Opinião (pág. 16)
Jornal de Espiritismo nº 94 · Setembro 2019Página 164 min
Além do memorável Sermão, outras passagens do Evangelho refletem essa ideia do Mestre admirável; por exemplo, ao advertir sobre a inutilidade do palavreado abundante e das vãs repetições (Mateus 6:7), como se elas (em vez de se dirigirem singelamente ao Pai de infinito amor) buscassem convencer um deus da mitologia pagã, imprevisível, nem sempre disposto a ouvir petiçõeso velho deus rabugento, antropomórfico, da catequese infantil.
Jesus de Nazaré legou-nos uma luminosa ideia de Deus, bem diferente, e o capítulo 27 de “O Evangelho Segundo o Espiritismo” clarifica o sentido de oração que Ele ensinou. Todos os seres estão mergulhados no fluído cósmico universal, que ocupa o espaço completamente; orar, aciona a energia do pensamento com uma finalidade, sendo o dito fluído universal o meio ambiente onde essa energia se propaga, tal como a atmosfera é o meio ambiente em que se propaga o som.
Com uma grande diferença: o alcance do som físico tem limites, mas o alcance do “som mental” (pensamento) através do fluído cósmicoesse é ilimitado, chega aonde quer que se deseje. Muitas passagens bíblicas ilustram o poder da fé, elemento fulcral da oração. O episódio da maldição da figueira é um deles. Certamente, o doce rabi galileu jamais amaldiçoaria fosse o que fosse, muito menos uma generosa forma de vida que nos regala com frutos tão saudáveis e gostosos.
Na verdade, o episódio em questão foi mero ensejo para o Divino Amigo nos transmitir ensinamentos de suma relevância. Discorrera já sobre o imenso potencial da oração (pensar positivo), mas ainda não sobre o mesmo potencial, em sentido oposto, do pensamento destrutivo. Por outro lado, Mestre sem igual, Jesus focou nessa ocasião um aspeto muito significativo da oração correta. Vejamos o texto sagrado (Marcos 11:24): “Por isso vos digo: tudo quanto pedirdes, orando, crede que o recebereis, e o obtereis”.
“Crede que o recebereis” (no futuro), tradução frequente em edições portuguesas, não é fiel. A edição chamada “dos capuchinhos”, traduzida em direto do original grego, diz: “… crede que o recebestes (no passado) e o obtereis”, anotando em rodapé: algumas traduções dizem “recebereis”, todavia no original grego esse verbo está no passado. A versão portuguesa “dos capuchinhos” - crede que o recebestessim, está correta: é fiel à passagem traduzida, e fiel sobretudo à relevante ideia que o Bom Pastor quis transmitir.
Recentemente esta tornou-se-nos óbvia, à luz dos novos conhecimentos adquiridos em física quântica, biologia, neurologia, psicologia, atualmente explanados por vários autores (espíritas e não espíritas), e pelo endocrinologista indiano Depak Chopra, mundialmente famoso, no seu livro “Cura Quântica”. Pela grande nomeada dos seus autores (Frederico Lourenço, compatriota nosso, e o nosso confrade brasileiro Haroldo Dutra Dias), são muito conhecidas duas traduções recentes do Novo Testamento para Português, diretamente do original grego.
Em ambas, vemos a exatidão e fidelidade com que cada um dos dois brilhantes eruditos verteu para Português o referido trecho de Marcos: “… crede que o recebestes…”. Muitas passagens bíblicas ilustram o poder da fé, elemento fulcral da oração. Cumpre ainda mostrar a conformidade desta versão com o que se entende ser o pensamento de Jesus, quando ensinou “… tudo quanto pedirdes, orando, crede que o recebestes e o obtereis”.
Mestre dos mestres, pedagogo insigne, Ele praticava aquilo que ensinavano caso, a maneira de orar. Ponderemos então como o fez, por exemplo, quando restituiu Lázaro à vida (ver João, capº 11): não suplicou a Deus que o levantasse do sepulcro, mas _relata o texto evangélicocomeçou por agradecer isso ao Pai, como foto pixabay Novas de alegria – 19 facto já consumado. Por outras palavras: o Divino Amigo plasmou mentalmente a ideia de Lázaro vivo e são junto de si, alimentou-a com a sua energia psíquica; bradou “Lázaro, vem para fora”, e… o facto concretizou-se.
Milagre? Acontecimento sobrenatural? Não, tudo funcionou segundo as leis naturais da Criação, perfeitamente conhecidas do Mestre incomparável; deu-no-las a conhecer, demonstrou-as, exortou-nos a utilizá-las. A revolução quântica, acima aludida, derruba não só o materialismo ateu, mas também o ancestral deus antropomórfico da religiosidade cega. É o que explana Depak Chopra no seu livro “O FUTURO DE DEUS” (Ed. Presença, Lisboa 2015).
O famoso médico indiano, listado pela revista TIME entre “100 Ícones e Heróis do sécº 20”, reconstrói uma lúcida ideia de Deus (o Pai Criador, de que Jesus foi o mais sublime intérprete). Os pontos de vista de Chopra são muito próximos dos do padre-professor Anselmo Borges, num bem fundamentado artigo deste sobre tendências para uma crescente espiritualidade humana, paralelamente ao debilitamento das religiões instituídas (“Que Futuro para Deus?
”, Diário de Notícias,12/Jan/2013). Por João Xavier de Almeida “Pai Nosso”, a formosa oração que Jesus ensinou no Sermão da Montanha, carrega a ideia de colóquio íntimo com o Pai, não a de sons rituais a recitar pelos crentes. MAIO.JUNHO.
