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Jornal de Espiritismo nº 86 · Março 2018Página 126 min
Psicofonia: ritmos-padrão do esclarecimento O assunto destas linhas liga-se às reuniões mediúnicas habituais em quase todas as associações espíritas, normalmente semanais, que duram entre uma a duas horas, e nas quais, através de médiuns psicofónicos (“incorporação”), se conversa com pessoas que viveram na Terra e que estão nessa altura já fora da dimensão de vida material, os chamados Espíritos desencarnados.
É certo que os termos aparecem em qualquer conversa no movimento espírita: doutrinador, evangelizador. Há igualmente autores de ótimos livros, mais que respeitáveis, deste e do outro plano da vida, que os utilizaram. Como estamos a utilizar a língua portuguesa é uma questão de bom senso: as palavras devem ser bem aplicadas. A tarefa de quem atende o caso que se manifesta mediunicamente é a de esclarecer. Não é útil, na verdade, emitir doutrina nem tão pouco desfiar demasiadas citações do evangelho.
Por isso, faz mais sentido em vez de evangelizadores ou doutrinadores chamar esclarecedores. Já se ouviu também a designação dialogadores, embora o diálogo não seja necessariamente iluminativo, logo, o termo é frágil. Outro ponto tem a ver com a vasta tipologia dos casos que se manifestam. Alguns Espíritos sabem que já estão na vida espiritual quando são postos – pelos amigos espirituais que superintendem a uma reunião mediúnica bem orientada – a falar pelo médium.
Mas outros não sabem e não poucas vezes custa-lhes perceber isso. É a lógica da batata: «Se estou aqui a falar, como é que posso estar morto?!». É corriqueiro. O que pensamos e sentimos em vida tem uma linha de continuidade imperturbável quando a vida espiritual nos chama. Por vezes funciona como se adormecêssemos aqui na vida densa e, passado um tempo variável, acordássemos já na vida espiritual, funeral feito e papelada arrumada há muito.
Na referida tipologia há aquele que falece no hospital e julga que pensa ainda estar por lá a aguardar tratamento, o que cai na rua com um AVC fatal, o acidentado Podemos até falar daqui para acolá, de cima para baixo, pouco ou muito, mas os degraus estão à vista. Para ajudar de forma adequada a entidade espiritual que aparece no transe mediúnico, é inevitável percorrê-los um a um: ouvir, auxiliar, melhorar sentimentos para abrir percepções e entregar a alguém competente no Plano Espiritual.
Invariavelmente passa-se como com as cerejas, estas fases vêm umas atrás das outras. nos mais diversos cenários, o invisual, o náufrago, o portador de deficiência, entre muitos outros, sem esquecer inclusive o mudo. Mais: algumas vezes até trazem os amigos espirituais casos de quem já está esclarecido, porém, debilitado, em processo terapêutico, sem conseguir reabilitar-se tão rapidamente como desejava face a bloqueios do inconsciente que interagem com a forma como o Espírito em causa está a interpretar as leis da natureza que regem a evolução espiritual – é o caso da psicofonia como técnica terapêutica em sentido estrito.
O que podemos retirar como padrão dessa casuística? Bem, em qualquer dos casos verificam-se ritmos habituais no processo de esclarecimento, que não é propriamente reversível. Quando o médium já entrou em transe, primeiro há que OUVIR. Se não escutar e começar a falar não vai saber se está realmente a comunicar em consonância com a necessidade de quem vem esclarecer - -se, mesmo sem saber, não poucas vezes, que é isso que está na pauta de serviço.
É usual dizer algo deste género: «Olá. Em que podemos ajudar?». É preferível a uma palavra que defina o género, por exemplo, «Bem-vindo. Em que podemos ajudar?». Neste caso estamos a jogar na lotaria, pois a estatística tem dito que a maior parte das vezes é masculino mas, ainda assim, também se comunicam muitos perfis femininos, e geraria ruído. A entidade espiritual começa a dar indícios claros do tipo de apoio que lhe será útil.
