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Opinião (pág. 16)

Jornal de Espiritismo nº 80 · Outubro 2017Página 165 min

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“Perdoa-nos as nossas dívidas assim como nós perdoamos aos nossos devedores” – eis a quinta proposição da “oração dominical”, ou Pai Nosso, formulada pelo incomparável pedagogo de Nazaré. A fórmula atual adotada na Igreja católica, desde os passados anos 60, difere um pouco da usada antes, e mencionada em “O Evangelho Segundo o Espiritismo”: os termos “dívidas” e “devedores” foram substituídos por “ofensas” e “aqueles que nos têm ofendido”.

Não alteram o sentido à frase, ambas as versões têm matriz bíblica: a primeira, no Evangelho de Mateus (6:12); a outra, no de Lucas (11:4). A decisão e suas razões vinculam os católicos romanos; merecem respeito, mas obviamente os espíritas ou outros cristãos não católicos não lhes devem acatamento. A propósito de fórmulas, conviria frisar de novo que o divino Amigo valorizou o culto espiritual, o culto em espírito e verdade, devido ao Pai (por ex.

João 4: 23, 24), em detrimento do culto externo ou ritual. O texto lapidar da prece dominical reflete isso mesmo, e nunca a hipotética prescrição duma fórmula ritual a observar pelos crentes. Não parece pois muito próprio o uso bem-intencionado mas ritual, em um ou outro grupo espírita, de recitar em coro a sublime prece de Jesus (ou qualquer outra). Não que, em si, as práticas rituais constituam um mal. Consideremos no entanto o conceito de oração em “O Evangelho Segundo o Espiritismo” (capítulo 27): uma emissão de energia mental que modula o fluido universal, como o som modula a atmosfera.

Ora, a atenção posta na prática ritual subtrai forçosamente ao menos alguma dessa energia e prejudica o potencial da prece. Tema desta quinta proposição, ou petição, é o perdão – algo fundamental na vivência cristã e, diria mesmo, crucial para a vida em sociedade. Afirma-se que Deus não perdoa nem castiga, que nada nem ninguém poderia ofendê-Lo, que a medida do “pecado” mais monstruoso que se possa imaginar ficaria sempre aquém da misericórdia infinita do Pai.

E salta aos olhos a lógica perfeita dessas ideias. Então, como se entende pedirmos o perdão das dívidas, sugerido por ninguém menos do que o pedagogo dos pedagogos, no seu tempo? Helen Schucman e William Thetford, professores de psicologia médica da Universidade de Columbia (New York), publicaram em 1975 “Um Curso em Milagres”, volumoso manual de renovação pessoal e autoterapia, interessantíssimo, muito citado por outros autores; a eleger-se nele uma palavra-chave, essa palavra seria o PERDÃO, uma necessidade imperiosa.

Os autores sustentam desenvolvidamente que a Deus não compete perdoar e não perdoa, porque nunca condenou; nem jamais poderia ser ou sentir-se ofendido. Também sustentam que Deus não vê ninguém culpado, pecador, mas sim responsável por reparar erros cometidos ao longo do aprendizado evolutivo. Os textos da doutrina espírita, como o próprio Evangelho, ilustram o princípio de que os nossos erros se resgatam inexoravelmente (pela dor ou pelo amor); e que o Pai Criador, perfeitamente cônscio do que fazia, nos criou “simples e ignorantes”, com o germe divino da perfetibilidade para desenvolvermos em aprendizado e evolução; sempre, assistidos e sustentados por Ele, mas por natureza (logo sem nenhuma surpresa para Deus) propensos a erros e acertos durante o processo.

Perdoar as nossas dívidas (erros), neutralizá-las, esvair-lhes a energia tóxica, sublimá - -las em nobres sentimentos fraternos (… nada se perde, tudo se transforma), compete a nós mesmos, devedores. Passa logicamente por reconhecermo-las com lealdade, sopesar o seu teor erróneo e danoso, acalentar propósitos de emenda e reparação. Tal como as partículas fétidas e insalubres dum paul, ao transitarem por singelo caule vegetal, são reestruturadas em novas combinações moleculares e produzem a formosura e encanto de flores perfumosas, ricas em elementos nutrientes e terapêuticos.

Que nada é estático, parado, definitivo, e tudo é dinâmico, transmutável – entendemos melhor com Hernâni Guimarães Andrade e Fritjof Capra, respetivamente autores de “A Teoria Corpuscular do Espírito” e “O Tao da Física”. Hoje há no País e no Mundo livros, cursos, seminários, conferências, que divulgam o conhecimento e aplicação prática, à saúde orgânica e emocional, do imenso avanço científico da Humanidade, confirmando a profundeza e validade dos postulados evangélicos e equivalentes, de antigas religiões orientais.

Refiro apenas o clássico “Cura Quântica”, do endocrinologista indiano Depak Chopra, e retomemos o perdão. Pedir perdão ao Pai (a Quem não compete perdoar) é pedir-Lhe inspiração e lucidez para, na Sua presença, examinarmos honestamente a consciência em busca do “pecado”, erros com que tenhamos traumatizado a paz, bem-estar, direitos de alguém; é, à Sua presença em nós, confessarmos e reconhecermos lealmente as faltas, fazermos por exaurir do íntimo o rancor e outros sentimentos malsãos em que nos comprazíamos e deixámos impelir-nos à atitude má.

Perdoar o nosso devedor (e quase todos que convivemos, somos devedores recíprocos dum pretérito esquecido) é procurar vê-lo como Deus o vê, sujeito como nós a deslizes e maus momentos, mas destinado às glórias e beleza do Bem. Difícil? Calma, busquemos a experiência e saber dos bons terapeutas; eles ensinam e demonstram com simplicidade a eficácia dos dinamismos da mente, preciosa ferramenta de que todos dispomos. Mas antes, pensemos no terrível desgaste e intoxicação que o não perdão inflige à Humanidade psíquica e somaticamente, individual e socialmente.

Por João Xavier de Almeida foto loucomotiv Os textos da doutrina espírita, como o próprio Evangelho, ilustram o princípio de que os nossos erros se resgatam inexoravelmente Novas de Alegria 11 JANEIRO.FEVEREIRO.2017 Este livro do professor José Herculano Pires (1914-1979) ─ «O metro que melhor mediu Kardec», nas palavras de Francisco Cândido Xavier ─ tem como subtítulo, «Introdução antropológica ao Espiritismo», foi considerado um dos dez livros espíritas mais importantes do século XX.

É uma verdadeira pérola da cultura espírita. Teve a sua 1.ª edição em 1964, pela Editora Pensamento, de São Paulo – Brasil e a 2.ª edição, a definitiva, aumentada e revista, em 1977, pela EDICEL – Editora Cultural Espírita Ltda, também de São Paulo. Nesta obra Herculano Pires afirma que o Espiritismo é ainda «O grande desconhecido», não só dos não-espíritas, mas dos próprios espíritas, pois não o compreendemos, desconhecemos qual a sua natureza, qual a sua finalidade e, muitas vezes confundimo-lo com a mediunidade e, também, como mais uma religião que surge a procurar o seu espaço junto da sociedade humana para angariar prosélitos, como o fazem as religiões.