Opinião (pág. 16)
Jornal de Espiritismo nº 85 · Novembro 2017Página 163 min
De aí em diante, figuras incontornáveis da cultura ocidental, como Pitágoras (séc. VI a.C.), Platão (séc. V-IV a. C.) Cícero e Virgílio (séc. I a.C.) e Fílon de Alexandria (c.20 a.C.– c.50 d.C.) escreveram e ensinaram sobre a reencarnação e, ao que tudo indica, o tema não era mera especulação de intelectuais, mas a expressão escrita de uma crença corrente. Temos de lembrar, para entendermos o desfecho de negação da reencarnação pelas igrejas cristãs, que associado àquela estava o conceito de união com Deus.
O significado deste conceito diz-nos que todos somos filhos de Deus; como tal, a salvação é um processo individual que depende do esforço próprio, sem intermediários, e que a união com Deus é possível, depois do ciclo das reencarnações. Isto leva-nos já para o Primeiro Concílio de Niceia, em 325, em que é formulado o Credo de Niceia, que afirma a divindade de Jesus como único Filho de Deus. Esta afirmação tem como consequência que sendo a humanidade uma espécie de bastardos e proscritos, não só fica impossibilitada da união com Deus, como a salvação fica dependente de intermediação, neste caso da Igreja.
Daí o «fora da Igreja não há salvação». No fundo, a estrutura àquele tempo emergente era mais de natureza política que religiosa e pretendia perpetuar um certo poder – e basta ver o papel que governantes temporais desempenharam nessa mesma estrutura. Depois de Jesus e antes do concílio atrás referido, surge o neoplatonismo, que foi uma escola greco-romana de filosofia que ensinou a reencarnaçãoea união com Deus, e surge principalmente Orígenes (c.
185-c. 254), Patriarca da Igreja, figura importante como pensador e divulgador destes conceitos, que só bem casam se um com outro. Pois bem, tendo pelo meio alguns episódios uns verdadeiros, outros talvez só anedóticos (e cuja descrição aqui não é relevante), o certo é que Justiniano I (486-565), imperador desde 527, em cerca do ano 529 reprime os hereges e os pagãos; com o édito de c. 543 condena os 10 princípios do origenismo; com a Carta de c.
551 dita os 15 anátemas contra o origenismo, e em 553 convoca o Quinto Concílio Geral da Igreja, precisamente para impor como princípio de fé os 15 anátemas, os quais foram a base para a rejeição da reencarnação. Em 553, Justiniano, convoca o Quinto Concílio Geral da Igreja, precisamente para impor como princípio de fé os 15 anátemas, os quais foram a base para a rejeição da reencarnação. Tem sido dito e aceitado que este foi o concílio em que a Igreja eliminou da sua doutrina a reencarnação (depois do Primeiro Concílio de Niceia este fim era inevitável, era apenas uma questão de tempo); porém, os anátemas contra Orígenes não aparecem nas actas do Concílio.
A própria «Enciclopédia Católica» duvida que Orígenes e o origenismo tenham sido realmente excomungados. É que essa era a vontade do imperador mas talvez não fosse a da maioria dos bispos presentes no concílio, e por isso a omissão. De qualquer modo a Igreja assimilou os anátemas e pô-los em prática. De tal sorte que quando o catarismo (c. 1150 a 1310), doutrina que ensinava a reencarnaçãoea união com Deus, se tornou uma ameaça incapaz de ser eliminada pela “persuasão” inquisitorial, uma Cruzada de 15.
000 cruzados e mercenários durante 20 anos passou a fio de espada todo o Languedoc, com a ordem, diz-se, de matar todos, que «Deus reconheceria os seus». E foi assim que, de chacina em chacina e de fogueira em fogueira (Giordano Bruno entre outros e como exemplo), a Igreja deixou de ser «luz do mundo e sal da terra». Apesar disso, continuamos com filiação divina e a reencarnar, muitos de nós provavelmente para propagar com dor a verdade que deliberadamente reprimimos.
Apesar da tola presunção, ainda não se conseguiu alterar nem deter nenhuma lei natural. Apesar da Igreja, a Boa Nova de Jesus continua perene, luminosa e libertadora. Por A. Pinho da Silva Como a reencarnação desapareceu do cristianismo A primeira referência conhecida à reencarnação remonta ao século VII a.C., com o orfismo, antiga religião de mistérios da Grécia. NOVEMBRO.DEZEMBRO.
