Atualidade Julho.agosto.2016 (pág. 12)
Jornal de Espiritismo nº 77 · Julho 2016Página 127 min
ATUALIDADE JULHO.AGOSTO.2016 ensinamentos sobre a vida no mundo espiritual. Os relatos dos que se encontram já libertos do corpo físico dão-nos conta de que muitos dos sofrimentos da Terra continuam após a morte e, muito em particular, nos casos de suicídio. 14 Nestes casos o Espírito fica profundamente deprimido, continuando a viver em situação de elevada perturbação e muitas vezes sem mesmo se aperceber que já partiu para o mundo espiritual.
Esta situação pode manter-se anos até que surja uma oportunidade de esclarecimento. Muitos destes casos pedem que se passe a palavra sobre estes fatos, para que mais ninguém se atire a tal infortúnio. Regra geral, consumado o ato, de alguma maneira rapidamente percebem que deveriam ter sabido ser resilientes, pois a passagem na vida material configura uma “bolsa de estudo”, cheia de testes e ensinamentos, previstos já antes de nascer.
Embora estes dados – que até podem ser vistos numa moldura de religiosidade natural no ser humano – sejam novidade para muita gente, na verdade parecem ser leis da natureza que não fazem vénia para funcionar, quer se acredite nelas ou não. Isto aplica-se quer às vidas sucessivas quer à continuidade da vida após a morte do corpo físico, articuladas com uma relação de causa e efeito que vincula a consciência de cada um face ao seu próprio passado mais ou menos remoto.
Portanto, do ponto de vista espiritual, a eutanásia sempre será vista como uma via gémea do suicídio e bem sabemos como esse sofrimento se estende na vida espiritual por prazo variável mas algo longo. Alívio do sofrimento A eutanásia é invocada, como já referido, como forma de acabar com um sofrimento insuportável. De acordo com a Doutrina dos Espíritos a procura do alívio do sofrimento constitui mais do que um direito – constitui um dever, desde que não ultrapasse a inviolabilidade da vida.
Apoiada no princípio da imortalidade da alma, na lei da reencarnação e na lei de causa e efeito, esta doutrina afirma que o sofrimento não acaba com a morte do corpo físico e que a sua antecipação nem que seja por breves instantes tem repercussões graves. A este propósito Allan Kardec pergunta: “Quando uma pessoa vê diante de si um fim inevitável e horrível, será culpada se abreviar de alguns instantes os seus sofrimentos, apressando voluntariamente sua morte?
Ao que os Espíritos respondem: “É sempre culpado aquele que não aguarda o termo que Deus lhe marcou para a existência…”. 15 Não temos dúvidas do direito a uma morte digna. Mas, também aqui afirmamos, mais do que um direito é um dever termos uma morte digna. Porém, não é o sofrimento que a torna indigna e sim a forma como vivenciamos esse sofrimento. A doutrina espírita ajuda a encontrar um significado para o sofrimento e, dessa forma, contribui para a dignidade da vida até ao momento da morte, porque o que torna o sofrimento insuportável é o sofrer sem sentido.
Sabendo quem somos, de onde vimos e para onde vamos enquanto seres constituídos de corpo e alma, percebemos a Lei Natural com a sua justiça e os seus desígnios. Percebemos que o sofrimento ao contrário de ser indigno, pode ser uma oportunidade de crescimento espiritual se o soubermos viver – afinal, se o vivermos com dignidade! No seguimento da pergunta sobre se o homem tem o direito de dispor da sua vida e à qual obtém a resposta que o suicídio importa sempre numa transgressão da Lei, Allan Kardec pergunta ainda se continua a ser transgressão no caso de o suicídio ser uma forma de fugir às misérias e às deceções deste mundo.
E a resposta é bem clara: “Pobres Espíritos, que não têm a coragem de suportar as misérias da existência! Deus ajuda aos que sofrem e não aos que carecem de energia e de coragem. As tribulações da vida são provas ou expiações. Felizes os que as suportam sem se queixar, porque serão recompensados!” 13 Numa avaliação efetuada pela Comissão Remmelink, na Holanda, confirmou-se clara e inequivocamente que a maioria dos pedidos de eutanásia se relacionavam com o sofrimento intenso, devido ao sentimento de abandono e de exclusão social, e quase nunca a dor profunda e insustentável.
Nestes casos o pedido de eutanásia relaciona-se não com a doença em si, mas com a dependência por ela causada, fazendo o doente sentir-se um fardo para quem cuida. Numa sociedade materialista onde não se vê para além do corpo físico numa única existência é difícil para o doente aceitar a dependência e a necessidade de ser cuidado e é difícil para o cuidador aceitar cuidar quando esse cuidar implica, muitas vezes, abdicar de tantos prazeres terrenos.
