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Opinião

Jornal de Espiritismo nº 84 · Setembro 2017Página 124 min

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Assim como o feijoeiro foto arquivo O cenário impressionista está em segundo plano quando a conversa vai no pico da onda, qual antena à procura das melhores palavras. A palestra corridinha tinha sido uma hora antes sobre reuniões mediúnicas vistas numa dimensão multifacetada. A imorta- lidade do ser humano que larga o corpo material decorre, quantas vezes ao jeito de alguém que tem uma tontura, quando uma soneca súbita sobrevém, e passam por ve- zes anos.

Surge o despertar e a ilusão do corpo espiritual que parece o antigo, mais denso, a fazer demorar a percepção de que a vida continua na dimensão espiritual, à maneira dos mundos paralelos do cinema com argumento inspirado na física quânti- ca. Afinal tudo é função das reações do dia- -a-dia, pela média de pensamentos que mantemos. Pesados, limitam a vista e os ouvidos na vida além da matéria densa. Curioso – Jesus de Nazaré dizia: se têm ouvidos de ouvir ouçam.

Se os pensamen- tos e os sentimentos são leves, em pauta parecida com o que o mestre dos mestres ensina nas suas mais intemporais lições, as percepções abrem-se e é fácil ver quem vem dar as boas-vindas à vida espiritual, com um horizonte de paz e alegria difícil de desenhar. Mais tarde, quando conveniente e possível, em jeito de bolsa de estudo concedida, vem a passagem terrena, invariavelmente com direito a um anjo na Terra com formato de mãe, num percurso bem mais breve do que imaginamos.

Vantagens? Uma das mais significativas é o esqueci- mento relativo do passado. É mesmo im- portante. Elimina ruído, ajuda a focar os objetivos de aprendizagem específica a alcançar, põe o passado em arquivo recu- perável mais adiante para não distrair no presente. Conversa solta, pensamento livre, partilho uma hipótese elegida como preferível face ao que se observa com centro de gravida- de fixado na molécula da hereditariedade, o ADN.

O feijoeiro do horticultor ilustra. O trabalha- dor da horta planta feijãoepõe estaca verti- cal. Também pode preterir isso e esticar fios horizontais, retos ou curvos, por saber que a leguminosa de crescimento rápido vai ex- pandir-se pela diretiva que ele lhe instalar. O ADN numa óptica de espiritualidade será molécula mais ou menos passiva mediante as instruções inconscientes do Espírito reencarnante ou será, ao contrário, a maestra selecionada para o programa iniciado?

Poderá ainda ser um meio termo? O ADN numa óptica de espiritualidade será molécula mais ou menos passiva mediante as instruções inconscientes do Espírito re- encarnante ou será, ao contrário, a maestra selecionada para o programa iniciado? Po- derá ainda ser um meio termo? Um facto: na savana africana o tecelão ma- cho ostenta a pulsão de fazer um ninho de alguma complexidade para atrair uma fê- mea e nidificar. Tem treino em juvenil, sim, e aperfeiçoa, mas a ideia está lá, irresistí- vel.

Mutável e elaborada desde ninhos de há milhões de anos de algumas espécies de dinossauros carnívoros, numa ótica me- ramente materialista a instrução é genéti- ca. Em contraponto, num ponto de vista espi- ritualista absoluto, que não consigo subs- crever sem testar, seriam instruções do corpo espiritual do animal a gerar a pulsão através de diretiva mental inconsciente do princípio inteligente. Revendo a ave amarela, o tecelão, a hipó- tese de momento verosímil parece ser algo semelhante a uma partilha de influência entre o princípio inteligente do pequeno animal alado a exprimir-se no seu corpo es- piritual mas a expandir-se também segun- do as linhas de força ditadas pelo ADN da espécie, a exemplo da estaca do horticultor que planeia previamente guiar o caule do feijoeiro por onde lhe convém.

Na espécie Homo sapiens lembramos o amor de mãe. Observamo-lo a vencer quan- tas vezes as barreiras da morte corporal para aparecer no período de pós-vida ma- terial a filhos que voltam uma página de perturbação criada por si próprios na vida espiritual no preâmbulo de um porvir mais feliz. Esse amor maternal, revisto em deno- minador comum em tantas outras espécies da mesma classe e de outras tantas, pare- ce radicar num instinto guiado ou inspira- do pelo ADN.

A ação do ser espiritual que antecede a formação do corpo físico tem de se exprimir por natureza, é impossível contê-la, mas, à maneira do horticultor, a vida parece ter-se estruturado de modo a catalisar o processo evolutivo, guiando as linhas de conduta do ser com interatividade abundante, bidirecional, entre a vontade do ser e a orientação da dita molécula. Também por isso a vida material é tão im- portante na evolução espiritual que a an- tecede e se prolonga depois dela.

Catalisa o processo evolutivo com um pé na dimen- são mais material, ouço por uma voz amiga uma conclusão já definida. À medida que o ser espiritual ao longo de muitos milénios se vai emancipando da in- fluência da matéria o ADN, que é maestro nas fases primárias, vai recebendo o papel de subalternidade face ao primado do Espí- rito. No fundo é o instinto que cede lugar à inteligência e à consciência de si. A estrada bordada de breu na noite estival retoma a atenção.

Para não seguir adiante rumo a terra de meu pai, já na Espiritualida- de há mais de uma dúzia de anos, à direita vem a A1. Não há que enganar. «Tens de escrever isso», ouço, cético. Quem o diz podia ser minha filha, mas o ser espiri- tual em causa tem uma luz própria à qual é espontâneo aquiescer. Passa-se o rio Douro. Viagem rápida! Texto: J. Gomes Noite fechada na auto-estrada, os faróis dos carros são um vaivém. Impessoais, sobre o piso escondido debaixo da luz que toda a matéria por mais escura tem, aleatórios, desenham traços no breu.