93 — índice de conteúdos

Centrais (pág. 11)

Jornal de Espiritismo nº 93 · Março 2019Página 117 min

Partilhar
Idioma

Assunto delicado, mais tarde ou mais cedo acaba por abordar qualquer um nos caminhos da vida marcada pela matéria densa. Normalmente todos falam de perda. Então? Não se consideram os ganhos? te uma secção a que os cientistas chamam latrina. Quando um dos membros do grupo morre, é detetado e transportam-no para esse local. Há de chegar uma altura em que já não cabe mais nada ali. Neste caso, tapam e abrem um novo espaço para esse fim.

Mais elaborados, os elefantes selvagens africanos são o epicentro de relatos de observadores. George Wittemyer, da Universidade do Colorado (EUA), comenta a observação da morte de um elefante de elevado estatuto: uma matriarca. Os grupos familiares de elefantes, como saberá, são constituídos basicamente por fêmeas e as suas crias. Herbívoros que são, necessitam de se deslocar segundo a água e o alimento que possam estar disponíveis ao longo do ano.

A matriarca é o precioso manual de instruções do grupo, cuja experiência e conhecimentos valiosos são fundamentais na sobrevivência. Diz o referido cientista que, perante a morte desta matriarca, uma fêmea permaneceu junto do corpo a balançar tromba e cabeça, e vários elefantes levantavam os pés à altura do crânio tombado, outros apalpavam com as trombas as presas. Depois disso seguiam o seu rumo. Uma outra pessoa, George Adamson, refere algo que acontece várias vezes com a destruição dos espaços selvagens e o emergente conflito entre agricultores e os elefantes.

Mediante o perigo iminente de perda de vidas humanas, um elefante teve de ser abatido e a carne foi oferecida a uma tribo local. Um trator arrastou a carcaça cerca de um quilómetro do sítio em que ocorreu o abate. No dia seguinte, verificaram que os outros elefantes do grupo tinham transportado os ossos da pata e uma omoplata de volta para o local em que este elefante tinha sido abatido na véspera. O que quererá dizer isto?

Há também vários registos de visitação por parte de grupos de elefantes do local de morte de um conhecido seu, associado ao chamado toque em “relíquias”, nada mais do que, passadas semanas e meses, tocarem com a tromba e a pata, delicadamente, algum dos grandes ossos que restam do esqueleto do seu “amigo”. Não se deve antropomorfizar, reduzir o que sentem à escala humana, mas não será mesmo uma forma de pesar pelos que partiram?

E os primatas, grupo que é integrado também por nós, os hominídeos? O primatologista Christoph Boesch, Universidade de Leipzig, na Alemanha, afirmou à imprensa na publicação de um estudo: «Decerto subestimamos a consciência da morte em chimpanzés». Refere-se ao caso de chimpanzés juvenis que evidenciam expressões de desgosto na morte das mães. Por sua vez, observou-se que as mães desta espécie transportam consigo cadáveres das crias durante semanas, inclusive quando uma delas já contava dois anos de idade.

Embora nos outros adultos seja raro observar reação expressiva à morte de outros indivíduos, o parentesco mais próximo de progenitora e cria evidencia pesar. Outra fonte refere que, no Ruanda, um gorila - -da-montanha fêmea transportou durante três dias o bebé já morto. Será luto? Repare que são, em termos de corpo material, cerca de 98% de genes em comum com a nossa espécie. Fixar os ganhos Durante os anos em que se faz atendimento numa associação ou se monitoriza um curso básico de espiritismo contacta-se com tipologias muito variadas, inúmeros perfis de personalidade.

Há já algum tempo recordamos uma jovem senhora, com esmerada apresentação e vivaz, que foi durante o início do curso ver o que lhe poderia interessar ali. Em pequenas conversas no final, vim a perceber que tinha perdido um irmão recentemente eadúvida da sobrevivência da alma tinha-se instalado. Formadora das áreas do empreendedorismo, a dada altura numa catarse emocional contida disse em privado que a vida para ela eram só perdas.

Tinha perdido o irmão, perdia o tempo de vida a toda a hora, perdia dinheiro todos os dias, etc. Tinha mais necessidade de falar do que ouvir e também parecia ter o copo cheio, pelo que só depois de esvaziar alguma coisinha é que valeria a pena dizer algo útil. Fiquei a pensar que princípios de gestão ela conseguiria conceber: deixava de fora a ideia de investimento? O que ela via como perdas sucessivas e generalizadas é de facto um investimento para ganhos de experiência, nas coordenadas do amor e da sabedoria.

Todas as pessoas são obviamente donas e senhoras do seu sentir. E ninguém tem nada a ver com isso. Contudo, há informações interessantes que podemos partilhar. Os nossos entes queridos que partem e não estejam já mentalmente alienados pela transição vibratória entre planos, recuperado o equilíbrio na vida espiritual, sentem “na pele” o eco de como os lembramos, de forma mais ou menos consciente, segundo os casos, mesmo que não estejam nas redondezas, se assim se pode dizer.

