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vamente àquele como espiritismo religioso e como kardecismo

Jornal de Espiritismo nº 8 · 2005Página 164 min

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Suponho que não leu Kardec nem conheceu a genuína doutrina espírita por este codificada (caso contrário não sentiria necessidade de elaborar ele próprio uma doutrina); e por isso confundiu Espiritismo com as suas distorções obscurantistas e supersticiosas, as quais combatia esclarecidamente.

Na minha infância, em Malanje, lembro-me dum sr. Clara, respeitável agente funerário, que nos anos 40 reunia em sua casa um pequeno grupo de praticantes espíritas, alvo da desconfiança, temor e ironia da restante população de origem portuguesa. Em 1961 tive o privilégio de conhecer em Luanda, na sua residência ao Bairro do Coqueiros, Maria de Oliveira, alma de eleição, detentora duma mediunidade invulgarmente ampla e desenvolvida, disciplinadíssima; muito recta,y, sempre humilde e circunspecta, caracterizava-a um irrepreensível aprumo cívico. Esta senhora admirável foi uma honesta e

activíssima difusora do Racionalismo Cristão em Angola, intervindo eficazmente em numerosas desobsessões. Já septuagenária mas robusta e saudável, incentivou-me muito ao estudo e à disciplina, tal como a muitas outras pessoas, a quem confortava e esclarecia sabiamente. Desencarnou em 1968, por coincidência ou não no dia do aniversário natalício de Allan Kardec, 3 de Outubro. Deixou escrito um livro intitulado COMO CHEGUEI À VERDADE, que edificou e esclareceu muitas pessoas.

Pelo menos desde a década de 50, existia no Lobito, bairro da Restinga, um grupo espírita de cariz familiar, liderado com amor e abnegação por Ofélia Romero Albuquerque, conceituada médica que não hesitou expor-se a murmúrios por ser espírita; dispunha da estreita e dedicada colaboração da médium Maria Odete Peres Cruz, funcionária aduaneira que nesse mesmo grupo fora curada de perturbações espirituais graves, que a medicina convencional em vão tratara como patologia clínica.

Maria Luísa Pereira, professora , frequentava este grupo e com apoio dele fundou ela própria outro, em Benguela, cidade vizinha onde residia. Também no Lobito, bairro do Liro, existia na mesma época um grupo espírita orientado pela extraordinária médium Maria da Conceição Nobre, professora de ensino primário, que acolhia e criava em casa, como filhos, numerosas crianças africanas desamparadas, de ambos os sexos, desde meses de idade até adolescentes, as quais chegaram a atingir a bela cifra de vinte e uma.

Ainda na cidade portuária do Lobito, bairro do Compão, funcionava, também discretamente, um grupo de Racionalismo Cristão, orientado igualmente na própria residência por Fernando Correia da Silva, respeitado funcionário superior dos Caminhos de Ferro de Benguela.

Ainda no Lobito, funcionou creio que até 1960, na Rua do Comércio, um grupo de Racionalismo Cristão sob a orientação de João Batista Randall Piedade, armador naval; lembro-me também doutro destacado elemento do grupo, Paixão Franco, funcionário aduaneiro.

Na época, ninguém ousava proferir ou escrever, em público, a palavra “espiritismo”, a não ser para a ridicularizar e menosprezar.

O ano de 1971 registou uma profunda alteração nesse panorama. Por ousada iniciativa (em cujo sucesso não se acreditava) de Maria Cleofé Martin Conde Coutinho de Oliveira, funcionária publica e ex-locutora de rádio, o famoso médium e orador espírita brasileiro Divaldo Pereira Franco visitou Angola de 20 a 30 de Agosto desse ano. Com dificuldades, sob atenta vigilância da polícia política, conseguiu proferir palestras em Luanda, Lobito e Lubango, despertando enorme interesse com a sua vibrante oratória inspirada.

AÀA sua presença carismática foi um abençoado fermento que contribuiu poderosamente para modificar o ambiente social a respeito do proscrito vocábulo espiritismo, que começou a ter presença até na imprensa e na rádio luandenses, onde Divaldo foi entrevistado.

Pouco depois, a revista SEMANA ILUSTRADA, editada em Luanda com escassa tiragem, em Setembro ou Outubro desse ano publicou com invulgar sucesso uma reportagem sobre os famosos tratamentos espirituais do não menos famoso Padre Lima, na povoação de Longonjo, distrito do Huambo, multiplicando vertiginosamente a sua tiragem.

Em feliz coincidência, ainda no mesmo ano deuse o célebre e muito publicitado exorcismo que o bispo de Benguela, D. Armando Santos, efectuou com êxito a uma menina de onze anos, Inês Soares, violentamente possessa, protagonizando incríveis fenómenos de efeitos físicos. O caso ganhou enorme repercussão porque os pais da menina a tinham levado em vãoavários médicos, incluindo o Prof. Miller Guerra, em Portugal. Por outro lado o bispo fez questão de ler publicamente , na sua igreja, o relato oficial do exorcismo, para evitar malentendidos, dada a notoriedade atingida pelo caso, autorizando a reprodução do dito relato apenas na Ííntegra e com menção da fonte.

Também coincidiu circular particularmente em Luanda uma tradução da revista italiana TEMPO, salvo erro de Novembro de 1971. AÀ mesma continha uma reportagem impactante da célebre jornalista Oriana Fallaci, acerca de Toni Agpoa e outros curandeiros filipinos, a cujas cirurgias mediúnicas a própria jornalista fez questão de submeter-seecom êxito.

Estes acontecimentos não propriamente espíritas, subsequentes à frutuosa visita de Divaldo Franco, contribuíram significativamente para maior abertura da opinião pública ao Espiritismo. Pouco depois deles, essa receptividade ficou reforçada com a exibição em Angola do impressionante filme de William Friedkin O Exorcista, baseado em factos reais.

E certo que em Fevereiro ou Março de 1972 a PIDE (polícia política) interditou a Divaldo Franco a entrada em território português e colônias, depois de apreender nos Correios a revista espírita REFORMADOR,; esta publicara uma bela e profética mensagem (amargamente confirmada pelo tempo) de Mons