Entrevista
Jornal de Espiritismo nº 82 · Maio 2017Página 166 min
Segundo a Associação Mundial de Psiquiatria, uma relação equilibrada entre um indivíduo e uma conduta espiritualizada tem implicações na prevalência, diagnóstico, tratamento e até na prevenção de doenças mentais. Tem impacto na qualidade de vida e ajuda no combate ao stress causado pelo luto, pela depressão, auxiliando igualmente na prevenção do suicídio. Wander Lemos é psiquiatra e trabalha no Hospital André Luiz, em Belo Horizonte, no Brasil.
Para além da sua atividade profissional, é um estudioso da doutrina espírita e, muito em particular, dos escritos bíblicos. Era para estar no V Seminário de Medicina e Espiritualidade subordinado ao tema “As doenças físicas e psicológicas como reflexo dos desajustes da alma”, em Vale de Cambra, em 28 de maio. Na tarde do dia 5 de maio do ano passado antecipou-se esta entrevista. Escolheu psiquiatria porquê? Wander Lemos – É uma boa pergunta.
Quando comecei o curso sempre imaginei que fosse fazer qualquer área dentro da medicina menos psiquiatria, e com o decorrer do curso acabei por ir precisamente para esse lado. Fiz alguns estudos mais profundos em outras áreas – na neurologia, na pediatria, na oftalmologia, mas a psiquiatria chamou-me muito mais a atenção por causa do sofrimento humano. Acredito que o sofrimento, no aspeto mental, apelava muito à minha atenção.
Nem sempre vários pacientes que examinávamos, com quadros clínicos, orgânicos, bastante parecidos, tinham evoluções idênticas. Alguns evoluíam muito bem, outros evoluíam muito mal. E, tecnicamente, era de esperar que eles evoluíssem de forma igual, já que os quadros clínicos eram muito semelhantes. Então, na verdade, comecei a perceber que o lado espiritual tinha um peso muito grande. Eu já era espirita. As pessoas por vezes perguntam-me: É um médico espírita ou um espírita médico?
Costumo dizer: Não, eu sou um espírita médico. O peso da questão espiritual para mim sempre foi muito importante. Desde pequeno sempre me interessei pelas questões espirituais, pelo sofrimento humano, pela dor humana nessa vertente psíquica. A psiquiatria acabou por me puxar de uma maneira muito mais eficaz do que as outras especialidades médicas. O que é o Hospital André Luiz, em Belo Horizonte? Wander Lemos – O Hospital André Luiz, no estado de Minas Gerais, no Brasil, é uma instituição filantrópica que atende pacientes portadores de transtornos mentais há já quase 50 anos.
É um hospital grande dentro da cidade e faz um trabalho paralelo: além do trabalho médico psiquiátrico específico, dispõe de um atendimento espiritual, que é feito com base na doutrina espírita. A falta de esperança leva ao suicídio? Wander Lemos – O suicídio é um dos dramas da humanidade. Para nós, espíritas, mais ainda, porque quando o ser perde toda a esperança, acha que não tem saída, pensa que não há solução para os seus problemas, que são muito variáveis.
As pessoas matam-se por questões muito complexas, mas às vezes matam-se por questões banais. O que move esse comportamento geralmente é essa perda de esperança. Perda de esperança na continuidade da vida, na continuidade dos seus desejos de progresso. Quando as pessoas me procuram costumo dizer que, na verdade, o grande engano em que as pessoas se metem, quando pensam nisso, é que, quando chegam do outro lado da vida, a primeira coisa que descobrem é que não morreram, apenas saíram do corpo.
É um grande engano que só agrava o problema, aumenta o sofrimento do outro lado, que tem consequências específicas dependendo de circunstâncias diversas cada tipo de suicídio que for cometido. Pode ter ou não atenuantes, se a pessoa vivia um quadro de loucura aguda ou não; quanto mais pensado, planeado, raciocinado, maiores as consequências porque a pessoa estava realmente em condições de decidir, de resolver o que faria ou não.
É um grande drama da humanidade em todos os países, mas em alguns deles muito frequentes – no Norte da Europa, por exemplo, no Japão... Mas é com certeza um engano. A pessoa não vai estar a resolver o seu problema – vai agravar o seu problema em termos espirituais. O suicídio caracteriza basicamente uma revolta contra Deus, contra a vida que Deus nos deu. A proposta de Deus é a de que encontremos soluções através da calma, da paciência, da resignação, em que aos poucos vamos encontrando saídas, como toda a gente encontra.
Em momentos de desespero a pessoa não acha saída, mas se se acalmar, se serenar, se fizer uma prece, buscar ajuda, conversar com alguém, vai aliviar o seu problema e vai ver que há solução. A sociedade em que vivemos exibe fortes condicionantes materialistas. Como pode um cidadão resistir a essa dominância? Wander Lemos – É uma questão de valores. A espiritualização implica em mudança de valores, em mudança de comportamento ético - -moral.
Se a pessoa realmente responder a esses apelos exagerados da sociedade em si, seja no campo da publicidade, da sexualidade, no campo da beleza, de posses, de poder, da política, ela realmente cada vez mais se afasta da sua espiritualização. Para cada um se poder espiritualizar, nesse sentido não vejo outro caminho a não ser o Evangelho de Jesus. É o Evangelho que norteia o caminho real da nossa espiritualização porque ela tem padrões éticos, morais, de amor ao semelhante, de distribuição de rendimentos, de desapego das coisas que vamos deixar aqui – em Portugal talvez haja o mesmo jargão que ouvimos no Brasil: dizemos que «caixão não tem gaveta».
Não vamos levar nada disso, nem o próprio corpo físico. É claro que isso não quer dizer que não vamos cuidar do corpo, que vamos abandonar tudo, que vamos fazer tudo aquilo que está errado. Não. Vamos tentar manter-nos o mais saudáveis possível, dentro de um padrão de equilíbrio, não dentro do padrão estético que nos propõem, mas sim dentro de um padrão de saúde. E, paralelamente, em relação às posses materiais, devemos ter aquilo que for realmente necessário, não o supérfluo.
Cada vez mais queremos trocar tudo, não é? Por exemplo, o telemóvel: cada vez que sai um modelo achamos que temos de trocar amanhã ou daqui a um mês. O carro a mesma coisa, o computador e assim por diante. Na verdade, temos de perceber que precisamos de muito pouco para sermos felizes. A grande maioria das coisas é supérflua. Não precisamos de ter um monte de objetos em quantidade, mas menos coisas em qualidade. Um exemplo claro, para mim disso, são hoje as redes sociais.
As pessoas dizem – tenho 10 mil amigos na rede, mas não verdade não têm. Porque são falsos amigos. Então, é melhor ter qualidade do que quantidade, é melhor ter poucos amigos mas que sejam seus amigos de verdade, com os quais possa manter troca afetiva de companheirismo, de amizade, de ajuda, de amparo nos momentos difíceis. É muito mais gratificante para o ser do que ficar juntando um monte de coisas. Então é esse aspeto de viver com o mínimo necessário – Jesus não tinha nada, nem uma pedra onde pousar a cabeça.
Grandes espíritos passaram pela Terra sem nenhum apego material. É uma necessidade moderna para aqueles que querem viver em paz, que querem viver bem. Nota – Pode assistir a esta entrevista em vídeo no canal do Youtube da AME Norte – https://youtu.be/v6AM7XzGvbI foto arquivo Psiquiatra, Wander Lemos passou na cidade do Porto na primavera de 2016. Numa breve conversa, este médico responde a algumas das perguntas que lhe colocámos.
Vai ver que há solução MAIO.JUNHO.
