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Jornal de Espiritismo nº 87 · Maio 2018Página 54 min

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foto pixabay Consumo de droga – 2.ª parte «Dr.ª Gláucia, tenho 22 anos e sinto-me impelido a consumir drogas recreativas. Sou de uma família espírita e já tive uma psicose, quando tinha 20 anos. Disseram - -me no centro que poderia estar obsidiado: o que devo fazer?» Gláucia Lima: «Caro leitor, podemos comparar o estado de dependência ao estado da paixão! “Tal como a paixão interrompe o fio quotidiano e lhe confere uma nova significação e uma nova hierarquia de prioridades, também os objectos motivacionais alvo das dependências conduzem a um estilo de vida marcado pela necessidade da omnipresença desse objecto”.

Felix et al., 2014. Entende-se, assim, que o objeto de interesse central da vida da pessoa passe a ser a droga, que deixa de ser usada somente com a função de recreação, mas, como uma necessidade. Neste estado, a motivação da pessoa está perturbada, porque o objeto de prazer ganha uma centralidade vital no funcionamento pessoal, que se sobrepõe a outras necessidades até então vigentes, “resultando consequências nocivas não sóanível psicológico, mas relacional, afetivo, profissional e em muitos casos físico”.

Dessa forma, o indivíduo torna-se presa muito fácil para uma influência espiritual nociva, nomeadamente obsessiva. Entretanto, sendo essa influência uma constante nas adições, pois sabemos que os desencarnados se aproveitam dos encarnados com perturbações aditivas para manterem e alimentarem o seu vício, não podemos transferir a responsabilidade para o mundo espiritual, uma vez que a sintonia é estabelecida pelo encarnado, que tem sempre o livre-arbítrio e a possibilidade de se determinar na libertação do mesmo.

Ney Prieto Peres faz referência no seu livro “Manual Prático do Espírita”, que o indivíduo transfere de uma vida para outra, reflexos, tendências, impregnações magnéticas, imantadas no seu corpo físico, proveniente do seu perispírito, que o impulsionam para o vício: “Estas predisposições se transportam para novas experiências corpóreas, seja através da vulnerabilidade genética, seja através da convivência ambiental proporcionadora do vício”.

Entretanto, são muitos os fatores determinantes para a adição, não podendo considerar nem uma perturbação por “influência obsessiva” e nem por “perturbação reencarnatória”. A adição é uma perturbação complexa, sendo considerados fatores familiares, sociais, genéticos, de coping e espirituais de cada ser. Em família, espírita, o leitor tem a possibilidade da compreensão e aceitação do mundo espiritual, sendo essa uma mais-valia para o seu tratamento.

Neste capítulo, não podemos descuidar também a necessidade do auxílio médico. Peres adverte ainda: “Após o desencarne, os resultados do vício são desastrosos, pois provocam uma espécie de paralisia e insensibilidade aos trabalhos dos Espíritos socorristas por longo período, como se permanecesse num estado de inconsciência e incomunicabilidade, ficando o desencarnado prejudicado no recebimento do auxílio espiritual”. Logo, tendo a consciência espírita, convém aceitar a possibilidade de libertar-se do vício no presente.

Também referenciando André Luiz, “as drogas psicoativas ao adentrarem o organismo físico, atingem os neurónios e também os seus correlatos perispirituais. (…) pode - -se compreender a possibilidade de um bloqueio de energia que gera desequilíbrio espiritual, não somente físico. Assomando-se a vinculação com entidades desencarnadas em desalinho”. Ponzoni, Michelle. Hospital Espírita de Porto Alegre. “Conectando Ciência, Saúde e Espiritualidade”.

Quanto à terapêutica médica, já fiz referência em artigos anteriores, a despeito do preconceito existente relativamente a medicação psiquiátrica causar dependência e nomeadamente atrofiar as capacidades mentais das pessoas, o que é um perfeito engano! O que hoje em dia se sabe em relação ao surtos psicóticos, é que a partir do primeiro surto, se as pessoas não forem tratadas ou convenientemente tratadas, 75% vão recair Psiquiatra que nos seus tempos livres estuda desde jovem a doutrina espírita, Gláucia Lima* dá continuidade à resposta iniciada na edição anterior.

em 2 anos e 95% em 4 anos, logo, mesmo quando se trata de uma psicose centrada em droga, deve-se fazer uma terapêutica por pelo menos por 5 anos, estando a pessoa sem sintomas. A questão de tratar ou não tratar? É a de ter ou não ter recaídas. Pois, em cada novo surto psicótico, a pessoa sofrerá de perdas cognitivas que serão preditivas de demenciação precoce. Hoje em dia sabe-se que os antipsicóticos de nova geração desempenham um importante papel na neuroproteção, ou seja, na preservação neuro - -cognitiva.

Neste estado, a motivação da pessoa está perturbada, porque o objeto de prazer ganha uma centralidade vital no funcionamento pessoal, que se sobrepõe a outras necessidades até então vigentes, Em conclusão, até aos 25 anos, somos ainda muito impelidos pelos impulsos, pela imaturidade neuropsicológica, fruto ainda do neuro-desenvolvimento incompleto do córtex pré-frontal do sistema nervoso central que só se completa nesta idade, o que aumenta a vulnerabilidade do indivíduo para uma busca de satisfação imediata de mecanismos geradores de prazer e comportamentos de risco.

Logo, e parafraseando Joana de Ângelis, no livro “Conflitos Existenciais”, “A educação, sem qualquer dúvida, desde a infância, é o recurso terapêutico preventivo mais valioso, porque é mais seguro evitar a dependência do que sair-se do seu cerco escuso”. * Psiquiatra, Terapeuta com Formação em Terapia Familiar e Abordagem Sistémica, Psicodrama; Terapeuta Transpessoal. Referências bibliográficas: Abuso de Drogas e Dependências, Moller et al, 2011.

| A Obsessão e suas Máscaras – Marlene Nobre. Editora FE |“Alcoolismo”. Ismail, F. et al. Manual de Psiquiatria Clínica. Cap. 21. Ed. LIDEL, 2014 | Além do Véu – Jorge Gomes. Editora FEP | Constelação Familiar – Divaldo Franco. Editora FEP | Conflitos Existenciais – Divaldo Franco. Editora FEP | Conectando Ciência, Saúde e Espiritualidade – Associação Médica Espírita do Rio Grande do Sul | “Dependências”- Costa, F et al.

Manual de Psiquiatria Clínica. Cap. 20. Ed. LIDEL. 2014 | Políticas e Dependências – Luís Patrício- Editora Veja | Sexo e Destino – André Luiz. Editora FEP. MARÇO.ABRIL.