Crónica
Jornal de Espiritismo nº 83 · Julho 2017Página 153 min
Na sociedade em que vivemos são vários os obstáculos que se colocam entre nóseo nosso chamado sexto sentido: a correria do dia-a-dia, os estímulos ininterruptos e a troca constante de informação são muitas vezes um verdadeiro muro de Berlim que nos impede de o utilizar. E mesmo que cheguemos até ele, outra dúvida nos assombra: numa civilização que tende a dar primazia ao pensamento racional e lógico, como lidar com “os palpites” que nos chegam e que muitas vezes não sabemos explicar?
O que é a intuição? Será que devíamos confiar nela? Como a utilizar da melhor forma? Foram estas as perguntas que me assaltaram o pensamento às quais procurei responder. Segundo o Dicionário da Língua Portuguesa, intuição é: “Perceção instintiva. Conhecimento imediato. Pressentimento da verdade.” Num livro publicado em 2014, Arianna Huffington, escritora e empresária de sucesso, refere a importância que a intuição tem na sua vida e explica que vê a intuição como uma ferramenta que nos liga a nós próprios e a “ algo maior do que nós e do que as nossas vidas”.
Mas o que nos diz o espiritismo sobre o assunto? Em “O Livro dos Espíritos”, pergunta 522, podemos tentar perceber o que é esse “algo maior” referido anteriormente: “O pressentimento é o conselho íntimo e oculto de um Espírito que vos quer bem. Ele também está na intuição da escolha que se fez; é a voz do instinto.” Da mesma forma, Léon Denis explica que “Do mesmo modo que, girando no espaço, cada mundo se comunica, através da noite, com a grande família dos astros pelas leis do magnetismo universal, assim também a alma humana, centelha emanada do Divino Foco, se pode comunicar com a grande Alma eterna e dela receber instruções, inspirações, lampejos instantâneos.
” No fundo, a intuição é um instinto, uma forma de conhecimento que chega até nós para nos aconselhar. Até a comunidade científica reconhece o seu valor, mas há quem defenda que se trata apenas de uma combinação das nossas memórias e da nossa perceção emocional e não de uma forma válida de tomar decisões. No entanto, também em “O Livro dos Espíritos”, Allan Kardec completa dizendo que “…os Espíritos protetores ajudam-nos com os seus conselhos, através da voz da consciência que fazem soar em nós” e recomenda “que cada um examine as diversas circunstâncias felizes ou infelizes de sua vida e verá que, em várias ocasiões, recebeu conselhos que nem sempre aproveitou e que o teriam poupado de muitos desgostos, se os tivesse escutado.
” De facto, nem sempre é fácil ouvirmos a nossa intuição, mas existem várias estratégias que podemos utilizar para o efeito. Em “O Livro dos Espíritos” encontramos a principal, na questão 523: “Quando estiveres na dúvida, invoca o teu bom Espírito, ou ora a Deus…”. É também importante afastarmo-nos da azáfama das nossas vidas, desligarmo-nos de toda a tecnologia que nos persegue e procurar o silêncio, seja no sossego do nosso quarto, no carro, no local de trabalho ou até na casa-de-banho.
Atividades rítmicas e repetitivas, como correr, fazer um puzzle ou pintar são também momentos em que relaxamos naturalmente e ficamos mais recetivos a dar ouvidos ao nosso sexto sentido. A intuição é passível de ser treinada, e devemos fazê-lo antes de momentos decisivos para estarmos aptos a tirar dela o maior proveito. Como disse uma vez Albert Einstein, “a intuição, e não o intelecto, é o “abre-te sésamo” de nós próprios ”pelo que devemos estar atentos ao que ela nos sugere”.
Por Joana Santos Referências: Richards, K. (2015). Intuition: A Powerful Self-care Tool for a Life that Thrives. Nurs Econ. 2015;33(5):285-287. Huffington, A. (2014). Thrive: The third metric to redefining success and creating a life of well-being, wisdom, and wonder. New York, NY: Harmony. Kardec, A. (1857) O Livro dos Espíritos. Tradução do original francês por Maria Lúcia Alcântara de Carvalho. 2008. Verdade e Luz Editora e Distribuidora Espírita.
Denis, L. (1911) No Invisível. Tradução pela Federação Espírita Brasileira. 2008. Intuição foto ulisses.com.pt “Usa a tua intuição”. Este foi o conselho recebido, quando desabafava, recentemente, sobre a dificuldade em tomar uma decisão em particular. Pareceu-me um bom conselho, mas não me pareceu ser fácil segui-lo. No fundo, a intuição é um instinto, uma forma de conhecimento que chega até nós para nos aconselhar. JULHO.
