a destruí-los: edifícios novos e modernos onde não se consegue fazer ninhos, cidades que já não se fundem com espaços natu- rais... Até os cientistas se perguntam: o que estamos a fazer de tão errado para que uma ave que evoluiu, se adaptou e conviveu con- nosco esteja a extinguir-se? Conclui-se, pois, facilmente que o que não é bom para os par- dais, também não é bom para nós e vice-ver- sa.
O Homem precisa de viver em comunhão com a Natureza, ainda que seja uma espé- cie extremamente social. Nós dependemos uns dos outros e não sobrevivemos se não interagirmos com os outros; as sociedades vingam pela cooperação. A maioria das nos- sas acções e pensamentos são à volta de outros ou em resposta a outros. Acontece que o ser humano é, simultanea- mente, prestável e egoísta por natureza. Por isso, alguns cientistas pensam que a morali- dade evoluiu para apoiar as nossas interac- ções com os outros e para controlar as nos- sas tendências egoístas.
Porém, de acordo com Decety e Cowell, neurocientistas espe- cialistas no estudo do cérebro de crianças, é enganador pensar que a moral é apenas um produto da evolução. Num artigo publicado em Março de 2016, os autores referem que a moral é um caso especial porque está na nossa própria na- tureza, mas também é influenciada pela so- ciedade em que vivemos. Esta última parte é consensual quer para as ciências naturais quer para as ciências sociais.
Por exemplo, uma tourada é vista como uma forma de crueldade atroz na América do Norte e em muitos países europeus, mas é vista como um espectáculo tradicional em países como a Espanha ou Colômbia. O principal argu- mento dos que defendem que a moral está imbuída na nossa natureza é que os nossos cérebros estão feitos para acolher a caracte- rística da moralidade. Este argumento apoia-se em três tipos de evidências: 1) os ‘tijolos’ básicos da mo- ralidade foram identificados em animais não-humanos; 2) mesmo bebés muito pe- quenos parecem manifestar algumas avalia- ções morais muito básicas; 3) as partes do cérebro activadas quando se faz um julga- mento estão a começar a ser identificadas.
Sabe-se também que a nossa capacidade de julgar é influenciada por neuromodula- dores como a oxitocina e a serotonina que estão presentes desde os primeiros exem- plares da espécie humana. A oxitocina, por exemplo, desempenha um papel importante na relação mãe-filho desde o início da nossa espécie. Uma outra descoberta interessante é que não existe um local único no cérebro que seja somente dedicado ao julgamento mo- ral.
Ao invés, essa capacidade está espa- lhada em vários circuitos relacionados com as emoções, planeamento e resolução de problemas. Em suma, usando contributos da biologia da evolução, da psicologia do desenvolvimento e das neurociências, a ci- ência está a concluir que a moral humana não pode ser apenas o produto da cultura, de heranças familiares ou do ambiente, mas acompanha a evolução do homem enquan- to espécie. Ora, a tese espírita diz-nos que as leis de Deus estão inscritas na nossa consci- ência e que o princípio inteligente estagian- do no reino mineral adquiriu a atracção; no reino vegetal, a sensação; no reino animal, o instinto; no reino hominal, o livre-arbítrio, o pensamento contínuo e a razão.
Hoje, so- mos o resultado de toda essa herança. Também André Luiz, em “Evolução em Dois Mundos”, informa: “a lei do progresso exige que o princípio inteligente se vá despojando dos liames da matéria. Para que tenhamos um olhar crítico, devemos libertar-nos da obscuridade da matéria, consubstanciada no egoísmo, no orgulho e no interesse pró- prio”. E André Luiz diz ainda que tanto a rege- neração quanto a evolução não se dão sem preço: com a conquista da razão, o Homem tornou-se responsável pelos próprios actos, devendo prosseguir com o seu próprio esfor- ço” (Kardec, “O Livro dos Espíritos”, q.
