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Literatura / Vídeo

Jornal de Espiritismo nº 85 · Novembro 2017Página 177 min

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LITERATURA / VÍDEO No limiar do mistério A rainha de Katwe Pequeno romance de Charles Richet (1850- 1935), emérito professor da Faculdade de Medicina de Paris (Sorbonne), Prémio Nobel de Medicina de 1913. O professor Richet iniciou a sua carreira médica como estagiário no Hospital Salpêtrière, Paris, observando o trabalho de Charcot (1825-1893). Em 1898, tornou-se membro da Academia de Medicina e em 1914, membro da Academia de Ciências.

Criou o termo Metapsíquica em 1905, para designar o estudo dos fenómenos inabituais que sempre o interessaram e que o Espiritismo designa de espíritas (causados por desencarnados) e anímicos (causados por encarnados). Em 1912, publica o «Tratado de Metapsíquica». Teve a oportunidade de observar e estudar grandes médiuns de efeitos físicos como a napolitana Eusápia Palladino (1854-1918), talvez a mais impressionante de sempre; a também italiana, Linda Gazzera (1890-1932); a francesa Eva Carrière (1886-1943); a americana Leonora Piper (1857-1950); entre muitos outros.

Mas nunca teve a coragem de assumir a verdade que o Espiritismo divulgava há longas décadas. Foi o precursor da Parapsicologia, disciplina fundada na década de 1930 pelo professor americano Joseph Banks Rhine (1895-1980), que também estuda a mesma fenomenologia. A diferença entre elas ─ a Metapsíquica e a Parapsicologia ─ está no método do estudo: enquanto a Metapsíquica se foca nos fenómenos ostensivos, nos grandes médiuns, ou seja, no carácter qualitativo, a Parapsicologia foca-se no carácter quantitativo, observando grande quanA história de Phiona começa a ser contada em 2007 quando ela tinha 10 anos e vivia com a mãe e os irmãos num barraco na favela de Katwe, situada nos arredores de Kampala, a capital do Uganda.

Katwe é um dos lugares mais miseráveis do mundo, um antro de pobreza sem saneamento nem água potável, onde os insectos pousam em todos os lados, sendo a escola um luxo que a esmagadora maioria das crianças não pode usufruir. Rodeados por tanta pobreza, com dificuldades até para pagarem o sítio indigente onde dormiam, aquela família sobrevivia através da venda milho cozido no mercado local. Phiona levantava-se todos os dias ainda de madrugada e andava duas horas a pé para ir encher um recipiente com água potável para depois poder ajudar a mãe no mercado.

Certo dia, seduzida por umas papas de aveia gratuitas que eram servidas num local cheio de crianças, Phiona começa a frequentar um clube de xadrez orientado por um professor desempregado que procurava oferecer novas perspectivas às crianças de Katwe. Ao aprender as suas regras, mesmo não sabendo ler, Phiona começou a revelar uma inteligência prodigiosa e uma habilidade fora do comum para o xadrez. Com o empenho do professor, ela vai iniciar um percurso de aprendizagem que a levará em poucos anos a tornar-se uma campeã e jogadora de nível mundial.

A Rainha de Katwe é um filme da Disney de tidade de indivíduos, estabelecendo tabelas e gráficos. O professor Richet teve relações científicas com todos os grandes sábios espíritas da época, como: Alexandre Aksakof (1832-1903), Camille Flammarion (1842- 1925), Gabriel Delanne (1857-1926), Schrenck-Notzing (1862-1929), Gustave Geley (1865- 1924). Sempre muito ouvido e respeitado, nunca assumiu publicamente que a convincente maioria dos fenómenos inusitados tinham origem nos Espíritos, os habitantes do Mundo invisível ao olhar humano, como o fez o seu corajoso e inolvidável amigo Ernesto Bozzano (1862-1943), que perante a evidência da verdade jamais temeu o «escárnio dos seus colegas materialistas» e não só.

Depois deste pequeno enquadramento histórico estamos aptos a compreender a grande importância deste romance do grande académico e cientista, na história do Espiritismo. Este romance seria publicado pela primeira vez, não em França, mas em Portugal e em 2016, dirigido pela realizadora Indiana Mira Nair, e que narra a história real de Phiona Mutesi, uma jovem Ugandesa que se tornou um prodígio no xadrez apesar de ter tudo contra ela.

Tim Crothers, jornalista norte-americano que escreveu o livro “Queen of Katwe” em que o filme se baseia, descreveu-a assim: “Phiona Mutesi é o expoente dos que nunca são favoritos. Ser-se africano é estar em desvantagem no mundo. Ser - -se do Uganda é estar em desvantagem em África. Ser-se de Katwe é estar em desvantagem no Uganda. E ser-se mulher é estar em desvantagem em Katwe.” Mas este não é apenas um daqueles filmes em que o protagonista supera difíceis obstáculos e transforma o seu destino, é muito mais do que isso.

