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Opinião (pág. 13)

Jornal de Espiritismo nº 90 · Setembro 2018Página 137 min

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A ideia romântica das almas gémeas é um conceito popular simpático e aparentemente inofensivo. No entanto, se analisado em maior profundidade, não poderá esta ideia ser redutora e até prejudicial para uma vivência afetiva? Segundo ela, no início dos tempos, Deus separou as almas em pares. Assim, cada alma possuiria a sua metade eterna a que tem fatalmente de se unir para alcançar a felicidade. Juntas, essas metades sentir-se-ão uma só, mas separadas parece que lhes falta o essencial.

Neste contexto, cada um de nós é apenas uma parte, uma fração que precisa de outra metade para se complementar, para se sentir completo. A lógica das almas gémeas parece contribuir para a intensificação dos agrilhoados vínculos da dependência afetiva, incentivando à anulação das caraterísticas próprias para um ajuste irresistível a uma outra parte. Este foi um processo de despersonalização que condicionou de forma muito significativa as mulheres ao longo da história, que se viam na exigência de se conformarem ao papel que lhes era cultuAlmas Gémeas ralmente atribuído, bem como à vontade dos seus maridos.

O ser humano nasce dependente. Até ao fim da infância, ele depende da dedicação dos seus pais para sobreviver e ser feliz. Nas fases seguintes do seu crescimento, essa dependência deveria ser eliminada gradualmente, ensaiando o indivíduo o exercício da sua autonomia, responsabilidade e liberdade. Mas muitas vezes isso não acontece. Por vezes, são os próprios pais que fomentam essa dependência, outras vezes é o próprio indivíduo que não consegue largar o conforto que essa dependência lhe proporciona.

Mais tarde, os hábitos de dependência emocional serão transferidos para aqueles com quem ele se relaciona de uma forma mais próxima, assumindo posturas como carência, submissão ou subserviência. O amor genuíno é a expressão mais pura da alma, o ponto mais sublime a que ela poderá alcançar. É a força criadora mais poderosa ao serviço do Homem. No entanto, ao atrelarmos o amor à dependência, é como conspurcar com um pedaço de terra um copo de água límpida.

Quem amamos, deixa de ser aquele que nos motiva a ir além de nós mesmos superando os condicionamentos íntimos que ainda preservamos, para ser encarado como alguém que preenche as nossas lacunas, que nos aponta os caminhos, que repete o que devemos ou não devemos fazer, que nos carrega durante as dificuldades da vida e que por vezes nos substitui nas nossas próprias responsabilidades. Dizemos: “Eu amo-te!”, mas na realidade queríamos dizer: “Eu preciso de ti!

”. A lógica das almas gémeas parece contribuir para a intensificação dos agrilhoados vínculos da dependência afetiva, incentivando à anulação das caraterísticas próprias para um ajuste irresistível a uma outra parte. Ao permitirmos que a dependência se sobreponha ao amor, ficamos reféns do nosso parceiro afetivo para alcançar os nossos objetivos, e isso poderá limitar-nos na capacidade para mostrar o nosso verdadeiro valor e atingir o que mais desejamos na vida.

As relações conjugais devem ajudar a libertar o indivíduo em vez de o tornar mais dependente. Numa união conjugal saudável, a dependência precisa ser substituída pela compreensão e parceria. Duas pessoas unem-se em amor conjugal não porque dessa relação dependa a sua sobrevivência ou porque ela seja indispensável à sua felicidade, mas porque escolheram partilhar o seu amor, companheirismo, tempo e talentos em comunhão íntima na construção de um ideal comum.

Cada elemento de uma união conjugal não é uma metade, mas um inteiro. É uma individualidade forjada pelas experiências em vidas sucessivas e que se apresenta nesta vida para continuar a sua aprendizagem rumo à felicidade. Não se pense que estou a promover o individualismo ou o egoísmo. Não é essa a intenção. O egoísmo nada constrói, é como uma esponja que tudo absorve. Em relações egoístas não existe liberdade, respeito, partilha ou compreensão, apenas obrigações e exigências que a vontade de um quer impor ao outro.

Uma união conjugal em que domine o amor não é uma relação de dependência mas de parceria, de responsabilidade mútua e de comunhão íntima, em que duas individualidades distintas, com necessidades, talentos e experiências diferentes, detentoras de vontades e interesses que, por vezes, se contrariam, escolhem juntar-se para contruírem algo que é bem mais importante que a soma das partes. E este amor, liberto do bafio da dependência, tendo como base o respeito, a confiançaea compreensão, ao longo dos anos de convivência vai-se transformando numa rocha mais sólida que o titânio, cimentando laços de afeto que nem o tempo, a distância ou força alguma conseguirá quebrar, prolongando esses vínculos por toda a eternidade.

