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Opinião (pág. 13)

Jornal de Espiritismo nº 84 · Setembro 2017Página 135 min

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Mas, ao contrário do que se pensa, é mui- to comum que pessoas em estados termi- nais relatem esse tipo de visões lúcidas com familiares e amigos já falecidos, com outras pessoas que nem conhecem e até figuras religiosas. Ao longo dos anos, es- tas experiências têm sido constatadas por médicos, enfermeiros e assistentes hospitalares e, apesar de ainda existir algum receio de exposição dos casos, estima-se que entre 50-60% dos doentes conscientes que estão perto da morte te- nham este tipo de experiências (Mazzari- no-Willett, 2010).

No estudo mais exaus- tivo realizado até hoje nesta área, Karlis Osis e Erlendur Haraldsson entrevistaram milhares de pessoas entre 1959 e 1973, concluindo que cerca de 50% dessas pes- soas tiveram sonhos ou visões que se en- caixavam nestas características. Da perspectiva espírita, as visões no leito da morte explicam-se através de um pro- gressivo enfraquecimento dos laços que ligam o Espírito ao corpo em pessoas que se aproximam da morte física, tornando- -as mais sensíveis a uma outra dimensão da vida e conseguindo ter uma maior per- cepção do plano espiritual.

Em muitas si- tuações, essas visões e sonhos são lam- pejos de uma realidade que transcende o mundo físico. Ao longo dos últimos anos vários estudos têm evidenciado efeitos reconfortantes Visões no leito da morte destas visões, contribuindo para diminuir o receio da morte e facilitando a aceita- ção de uma situação tão delicada, quer para o paciente como para a família mais próxima (Lawrence and Repede, 2012; Wills-Brandon, 2000).

Existe um crescen- te corpo de conhecimento acumulado so- bre a importância psicológica e existen- cial que estas experiências têm para os doentes e suas famílias e até o seu valor terapêutico, no entanto, elas são muitas vezes desvalorizadas pela comunidade médica que as explicam como efeito de alucinações induzidas pelos medicamen- tos, demência ou mero delírio. É uma explicação curta já que, nos casos de delírios ou alucinações, as visões são pre- dominantemente confusas, sem sentido, geradoras de ansiedade, revelando uma gritante incapacidade para estabelecer ligações a outras pessoas ou apresentar uma narrativa coerente e organizada.

Isto não acontece nas visões no leito da mor- te. À medida que ficam mais debilitados os doentes têm sonhos e visões que po- dem ser considerados realistas e memo- ráveis. “End-of-life dreams and visions: a longitu- dinal study of hospice patients experien- ces” é uma das pesquisas mais recentes (2014) nesta área e foi dirigida pelo Dr. Christopher Kerr, um médico de cuidados paliativos de um centro de acolhimento de Buffalo, no estado de Nova Iorque, bem perto da fronteira com o Canadá.

O Dr. Kerr, doutorado em neurobiologia, dedica-se à investigação do valor tera- pêutico para os seus doentes dos sonhos e visões no leito da morte, procurando desmistificar estas experiências dentro da comunidade médica ao mesmo tempo que tenta compreender a sua importân- cia para suportar uma “boa morte” da perspectiva do doente e dos seus familia- res. No estudo citado, os investigadores conduziram múltiplas entrevistas a 59 doentes terminais admitidos durante um ano e meio no centro de acolhimento de Buffalo.

Quase todos eles confirmaram terem sonhos ou visões e, na sua grande maioria, descreveram-nas como consola- doras. Apenas 20% associou essa expe- riência com algum foco de perturbação. Organizadas em categorias, essas visões de leito da morte revelaram-se através de: visões de entes-queridos, a maior parte das vezes já falecidos, que oferece- ram uma sensação de conforto; presença de amigos ou familiares já falecidos que aguardam por eles ou que os convidam a segui-los; Mensagens de confirmação so- bre as acções desempenhadas em vida, normalmente através da visão de um fa- miliar que lhes garante que foram bons pais, filhos ou cidadãos; Preparativos de viagens, muitas vezes com amigos e fa- miliares como guias e instrutores; Recor- dação de situações traumáticasguerras, abusos ou conflitos afectivos ou emocio- nais ainda não debelados; sonhos per- turbadores sobre tarefas que deixaram pendentes.

Muitos pacientes referiram que raramen- te se recordam dos seus sonhos mas destes não se conseguem esquecer. O estudo concluiu ainda que à medida que os participantes se aproximam da mor- te, as visões e os sonhos consoladores tornam-se predominantes, confirmando a relevância dessas experiências para uma maior sensação de paz, segurança, senti- do e aceitação da morte. Estes dados deveriam levar os profissio- nais de saúde a reflectirem sobre a im- portância destas experiências para uma “boa morte”, procurando encontrar me- canismos que auxiliem os pacientes e familiares a interpretá-las de uma forma positiva e enriquecedora para o processo que estão na iminência de iniciar.

Texto: Carlos Miguel foto ulisses.com.pt Desde os tempos mais remotos, os sonhos e as visões daqueles que estão perto da morte têm sido encarados com estupefacção. Michelle de Seattle: Uma noite, du- rante o meu turno de assistência es- piritual no centro para doentes ter- minais onde presto serviço, respondi a uma chamada de uma mulher de cerca de 70 anos que tinha cancro em estado avançado. Ela encontra- va-se um pouco inquieta sobre um sonho persistente em que algumas pessoas muito amáveis a visitavam.

A senhora sentia-se muito ser- ena na presença dessas pessoas mas, após passarem algum tempo com ela, afastavam-se convidando- a segui-los. Nos últimos tempos o sonho era muito recorrente e o problema surgia porque apesar de ela querer muito ir com eles, havia uma barreira, como se fosse um muro intransponível, que a impedia de concretizar o que desejava. Ela não entendia a razão da existência dessa barreira e isso inquietava-a de alguma forma.

Aparte o sonho, revelava uma grande preocupação sobre a limpeza da sua casa, já que não queria que as suas filhas tives- sem trabalho ou que a substituís- sem nas obrigações que julgava suas. Como alguém que tem alguma experiência em oferecer aconselha- mento a pessoas durante os seus momentos mais vulneráveis, sugeri: “E se imaginasse que as suas filhas estão a caminhar ao seu lado em vez de pensar que vão substituí-la?

” Ela replicou surpreendida: “Poderia dizer isso outra vez? Caminhando ao meu lado, eu gosto dessa ima- gem.” E ficou pensativa e silenciosa durante algum tempo. Continuamos a conversar sobre outros assuntos e pouco tempo depois ela agradeceu- me por ter estado com ela e deixei- a descansar. Ao início da manhã fui surpreendida com a notícia de que a senhora tinha falecido. Aquela bar- reira invisível finalmente tinha sido quebrada.