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Jornal de Espiritismo nº 8 · 2005Página 158 min

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Recordações do movimento espírita: Angola

Duvido que abundem fontes ou dados históricos institucionais acerca do movimento espírita em Angola, anteriores à descolonização; testemunhos das muitas pessoas ligadas de alguma forma ao referido movimento, seriam pois uma boa maneira de procurar reconstituí-lo.

O regime colonial mantido ali pela ditadura portuguesa, não estudava nem incentivava as tímidas manifestações de mediunismo tradicional autóctone, por exemplo de natureza fúnebre; desrespeitava-as, mesmo, ao menor pretexto. A Igreja Católica era francamente privilegiada. Porém justiça se faça ao valioso trabalho de missionários seus, que recolheram muitos elementos de etnografia, antropologia, possíveis fontes de subsídios para o nosso estudo, e de línguas indígenaspor exemplo, o Padre Bermann, creio que belga, uma dessas personagens mais exponenciais, e o benquisto Monsenhor Alves da Cunha, que o autor ainda conheceu pessoalmente.

Justiça se faça também à posição nobre que por volta de 1960 a Igreja Católica, através do Arcebispo de Luanda D. Moisés Alves de Pinho, assumiu em defesa dos valores culturais nativos, quando o governo de Salazar ordenou o bárbaro vandalismo de apreender e destruir todos os livros didácticos, ou outros, em línguas indígenas; tratava-se sobretudo de catecismos, gramáticas e dicionários de quimbundo e umbundo organizados durante décadas por missionários católicos.

De assinalar também que, em 1948, o primeiro ano do curso de filosofia do Seminário Arquidiocesano de Luanda incluiu a disciplina de quimbundo.

O regime tolerava, não sem alguma suspeição, as religiões protestantes, que nas suas missões tinham excelentes hospitais e missionários médicos de grande valor, voltados para o atendimento às populações rurais. Até aos anos 70, eram famosos em todo o território os drs. Parson, na Missão do Lépi, e Strangway, na de Catabola, ambos, médicos excelentes e muito dedicados às populações nativas, ocasionalmente procurados também pelos colonos.

Quanto a Espiritismo, a atmosfera social reinante era muito preconceituosa e de generalizada desconfiança, mas não deixavam de existir pequenos núcleos dispersos, não organizados e muito menos institucionalizados, em diferentes zonas de Angola: pelo menos Luanda, Malanje, Huambo, Lobito e Benguela. Em grande parte, porém, não se tratava de Espiritismo autêntico, mas da ramificação -- digamosdenominada “Racionalismo Cristão”, ou “Espiritismo Científico Cristão”.

Foi este fundado no início do século XX no Rio de Janeiro por um português honrado, culto e ex-ateu (Luiz José de Mattos, cônsul do seu País no Brasil). Rendera-se à eficácia e probidade dum centro espírita, que, para sua surpresa, o curou duma enfermidade que o prostrava e resistia a todos os tratamentos médicos. Isso levou-o a reconhecer honestamente a realidade da sobrevivência do espírito, e elaborou ele mesmo uma doutrina baseada na composição do Universo, de acordo com correntes filosóficas da época; era uma doutrina algo semelhante ao Espiritismo, mas com desvios influenciados pelas origens materialistas de Luiz de Mattos, que se referia depreciativamente àquele como espiritismo religioso e como kardecismo.

Suponho que não leu Kardec nem conheceu a genuína doutrina espírita por este codificada (caso contrário não sentiria necessidade de elaborar ele próprio uma doutrina); e por isso confundiu Espiritismo com as suas distorções obscurantistas e supersticiosas, as quais combatia esclarecidamente.