685). “Com a sua educação moral que consiste na arte de formar caracteres, que incute hábitos” (Kardec, “O Evangelho Segundo o Espiritismo”). Também no ESE, é-nos lem- brado que Jesus foi o iniciador da mais pura, da mais sublime moral que há-de renovar o mundo, aproximar os homens e torná-los irmãos; que há de fazer brotar de todos os corações a caridade e o amor do próximo e estabelecer entre os humanos uma solida- riedade comum; de uma moral, enfim, que há de transformar a Terra (...)
São chegados os tempos em que se hão de desenvolver as ideias, para que se realizem os progressos que estão nos desígnios de Deus”. De fac- to, a Ciência já nos mostra que nós somos geneticamente projectados para colaborar, pois, individualmente, somos muito frágeis e a cada um a sua missão, a cada um o seu trabalho. No trabalho de cada um e na interacção com o ambiente, o sustento e cuidado do corpoinstrumento sensível aos vários elementos da criaçãomerecem cuidados, mas muitos mais cuidados temos de dispensar à men- te.
Temos de proteger o corpo tal como te- mos de proteger a mente que é ainda mais sensível. Se quero uma harmonia da minha mente, tenho que tratá-la com harmonia; se quero paz, tenho que tratá-la dessa maneira. Se não quero que a mente fique marcada, tenho que tratá-la com cuidado, com com- preensão. Todo e qualquer sentimento, pen- samento e reacção que eu veja na minha mente foram produzidos, alimentados por mim mesmo/a.
Eu mesmo/a abri a porta da mente e deixei entrar, e agora há um efei- to. Um medo, uma reação que se insinuou; nada foi colocado na minha mente por outra pessoa a não ser por mim. Tudo foi cultivado e armazenado por mim. Sentimentos posi- tivos ou negativos não nascem fortes, mas são fortalecidos ao serem reforçados por mim no dia a dia. É necessário fortalecer a minha segurança, a minha autoconfiança, a minha auto-estima, a minha aceitação e compreensão e proteger a minha mente do desgaste, de situações que me fazem reagir violentamente, do cansaço mental.
É neces- sário escutar e reflectir sobre o autoconhe- cimento, vivê-lo a todo momento, descobrir o Eu real e completo enquanto filho/a de Deus, dominando a realidade da mente e dos seus processos. Já o psiquiatra dizia: “A psicologia do indiví- duo corresponde à psicologia das nações. As nações fazem exactamente o que cada um faz individualmente; e do modo como o indi- víduo age, a nação também agirá. Somente com a transformação da atitude do indivíduo é que começará a transformar-se a psicolo- gia da nação.
Até hoje, os grandes proble- mas da humanidade nunca foram resolvidos por decretos colectivos, mas somente pela renovação da atitude do indivíduo.” (Carl Jung, “Psicologia do Inconsciente”, 1916). Se compreendermos isto, percebemos que todas as nossas acções individuais e colec- tivas têm efeitos sobre nós, sobre os outros seres e sobre o planeta. E o Evangelho exorta que todos nós temos por missão melhorar o mundo material que nos foi emprestado e “o espírita tem de pensar que a sua vida inteira deve ser um acto de amor e devotamento”.
Não importa, pois, qual seja a medida da transformação ou o quão longe esta possa estar do nosso desejo, ou a força que ela tenha para provocar as reações da nossa mente. Que em nosso coração Deus perma- neça claro, na forma de um brilho de com- preensão, de um olhar além do olhar de que todas as formas são o meu corpo. E tudo o que leva e tudo o que traz com a sua dan- ça são oportunidades de crescimento e de amadurecimento.
Que haja felicidade no mundo e na natureza. Que haja felicidade para todos os que estão vivos. Que haja fe- licidade nos corpos. Que haja felicidade nas mentes. Honremos a felicidade em tudo. E honremos, com a nossa vida, a vida dos par- dais que nos acompanham. Por Filipa Ribeiro Transformação e convivência «RobinAcreditas no Céu? GraceNão de maneira nenhuma. RobinNão acreditas no Céu não acreditas no Inferno. GraceNão consigo ver o Céu.
» (Sarah Kane, «Purificados») foto ulisses.com.pt MAIO.JUNHO.