Mas, na visão espírita, percebemos que cuidar e ser cuidado constitui oportunidade de evolução: oportunidade de evolução de quem cuida num exercício constante de abnegação, oportunidade de evolução de quem é cuidado, num exercício constante de humildade, resignação e aceitação e, quantas foto dr Numa avaliação efetuada pela Comissão Remmelink, na Holanda, confirmou-se clara e inequivocamente que a maioria dos pedidos de eutanásia se relacionavam com o sofrimento intenso, devido ao sentimento de abandono e de exclusão social, e quase nunca a dor profunda e insustentável.
vezes, estas situações constituirão ainda oportunidade de reparação de um passado mais ao menos remoto. Papel do profissional de saúde Neste item não podemos encontrar melhor forma de expor qual a posição do profissional de saúde perante o pedido de eutanásia na perspetiva médico-espírita do que através da transcrição da resposta deixado por São Luís quando Allan Kardec pergunta: “Um homem está agonizante, presa de cruéis sofrimentos.
Sabe-se que seu estado é desesperador. Será lícito pouparem-se-lhe alguns instantes de angústias, apressando-se-lhe o fim? “- Quem vos daria o direito de prejulgar os desígnios de Deus? Não pode ele conduzir o homem até à borda do fosso, para daí o retirar, a fim de fazê-lo voltar a si e alimentar ideias diversas das que tinha? Ainda que haja chegado ao último extremo um moribundo, ninguém pode afirmar com segurança que lhe haja soado a hora derradeira.
A Ciência não se terá enganado nunca em suas previsões?” Pode haver casos que se podem, com razão, considerar desesperadores; mas, se não há nenhuma esperança fundada de um regresso definitivo à vida e à saúde, existe a possibilidade, atestada por inúmeros exemplos, de o doente, no momento mesmo de exalar o último suspiro, reanimar-se e recobrar por alguns instantes as faculdades! Pois bem: essa hora de graça, que lhe é concedida, pode ser-lhe de grande importância.
Desconheceis as reflexões que seu Espírito poderá fazer nas convulsões da agonia e quantos tormentos lhe pode poupar um relâmpago de arrependimento. O materialista, que apenas vê o corpo e em nenhuma conta tem a alma, é inapto a compreender essas coisas; o espírita, porém, que já sabe o que se passa no além-túmulo, conhece o valor de um último pensamento. Minorai os derradeiros sofrimentos, quanto o puderdes; mas, guardai - -vos de abreviar a vida, ainda que de um minuto, porque esse minuto pode evitar muitas lágrimas no futuro”.
S. Luís. (Paris, 1860) 16 Esta posição não se antagoniza com a necessidade de procurarmos o alívio para o sofrimento, pois não vê o sofrimento como castigo mas como oportunidade de reparação e de crescimento e a busca do seu alívio é obrigatória, na procura constante da harmonia com as leis do universo. NotaA leitura integral deste documento está disponível no site da AME Norte, em https://amenortesite. wordpress.com Notas: 1 - Battin M: Euthanasia and Physician Assisted Suicide.
In The Oxford Handbook of Practical Ethics (Editor: Hugh LaFollette), Oxford University Press, Oxford, 2003. 2 - Comissão Nacional da UNESCO – Portugal; Declaração Universal sobre Bioética e Direitos Humanos. 3 - Harris J: The Value of Life. An Introduction to Medical Ethics. Routledge, London, 1991. 4 - José Manuel Silva: Eutanásia, distanásia e morte antecipada assistida, in Jornal de Notícias (19.02.2016). 5 - Constituição da República Portuguesa.
6 - Ganzini L, Beer T, Brouns M, Mori M, Hsieh Y: Interest in Physician-Assisted Suicide among Oregon Cancer Patients. The Journal of Clinical Ethics 17 n.1; 2006: 27-38. 7 - Osswald W: Um Fio de Ética. Exercícios e Reflexões. Instituto de Investigação e Formação Cardiovascular, Coimbra, 2001. 8 - Keown J: Euthanasia, Ethics and Public Policy. An Argument against Legalisation. Cambridge University Press, Cambridge, 2002.
9 - Pedro Vaz Patto: A eutanásia e a rampa deslizante, in Observador (17.2.2016). 10 - Nunes R., Duarte I., Soares R., Rego G.: Estudo N.o E/10/APB/07, Inquérito Nacional à Prática da Eutanásia. Associação Portuguesa de Bioética. 11 - Kardec A.: pergunta 1, O livro dos espíritos. 12 - Kardec A.: pergunta 944, O livro dos espíritos. 13 - Kardec A.: pergunta 946, O livro dos espíritos. 14 - Kardec A.: Entre o céueo inferno.
15 - Kardec A.: pergunta 953 item b, O livro dos espíritos. 16 - Kardec A.: cap. V, item 28, O Evangelho segundo o Espiritismo.