Na minha infância, em Malanje, lembro-me dum sr. Clara, respeitável agente funerário, que nos anos 40 reunia em sua casa um pequeno grupo de praticantes espíritas, alvo da desconfiança, temor e ironia da restante população de origem portuguesa. Em 1961 tive o privilégio de conhecer em Luanda, na sua residência ao Bairro do Coqueiros, Maria de Oliveira, alma de eleição, detentora duma mediunidade invulgarmente ampla e desenvolvida, disciplinadíssima; muito recta, sempre humilde e circunspecta, caracterizava-a um irrepreensível aprumo cívico. Esta senhora admirável foi uma honesta e

activíssima difusora do Racionalismo Cristão em Angola, intervindo eficazmente em numerosas desobsessões. Já septuagenária mas robusta e saudável, incentivou-me muito ao estudo e à disciplina, tal como a muitas outras pessoas, a quem confortava e esclarecia sabiamente. Desencarnou em 1968, por coincidência ou não no dia do aniversário natalício de Allan Kardec, 3 de Outubro. Deixou escrito um livrointitulado COMO CHEGUEI À VERDADE, que edificou e esclareceu muitas pessoas.

Pelo menos desde a década de 50, existia no Lobito, bairro da Restinga, um grupo espírita de cariz familiar, liderado com amor e abnegação por Ofélia Romero Albuquerque, conceituada médica que não hesitou expor-se a murmúrios por ser espírita; dispunha da estreita e dedicada colaboração da médium Maria Odete Peres Cruz, funcionária aduaneira que nesse mesmo grupo fora curada de perturbações espirituais graves, que a medicina convencional em vão tratara como patologia clínica.

Maria Luísa Pereira, professora , frequentava este grupo e com apoio dele fundou ela própria outro, em Benguela, cidade vizinha onde residia. Também no Lobito, bairro do Liro, existia na mesma época um grupo espírita orientado pela extraordinária médium Maria da Conceição Nobre, professora de ensino primário, que acolhia e criava em casa, como filhos, numerosas crianças africanas desamparadas, de ambos os sexos, desde meses de idade até adolescentes, as quais chegaram a atingir a bela cifra de vinte e uma.

Ainda na cidade portuária do Lobito, bairro do Compão, funcionava, também discretamente, um grupo de Racionalismo Cristão, orientado igualmente na própria residência por Fernando Correia da Silva, respeitado funcionário superior dos Caminhos de Ferro de Benguela.

Ainda no Lobito, funcionou creio que até 1960, na Rua do Comércio, um grupo de Racionalismo Cristão sob a orientação de João Batista Randall Piedade, armador naval; lembro-me também doutro destacado elemento do grupo, Paixão Franco, funcionário aduaneiro.

Na época, ninguém ousava proferir ou escrever, em público, a palavra “espiritismo”, a não ser para a ridicularizar e menosprezar.

O ano de 1971 registou uma profunda alteração nesse panorama. Por ousada iniciativa (em cujo sucesso não se acreditava) de Maria Cleofé Martin Conde Coutinho de Oliveira, funcionária publica e ex-locutora de rádio, o famoso médium e orador espírita brasileiro Divaldo Pereira Franco visitou Angola de 20 a 30 de Agosto desse ano. Com dificuldades, sob atenta vigilância da polícia política, conseguiu proferir palestras em Luanda, Lobito e Lubango, despertando enorme interesse com a sua vibrante oratória inspirada.

À sua presença carismática foi um abençoado fermento que contribuiu poderosamente para modificar o ambiente social a respeito do proscrito vocábulo espiritismo, que começou a ter presença até na imprensa e na rádio luandenses, onde Divaldo foi entrevistado.

Pouco depois, a revista SEMANA ILUSTRADA, editada em Luanda com escassa tiragem, em Setembro ou Outubro desse ano publicou com invulgar sucesso uma reportagem sobre os famosos tratamentos espirituais do não menos famoso Padre Lima, na povoação de Longonjo, distrito do Huambo, multiplicando vertiginosamente a sua tiragem.

Em feliz coincidência, ainda no mesmo ano deuse o célebre e muito publicitado exorcismo que o bispo de Benguela, D. Armando Santos, efectuou com êxito a uma menina de onze anos, Inês Soares, violentamente possessa, protagonizando incríveis fenómenos de efeitos físicos. O caso ganhou enorme repercussão porque os pais da menina a tinham levado em vãoavários médicos, incluindo o Prof. Miller Guerra, em Portugal. Por outro lado o bispo fez questão de ler publicamente , na sua igreja, o relato oficial do exorcismo, para evitar malentendidos, dada a notoriedade atingida pelo caso, autorizando a reprodução do dito relato apenas na Íntegra e com menção da fonte.