Texto: Carlos Miguel “Não há almas que desde suas origens, estejam predestinadas à união. Cada um de nós não tem, em alguma parte do Universo, a sua metade, a que fatalmente um dia se reunirá.” – questão 298 de “O Livro dos Espíritos” de Allan Kardec. foto pixabay SETEMBRO.OUTUBRO.2018 14 . JORN AL DE ESPIRITISMO CRÓNICA Um deles (vamos chamar o sr. A), bem nutridoa barriguinha fazia a chamada “curva da felicidade” nos homens -, bem vestido, sentado numa esplanada num país em paz, onde o calor trazia um ar de verão, do alto do seu “bem-estar”, vociferou: “Essa cambada, se fosse eu que mandasse, iam a nado para casa.

Nem sabemos se são terroristas ou não…”. O colega de mesa (vamos chamar o sr. B) parecia ser menos reativo, mais habituado a medir as palavras e/ou os conceitos. Tinha aquilo a que se chama o ar de “boa pessoa”. O sr. B falava de um modo diferente, falava dos direitos humanos e tentava esclarecer o amigo, tentando que ele se colocasse na posição dos migrantes. “E se fosses tu, pá?”… “E se fosses tu a tentar entrar nos EUA em busca de uma vida melhor e te tirassem os filhos menores para serem “presos” longe de ti, juntamente com mais de mil crianças?

”. O sr. A disparou logo: “Isso é problema deles, que se amanhem, não venham é cá estragar o que é nosso”. Confesso que fiquei um pouco nauseado, não pelo café que tinha acabado de beber, saboroso, mas por aquela dose auditiva de veneno tóxico que recebera – o egoísmo feroz. Meditando no que tenho aprendido com a Doutrina dos Espíritos (Espiritismo ou doutrina espírita), senti-me mais aliviado por as minhas ondas mentais calcorrearem caminhos diferentes, caminhos de compreensão, fraternidade, irmandade universal, pese embora os muitos defeitos que ainda carrego.

Fiquei mais calmo… como que uma voz, mentalmente me questionava: “Será que aquele egoísta feroz tem o conhecimento da imortalidade do Espírito? Será que ele sabe que vai voltar à Terra, as vezes que forem necessárias, para evoluir espiritual e intelectualmente, em novos corpos (reencarnação)? Será que conhece a lei de causa e efeito, onde cada um colhe o que semeia (nesta vida e nas seguintes)?” Pois é, pensei cá com os meus botões, ele não deve saber, não deve ter conhecimento que lhe permita pensar de maneira mais fraterna… E aqueles que, tendo esse conhecimento, pensam e agem da mesma maneira?

Esses são mais auto-responsáveis, moralmente falando. Apeteceu-me entrar na conversa e dizer ao sr. A: “Sabe por que não é feliz? Porque o egoísmo é a mãe de todos os nossos vícios e, enquanto não nos libertarmos desse vício, entendendo a vida de modo holístico, não seremos felizes. Enquanto não fizermos ao próximo o que desejamos para nós, não teremos paz interior e exterior. Enquanto não nos conseguirmos colocar no lugar dos outros, não seremos felizes”.

Mas não era oportuno meter-me na conversa alheia. Paguei o café, estava a ler o “Jornal de Espiritismo”, deixei-o em cima da mesa, na esperança que ele desse uma vista de olhos no jornal ali “esquecido”… Barbárie humana: dos EUA ao Oriente No livro de Allan Kardec, “O Evangelho Segundo o Espiritismo”, um dos capítulos fala das qualidades do homem de bem. Fui-me embora a meditar nesse belo texto, que serve de roteiro luminoso para a nossa evolução intelectual e moral, para o nosso bem-estar.

Como queremos o mundo em paz se as leis dos homens estão tão longe das leis divinas ou lei natural? Como queremos paz se fomentamos a guerra no nosso quotidiano, nas conversas, com termos belicosos, nas leituras e programas de TV escandalosos, nas atitudes e reações agressivas, sem entendermos que o amor é a grande estrada da evolução, como diz um amigo meu? Por isso não somos (ainda) felizes, mas podemos mudar… quando quisermos, já hoje!

Por José Lucas jcmlucas@gmail.com “Um café, se faz favor”, pedi ao empregado que me veio servir à mesa da esplanada. Ao lado, a conversa em alta vozum mau hábito, recorrente, com esta história dos telemóveisentre dois homens, na casa dos 45 anos. Discutiam a questão em voga, dos migrantes africanos, sírios, afegãos, mexicanos… foto direitos reservados Meditando no que tenho aprendido com a Doutrina dos Espíritos (Espiritismo ou doutrina espírita), senti-me mais aliviado por as minhas ondas mentais calcorrearem caminhos diferentes SETEMBRO.