Entrevista (pág. 8)
Jornal de Espiritismo nº 96 · Setembro 2019Página 88 min
Conte-nos, rapidamente, sobre a sua vida pessoal, quando se sentiu com o acidente emocional a ponto de acalentar a ideia de suicídio? Ana FranciscaNão é fácil abreviar em poucas linhas uma história de vida, mas… uma infância infeliz, uma família desestruturada, uma adolescência castrada, ajudaram na criação do perfil de uma pessoa insegura, muito ansiosa, e com necessidade de aprovação por parte dos outros.
Posteriormente um divórcio complicado, uma vida profissional demasiado exigente e que entretanto deixou de ser gratificante, a falta de uma rede de suporte familiar, um esgotamento, uma posterior depressão, o preconceito social face à depressão, um sentimento de autocomiseração, alargado também aos filhos, por fim, a falta de esperança e de vontade de viver. A depressão, a tristeza gerada constantemente, o esperar que os dias passassem rápido, a falta de objetivos… A vontade suicida assaltava-me constantemente ao ponto de procurar quais as formas que, poderiam gerar menos sofrimento a mim e às minhas filhas.
A depressãoea ansiedade não são sinais de fraqueza. Tinha consciência disso e estava a ser tratada? AFLi muito sobre o tema. Percebi que era um quadro clínico de depressão e que muitas vezes exigia tratamento químico. Fui acompanhada por psicólogos, psiquiatras. Experimentei vários tipos de terapia, nomeadamente hipnose clínica e EMDR (uma terapia na área da psicologia). É preciso muita coragem. Como é que se sentia?
AFAí está uma questão interessante. A sociedade vive na dicotomia entre coragem e covardia quando se trata de suicídio. Penso que nenhum dos dois se aplica ao caso, tudo depende da perspetiva. Nada é preto ou branco nesta questão. O suicida não tem consciência se está a ter uma atitude de coragem ou de covardia. Sentia-me uma fracassada, completamente fracassada. Muito embora tivesse provas na minha vida de momentos de sucesso, em várias áreas.
Como chegou à fase do equilíbrio? AFEssa é até aqui a questão mais difícil que me colocou. Não é fácil isolar o ponto de viragem. As coisas sucedem-se lentamente, e durante algum tempo não nos apercebemos da evolução. Poderei usar a metáfora da pessoa que está dentro de um poço. Enquanto o poço tem água, a pessoa consegue manter-se a boiar. Isto provoca uma sensação de segurança, mas ao mesmo tempo não permite criar o impulso necessário para fazer a pessoa saltar e sair, então fica-se ali, não se luta.
Porém, se o poço se esvaziar, a pessoa toca com os pés no fundo, já não pode descer mais. A partir daí só há um caminho, subir. Por vezes, só quando tocamos no fundo podemos criar o impulso necessário para subir. Fazendo o paralelismo com a minha situação, quando cheguei ao pior momento, surgiram as forças que me impeliram a voltar a lutar pela vida. Que ajudas lhe foram prestadas? AFEu estava a ser assistida por psicólogos e psiquiatras.
E o que fiz foi dar sequência ao tratamento psiquiátrico, tinha feito psicologia clínica e tinha feito hipnose, mas deixei. Continuei no tratamento psiquiátrico, mudei de médico, mudei de tratamento e ao fim de quatro tratamentos diferentes parece que finalmente se começou a acertar na medicação. A partir dessa altura comecei a nível químico a ficar mais compensada e isso foi crucial para a parte da depressão, para me ajudar a dar os primeiros passos para melhorar.
No meu caso pessoal, a frequência do Curso Básico de Espiritismo e particularmente os novos contatos que aí fiz, onde se partilham experiências de vida, ajudaram imenso. É uma excelente oportunidade de firmar as bases dos bons valores e o entendimento para uma vida normal e saudável. Eu sou uma pessoa de desabafo fácil e isso fez com que eu conversasse, ao longo deste período todo, com muitas pessoas que me foram ajudando e que me deram também força para eu ultrapassar, foram os meus amigos, essencialmente amigos, porque a nível familiar eu não tenho essa rede.
Sabia da existência de linhas de apoio pelo telefone em Portugal? AFSim, sabia! Achava que no meu caso nunca funcionaria. Eu preciso do frente a frente. Falar para uma máquina, não! Eu tenho que ter empatia visual. Aliás uma das razões que me fez mudar de psiquiatra foi a falta de empatia. Quem lida com questões do foro psiquiátrico, psicológico ou então das emoções, se não for uma pessoa empática as coisas não funcionam.
Portanto eu nunca usei essas linhas, por essas razões. Sentiu-se alvo da descriminação e do preconceito? AFCompletamente… totalmente… o facto de eu estar com uma depressão. Inclusivamente, fez-me ocultar… as pessoas não sabiam. Às vezes ouvia conversas de bastidores, nomeadamente: “Ela está com muito bom ar. Está melhor!”. Comentários muito infelizes do género: “Está doente para trabalhar mas, coloca fotografias de convívios no Facebook…”.