Também coincidiu circular particularmente em Luanda uma tradução da revista italiana TEMPO, salvo erro de Novembro de 1971. A mesma continha uma reportagem impactante da célebre jornalista Oriana Fallaci, acerca de Toni Agpoa e outros curandeiros filipinos, a cujas cirurgias mediáúnicas a própria jornalista fez questão de submeter-see com êxito.

Estes acontecimentos não propriamente espíritas, subsequentes à frutuosa visita de Divaldo Franco, contribuíram significativamente para maior abertura da opinião pública ao Espiritismo. Pouco depois deles, essa receptividade ficou reforçada com a exibição em Angola do impressionante filme de William Friedkin O Exorcista, baseado em factos reais.

É certo que em Fevereiro ou Março de 1972 a PIDE (polícia política) interditou a Divaldo Franco a entrada em território português e colônias, depois de apreender nos Correios a revista espírita REFORMADOR,; esta publicara uma bela e profética mensagem (amargamente confirmada pelo tempo) de Monsenhor Manuel Alves da Cunha (espírito), conceituadísimo Vigário-geral da arquidiocese de Luanda falecido em 1946, a qual fora recebida psicograficamente por Divaldo durante a sua estadia em Luanda.

O seu teor, fanaticamente tomado pela Pide como subversivo e hostil a Portugal, enfureceu os zelosos guardiães da segurança do Estado. O caso gerou enorme celeuma em Luanda, ocasionando interrogatórios e intimidações da Pide. Mas a atmosfera social, em Angola, já amadurecera o suficiente para favorecer o Espiritismo com uma sã curiosidade e muitos novos adeptos, por todo o território (o mesmo sucedera na colónia de Moçambique, também visitada com o melhor êxito por Divaldo Franco durante bastantes dias, no mesmo Agosto de 1971, no seu percurso para Angola).

Entretanto amanheceu o revolucionário dia 25 de Abril de 1974, que derrubou a ditadura em Portugal, com as suas tirânicas proibições e interdições extensivas às colónias. A convite do autor, em nome dos espíritas luandenses, Divaldo Franco visitou de novo Angola em 1975, de 26 de Fevereiro a 10 de Março, com maiores auditórios, sem impedimentos nem temores. Foi até possível obter das autoridades o privilégio de o acolhermos como passageiro vip, no aeroporto de Luanda.

O devotado orador e médium fez palestras de grande êxito espiritual nas cidades de Luanda, Novo Redondo, Lobito, Benguela, Lubango, Huambo, Dalatando e novamente Luanda, empolgando invariavelmente os auditórios, fomentando a cultura espírita dos ouvintes.

Chegou a estar em estudo a institucionalização do Espiritismo em Angola, cujas diligências preliminares não deixaram de tropeçar em vestígios activos do colonialismo, ainda semi-instalado. Entretanto decorria o conturbado processo de descolonização, cheio de incertezas e receios para a população em geral. O ano de 1975 viu uma debandada em massa, precipitadamente, com movimentada ponte aérea para Portugal e alguns voos para o Brasil, até 11 de Novembro, dia da independência festivamente proclamada em Luanda.

Depois dessa data o êxodo prosseguiu, muito menos caudaloso mas quase ininterrupto. Daí resultou inevitavelmente a desarticulação do incipiente movimento espírita em Angola, com uma quebra nunca total mas próxima disso. Todavia, a farta sementeira de Divaldo e o labor de todos os pioneiros de modo nenhum se perderam: os espíritas idos de Angola e Moçambique aderiram naturalmente ao movimento espírita em Portugal e com o tempo foram atingindo nele posições de relevo e responsabilidade, contribuindo notoriamente para o seu incremento por todo o País.

Quase um ano após a independência, em Outubro de 1976, muito pouco restava dos grupos espíritas luandenses. Seis ou sete companheiros persistentes e esperançados no futuro, reuniam semanalmente, uma ou duas vezes consoante as possibilidades, em casa de um deles. No primeiro fim de semana desse mês, o autor destas memórias, sem então ainda o saber, participou num dos seus derradeiros actos com o pequeno grupo; foi uma tríplice

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