Começa por ser um retrato sem maquiagem da vida numa favela da capital de um dos países mais pobres do mundo. Não pretende ser um retrato melanportuguês, no ano de 1927, graças à grande amizade de Richet com a escritora e tradutora Virgínia de Castro e Almeida (1874-1945), que residia na altura em Paris. Esta obra com o título «À Porta do Mistério» teve uma pequena tiragem em Portugal. Mais tarde, a mesma tradução surge no Brasil com o título «No Limiar do Mistério».

A edição em pauta é da LAKE – Livraria Allan Kardec Editora, que não está datada, mas pensamos ser da década de 1950 ou 1960. A presente edição é introduzida por um estudo do Dr. Elzio Ferreira de Souza (1926-2006) intitulado, «Charles Richet e o Espiritismo», da qual extraímos: «Mais tarde é ao grande amigo Bozzano que vai fazer a sua confissão em carta à qual no alto colocou ─ CONFIDENCIAL. Oferecendo o seu livro “Au Secours”, o prof.

Richet colocou a seguinte dedicatória – “A meu sábio e valente amigo E. Bozzano, com toda crescente simpatia”. A palavra crescente viera grifada e por isto Bozzano escreveu ao amigo sobre o assunto, pois achava que havia mais importância teórica do cólico nem estimular à piedade fácil do espectador sobre o dramático problema da miséria nos bairros das periferias africanas, procura antes mostrar a normalidade da vida das pessoas no meio dessas condições.

Enquanto caminha para o mercado com o saco cheio de milho cozido nos braços, uma vizinha cumprimenta Phiona e pergunta-lhe: “Como é a tua vida, Phiona?” E ela responde-lhe de forma ingénua: “É boa!” Não conhecendo outras formas de viver, Phiona encontra no optimismo a arma que conhece para enfrentar as duras dificuldades. No entanto, à medida que ela vai reconhecendo as suas capacidades e os talentos inatos que possui no xadrez, ela descobre também um mundo que não sabia que existia, um mundo cheio de contrastes e injustiças.

Para poder construir uma escapatória da miséria em que vive, ela precisa arriscar-se num plano de eduque apreciação pessoal, expressando-lhe “com certa timidez”, a esperança que tal palavra despertara em seu coração. Em resposta recebeu a carta de Richet com o CONFIDENCIAL: «Meu caro e eminente colega e amigo: Sou inteiramente do seu parecer: não creio, com efeito, na explicação simplista segundo a qual os acontecimentos da nossa existência e a direcção da nossa vida são provocados exclusivamente pelo acaso, embora não seja possível apresentar prova nesse sentido.

(…) E, agora, abro-me a você de modo absolutamente confidencial. O que você supunha é verdade. Aquilo que não alcançaram Myers, Hodgson, Hyslop e Sir Oliver Lodge, obteve-o você por meio de suas magistrais monografias, que sempre li com religiosa atenção. Elas contrastam, estranhamente, com as teorias obscuras que atravancam a nossa ciência. Creia, peço-lhe, nos meus integrais sentimentos de simpatia e gratidão.» (Jornal londrino, “Psychic News” de 30 de Maio de 1936) Somente em 1934, um ano antes da sua morte, é que sai à luz a edição francesa intitulada «Au Seuil du Mystère», assinada com o pseudónimo Charles Epheyre, tendo sido logo muito considerada e elogiada pela crítica francesa, mal sonhando que se tratava do sábio Richet.

O romance ─ encantador ─ confirma à saciedade o pensamento mais íntimo de Richet, era um espírita de coração, pois a obra tem como fulcro do enredo a imortalidade da alma e a reencarnação. Por Carlos Alberto Ferreira cação e desenvolvimento exigente que ela não sabe se terá sucesso. O filme é muito feliz na captura da ambivalência emocional da protagonista, em que por vezes se sente capaz de derrotar o mundo enquanto noutras mergulha num turbilhão de dúvidas e inseguranças que quase a levam a desistir de tudo e voltar a vender milho cozido no mercado de Katwe.

Essa ambivalência é representada em duas personagens carismáticas: O professor Robert, que abdica de muitas coisas na sua vida para ensinar xadrez às crianças de Katwe e que procura motivar Phiona, fazendo-a compreender aquilo que pode alcançar pela educação e pelo investimento nos seus talentos; Eamãe, tão mal tratada pela vida, confrontada diariamente pela miséria em que tem de criar os seus filhos e que procura proteger Phiona da desilusão e frustração de não conseguir alcançar os seus sonhos.

A Rainha de Katwe é um delicioso filme de família que enriquece a todos sem excepção, mostrando-nos que por mais duras que sejam as dificuldades, a vida estimula-nos a desabrochar, colocando sempre o melhor de nós próprios em todas as situações. Título Original: “Queen of Katwe” Realizado por Mira Nair Elenco: Madina Nalwanga, David Oyelowo, Lupita Nyong’o EUA, 2016 – 124 min. Por Carlos Miguel NOVEMBRO.DEZEMBRO.2017 IMPRESSÃO DIGITAL O escritor americano John G.

Fuller publicou em 1974 a obra “Arigó: o Cirurgião da Faca Enferrujada”, dedicada às curas espirituais promovidas pelo médium brasileiro José Arigó?