Há muitas referências em bibliografia espírita sobre este assunto, mas isso aparece também reportado nas reuniões mediúnicas que semanalmente se fazem nas associações espíritas. O sentimento de perda é natural e inevitável. A conversa, o abraço, o telefonema, o desabafo ao fim de um dia de trabalho são luxos que deixam de ser possíveis mediante a morte do corpo material Quando lembramos os entes queridos que partiram com gratidão e amor, sem sentimentos pesados, isso funciona para eles como um importante estímulo na adaptação à nova vida que encetam.

O contrário não os ajuda, nem tão pouco a nós. Nesse sentido, gostávamos de partilhar consigo um gráfico que cobre de alguma forma a experiência da maior parte das pessoas que tenham sensivelmente meio século de vida. No exemplo dado consideramos alguém que viveu numa família com ambos os pais e um irmão. Quando se fala de perda de entes queridos podemos estar a reter apenas a metade mais difícil da experiência familiar.

Isso não é justo. Na realidade, deixamos que a perda pese mais do que o ganho de convivência que tivemos juntos e que não fica decerto pelas paisagens densas da vida material, já que o reencontro é provável na vida espiritual, quando Deus convocar o regresso à nossa pátria natural. As experiências positivas são o oxigénio da vida e devem ser reforçadas sempre que houver ensejo para isso. Por isso, não deixe que o “Até logo” se faça mais difícil do que já de si tende a ser.

Sinta-o lá dentro do ser como um sorriso grato pelas vivências construtivas já partilhadas. Reencontros no Além Para quem colabora nas reuniões mediúnicas espíritas, em que se auxilia aqueles que partiram confusos desta vida e encalharam por um tempo na limitação das suas perceções, há reencontros que são inspiradores, regra geral entre filhos e mães, sendo garantido que quem se suicida vai demorar muito, mas mesmo muito mais tempo, a reencontrar quem mais ama do que aqueles que sabem esperar pelo sábio comando das leis da vida.

No livro «Reuniões mediúnicas: casos (in)comuns e números curiosos», publicado o ano passado pela editora da Federação Espírita Portuguesa, no capítulo «Digno de prémio Nobel», lê-se um desses casos: «(…) A equipa de Espíritos desencarnados esclarecidos de elevada competência, operante antes e depois deste horário, fazia-se sentir indiretamente numa atmosfera psíquica afetuosa de muita paz. Repousada a mente no sopé de uma constelação de bons sentimentos, há que aguardar que o transe mediúnico se complete em breves momentos.

No ritmo certo, a saudação: «Boa noite! Em que podemos ajudar?». Em dicção bem timbrada, postura corporal altaneira, plena de autoconfiança, de quem se mexe com autoridade entre o povo, solta a sua curiosidade após ter assistido à prece de abertura: Espírito desencarnado (E) – Onde é que aprendeste a rezar assim dessa maneira? - É só abrir o coração e falar a Jesus. Ele sempre atende as nossas preces. E – Qual é o teu credo?

- Sou cristão. Mas se fosse budista era a mesma coisa. O que importa é o bem que fazemos ao nosso semelhante. E – Estás ligado a alguma igreja? - Não sou religioso, só gosto de Jesus e acredito em Deus como um ser de bondade, a inteligência suprema, causa primeira de todas as coisas. Sou um livre-pensador. E – Não é todos os dias que encontramos pessoas assim tão devotadas, com bons sentimentos. Não direi puros, mas com um sentimento bastante elevado.

Professas alguma… corrente… - Sou espírita. Gosto muito de estudar espiritismo, mas sou livre-pensador. E – Mas isso, espiritismo, não está… formalizado. Não está… não tem assim raízes… és solitário? Estudioso? - São estudos que se fazem no sentido de nos tornarmos melhores pessoas dentro do que Jesus ensinou. E – Mas, que eu saiba, não há assim correntes formadas nessa área! - Não há correntes. É uma doutrina que se estuda desde meados do século XIX, com base no bom senso, na razão.

E – É estranho. Passou-me. Também não somos imensos para saber tudo, mas essa passou-me ao lado. Sei que há pessoas, todos sabemos, que se dedicam a cartomancia, à astrologia, à leitura das mãos, dos búzios… - Mas não é o caso. ENão é o caso. - Estou a falar no propósito de estudar o evangelho na parte em que Jesus nos ensina a sermos melhores pessoas. E – Desde meados do século XIX, isso já vai assim há um tempo. E nasceu cá em Portugal?

- Não. Foi em Paris, França, com um professor que se chamava Hippolyte Léon Denizard Rivail . Ele deu o pontapé de saída para esses estudos. MARÇO.ABRIL.