Quais foram as estratégias que usou para combater quer as conversas de bastidores quer o isolamento? AFEu sofro da chamada depressão sorridente, que é aquela depressão profundamente camuflada, de quando eu estou socialmente, parece que estou muito bem …e só cá dentro, ou nos meus momentos é que, eu estou mal… Depois aprendi que, usar o queixume frequentemente com as pessoas que me rodeavam isso ia isolar-me. Comecei, como forma de auto ajuda, a fazer um esforço, quando estava socialmente, porque eu isolei-me muito, mas, quando estava socialmente comecei a dizer assim: “deixa-me tirar partido disto.
” Então, quando estava com as pessoas usava o mecanismo do sentido de humor. É preciso dispor de um nível de energia para responder a um impulso suicida, o que sentia com esses momentos bons é que, depois me traziam consequências positivas, porque me contagiava. Eu fazia o esforço e depois via que aquele esforço me trazia bons resultados. Como é que via a vida além da morte? AFO que me aconteceu é que fui educada nuns padrões religiosos profundamente errados.
Eu não acreditava na vida além da morte… não acreditava em Deus… não acreditava em nada. Acreditava nas energias. Acreditava nas pessoas boas, acreditava que também há pessoas más e acreditava nos bons valores. Sou uma pessoa de causas. Sou uma pessoa que me revolto muito em relação às injustiças do mundo. O suicídio lesa o perispírito. Tinha essa consciência? AFNão, não tinha essa noção. Nada! Vim a saber depois de vir à associação espírita a uma reunião de atendimento e depois de frequentar o Curso Básico de Espiritismo, vim a saber da orgânica que está ligada a nível espiritual.
Entende que durante o período de tentativa ou a premeditação adentrou um processo obsessivo? AF – Sim, auto-obsessivo. Andei muito tempo a cozinhar as ideias. A sua família direta sabe ou aperceberam-se da ideação suicida? AFNão, não! Com exceção do meu ex-marido. Esse veio a saber. Teve um abanão como pai, que associado a uma maior maturidade, da parte dele, o fez querer assumir a paternidade de forma mais presente.
Desde então para agora, caminhamos para a harmonia, o que é excelente. Que poderá concorrer para evitar este flagelo da humanidade? AFAconselho a vigiar as pessoas que não estão bem. É muito importante terem à sua volta uma rede de amigos e ou família, um bom médico, um bom psicólogo e desenvolver atividades que estimulem os bons sentimentos e propiciem uma mente saudável. Isto é muito importante. O ideal é que o depressivo se informe, mas normalmente isso não acontece.
Ele não quer ler nada, não quer nada, não quer fazer nada. Eu sabia que se fizesse exercício físico, libertava serotonina, um neurotransmissor responsável por dar bom ânimo, e que ajudaria a combater a depressão, mas nunca consegui passar à prática. Uma coisa é termos consciência das coisas e outra é darmos os passos. O principal conselho que é dou é rodear-se de pessoas positivas: é muito importante! Às vezes não custa nada um pequeno gesto porque a pessoa muda logo.
Na sua opinião, como poderíamos diminuir a taxa de suicídios atualmente existentes no mundo? Um processo de espiritualização das pessoas seria fundamental neste objetivo? AFSem dúvida alguma… e porque não – isso exigia muita abertura -, ter-se nas próprias escolas, desde tenra idade, preparação para algumas questões importantes e dogmáticas sobre a vida. Sem dúvida que serão adultos muito mais felizes. Pensa que o Espiritismo pode ajudar na prevenção do suicídio?
AFCom certeza que sim! Trabalhar a espiritualidade é muito importante, mas em Portugal há muito preconceito em relação à palavra. Em relação à espiritualidade não. Até está na moda! Mas, em relação ao Espiritismo, não se pode falar a palavra em lado nenhum porque é tudo conotado com coisas más. Quando percebi que, ao cometer o suicídio, nem pensei em mim, ao levar as minhas filhas tambémtentando eu terminar um sofrimento para elas -, iria causar-lhes muito sofrimento, se calhar ainda maior na vida espiritual… eu encarava o suicídio como um fim: é um fim!
Acabou! Não há mais sofrimento. Quando eu percebi que a ideia de não haver mais sofrimento era uma fraude e que numa perspetiva de outra vida poderia sofrer as consequências daquele ato, aí tive um abanão. Se queria somente o bem das minhas filhas, eu iria provocar um mal ainda maior. Deseja lançar algum apelo ao movimento espírita para ajudar na prevenção do suicídio? AFDivulgar o Espiritismo para se romper com alguns, eu diria todos os tabus… O Espiritismo tem uma arma muito poderosa que é devolver a esperança.
A esperança é a coisa mais maravilhosa que podemos ter. É o sonhar, é acreditar que ainda pode haver coisas boas. Quando perdemos a esperança: acabou! E eu, ao perceber que a nossa energia pode ser multiplicada, e que podemos viver muito mais felizes quando as coisas se sucedem em cadeia, senti que isso era magnífico. Isso é dizer assim: nós podemos fazer muito por um mundo melhor. Os centros espíritas deverão criar condições e espaços físicos para se romper com os preconceitos e tabus.
Promover cursos para proporcionar uma terapia de bem-estar e desenvolvimento pessoal. Aos pais cabe a responsabilidade de falar abertamente com os filhos, aconselhar e trazer os filhos a reuniões próprias para crianças preparando-as para a orgânica da vida espiritual. Por Raquel Marisa No meu caso pessoal, a frequência do Curso Básico de Espiritismo e particularmente os novos contatos que aí fiz, onde se partilham experiências de vida, ajudaram imenso.