A dado momento começamos a perceber se lidamos com alguém identificado com o perfil masculino ou feminino independentemente do sexo do médium em causa. Avaliamos: tem sensação de DOR FÍSICA? Se sim, vamos ALIVIAR, a benefício dessa entidade espiritual, assim como do médium que sente algo afim, mais ou menos intensamente. O melhor método é convidar a uma prece sincera, num minuto, simples e afetiva. A mente do Espírito necessitado reposiciona-se de forma a poder fixar o auxílio que lhe está a ser prestado.
O alívio instala-se sem delonga. Agora tranquilo, o Espírito comunicante fica bem impressionado e está disponível para interagir com quem fala com ele. O que pensamos e sentimos em vida tem uma linha de continuidade imperturbável quando a vida espiritual nos chama. Nas palavras sucintas que utilizemos é preferível que sejam sempre pela positiva. Temos o dever de lhes pousar a mente mais vezes no que lhes traz bem-estar.
Não é altura de censurar, mas de abrir janelas de esperança dentro das possibilidades mais felizes que virão a ser erigidas pelo próprio. O passado fica para trás, abrem-se novos e melhores caminhos. Por sua vez, em muitos outros casos NÃO HÁ sensação de dor. Neste grupo, se quisermos ser práticos, de forma indireta, é de apurar fraternalmente se o Espírito comunicante sabe, ou não, que já está no Plano Espiritual. Se sabe, tudo bem.
Se NÃO SABE deve ser colocado o ónus em nós próprios, pois desmobiliza focos de tensão possíveis no interlocutor: «Sabes? Acredito que quando o meu corpo morrer vou continuar a viver, mas com um corpo espiritual tão parecido com o meu corpo material que seria tentado, se desatento, a confundi-los. Que pensas disso?». A conversa orientada, segundo a formação antes adquirida, desenrola-se, e tende a criar empatia. Ouvir, não poucas vezes, cativa mais do que falar demasiado.
No diálogo esclarecedor, sucinto, deve afastar-se a mente de quem recebe ajuda dos cenários infelizes e colocar-lha nos níveis da esperança e da fé, da escolha de uma vida melhor que vai ser construída por ele próprio com júbilo interior. Não faltará apoio nesse sentido. Criamos a nossa própria realidade. É o momento de MELHORAR SENTIMENTOS a fim de ABRIR PERCEPÇÕES, sobretudo as visuais e auditivas. Pedir que nos descreva o que vê agora: decerto não se tinha apercebido quando começámos a conversar.
Está neste momento em condições de ver o cenário espiritual imediato do ambiente, onde decorrem atividades bem mais amplas e importantes do que conseguimos visualizar na dimensão material. O Espírito comunicante pode ver alguém conhecido, ou não, que o vai convidar para uma conversa particular ali perto. Concluída a tarefa de esclarecimento que nos compete, é altura de ENTREGAR o Espírito necessitado a quem o pode ajudar, mais do que nós próprios, a partir de agora.
Uma nota: o denominador comum de todo este processo, regulado pelas leis da natureza que regem a nossa evolução espiritual, é sentir o interlocutor na condição de um afeto próximo, quer se manifeste de modo amorfo ou até agressivamente, de início. Somos capazes, assim, de concretizar o amor incondicional de que fala Jesus de Nazaré nas suas lições. O que sentirmos num padrão elevado e esclarecido desde o primeiro momento da psicofonia em curso terá eco no Espírito comunicante e não tardará a entrar no mesmo diapasão vibratório, graças aos numerosos recursos de apoio espiritual de que se dispõe numa reunião mediúnica bem orientada, proporcionados pelos mentores em pleno serviço fraterno, normalmente invisíveis para nós.
Texto: J. Gomes foto pixabay JANEIRO.FEVEREIRO.
