Opinião
Jornal de Espiritismo nº 80 · Outubro 2017Página 143 min
Não nos confunde que para aqueles que não acreditam em Deus mas a quem basta para sua satisfação aquilo que os olhos podem ver, que não se lhes levantem grandes questões metafísicas acerca da existência. Todavia, para quem tenha o sentido da sua existência assente na existência de Deus, a simples hipótese académica da não existência de Deus é apavorante. E é apavorante porque perde-se aquilo a que William Lane Craig chama de sentido fundamental.
Filosoficamente, pode haver Deus e não haver imortalidade (há quem diga que acredita em Deus e descreia da imortalidade), o que é fonte de grande angústia existencial, e pode haver imortalidade e não haver Deus (há quem se saiba imortal, mas continue sem Deus), o que é fonte de angústia não menor. Então, sem Deus e sem imortalidade o que quer façamos sempre acaba em nada. Estudar, trabalhar, sofrer, amar, mudar o curso da história – no fim, que importa deveras se tudo acaba em nada, se lhe falta o sentido fundamental?
Em escala maior, acaba a humanidade, acaba o universo – e, sem Deus e sem imortalidade, que resta do que se fez? Nem a memória. Sem Deus e sem imortalidade, existir ou não existir vai dar no mesmo, não importando tão pouco ser santo ou ser assassino, porque o fim é o nada. Pode conceber-se a existência da imortalidade sem Deus, mas acontece como naquela história do astronauta que foi abandonado numa qualquer rocha do espaço, tendo consigo dois frascos: um, com veneno, que o mataria; outro, com uma poção que lhe daria a imortalidade.
Conhecendo a sua predicação (a morte ou a solidão perpétua) optou por morrer. Só que enganou-se no frasco. Pois a imortalidade sem Deus é isso mesmo, um vazio sem fim. Sem Deus e sem imortalidade, existir ou não existir vai dar no mesmo, não importando tão pouco ser santo ou ser assassino, porque o fim é o nada. Torna-se, pois, necessária a existência de Deus e da imortalidade. Perguntar-se-á: a necessidade de uma coisa faz a sua existência?
Na natureza as coisas funcionam mais ou menos assim, mas o que está aqui em causa transcende a natureza. Aqui falamos da Inteligência Suprema, causa primária de todas as coisas. Só que: que inteligência é essa?, que propósito tem?, existe mesmo? Enquanto vivermos nos domínios do acreditar Deus (ou a sua ausência) e do não acreditar (acreditamos numas coisas e não acreditamos noutras que tantas vezes não se anulam entre si) o pavor do existir estará latente; só o conhecimento nos libertará do medo.
E como conhecer, desde já, Deus enquanto não logramos conhecê-lo pela inteligência? Um amigo espiritual dizia-nos que Deus aprende-se no coração, e Jesus (e de um modo geral todas as religiões) sempre nos apontou o coração (o sentir) como o lugar de encontrar Deus e nos encontrarmos com Ele. E sabendo-se o que se sabe hoje acerca da inteligência do coração e de seus amplos campos eléctrico e magnético (bem superiores àqueles que emanam do órgão que processa o pensamento), não pode haver lugar mais certo para dar resposta segura à necessidade de sentido fundamental para a existência.
Por A. Pinho da Silva foto arquivo JANEIRO.FEVEREIRO.2017 Para quem acredita em Deus existir faz sentido, como, a partir de certo nível consciencial, faz sentido a vida e a morte, a alegria e a dor, a saúde e a doença.
