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Opinião

Jornal de Espiritismo nº 98 · Novembro 2020Página 134 min

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Então, ao toque das doze badaladas, amassamos o mesmo número uvas passas contra a palma da mão e, no meio da euforia, dos confetes e do espumante, ao som de gritos histriónicos e dos abraços calorosos que surgem dos lugares mais inesperados, deita-se à boca aquela fruta ressequida enquanto se formulam desejos sobre o que gostaríamos que o novo ano trouxesse. É uma tradição simpática, especialmente porque o desejo ainda é gratuito e não é tributável.

Há alguns anos, em conversa com o meu filho mais velho, perguntei-lhe que sacrifícios estaria disposto a fazer para alcançar o que mais desejava naquele novo ano. O artista, que tem horror a uvas-passas, replicou: “Ter sido obrigado a comer as passas não é sacrifício suficiente?”. É uma piadola com graça, mas não padeceremos do mesmo comodismo? O mundo está em permanente mudançaea nossa vida também. Sabemos isso porque o sentimos na forma como a vida nos devolve aquilo que lhe damos e como isso afeta a relação que estabelecemos connosco e com o que está à nossa volta.

No entanto, em demasiadas situações, fazemos pouco para que essas mudanças aconteçam: em vez de assumirmos as rédeas na construção daquilo que mais desejamos, agarramo-nos como ventosas a comportamentos caquéticos, hábitos alimentados durante tantos séculos. Sabemos onde queremos chegar, mas vamos criando a expectativa de que essas mudanças caiam dos céus em forma de luz iluminativa, de uma espécie de intervenção divina ou pelas artes mágicas de uma varinha de condão.

Como se Deus fosse uma desculpa foleira para a inação. Tal como a nêspera do poema de Mário Henrique Leiria, que estava na cama, deitada, muito calada a ver o que acontecia, deixamo-nos ficar à mercê da velha inércia e do mesmismo confortador, convencidos que a teimosia nos mesmos comportamentos haverá de conduzir-nos para o destino pretendido, como um náufrago que navega ao sabor da corrente de um rio. Porque é que será assim tão difícil mudar?

Porque exige abdicar de algo que até pode não produzir bons resultados, mas que é conhecido e dominamos. Para mudar é preciso abandonar aquilo que faz parte da nossa rotina íntima, abraçando o desconhecido e a imprevisibilidade. A escolha entre o conforto e a incerteza é uma aposta viciada em que o comodismo poucas vezes se deixa vencer. De que adianta desejar felicidade se não desenhamos um sorriso na cara, não treinamos o otimismo nem fazemos um esforço para interpretar as vicissitudes da vida por um outro lado do prisma?

De que serve desejar paz e bem-estar se não ensaiamos a compreensão na relação com os outros, não dotamos de bondade o nosso olhar, nem mudamos o ímpeto para ripostar à mínima contrariedade? Que utilidade haverá em lutar pelas causas em que acreditamos usando fórmulas gastas e bafientas que no passado produziram mais atrito do que iluminação? Mudar é necessário, mas é quase impossível os nossos desejos concretizarem-se se os fizermos constantemente depender de mudanças nos outros.

Mudar não é apenas trocar de roupas, de lugares ou pessoas. Quase sempre são alterações inócuas que o tempo se encarregará de revelar. Assumir a mudança é compreender que a construção daquilo que perseguimos começa pela nossa capacidade de renovação, seres em evolução permanente e em constante aprendizagem. É mais fácil mudar por fora do que por dentro. Muda-se constantemente de parceiro, de trabalho e de atividade, à procura de cumprir as expectativas que foram criadas, alimentando uma constante desilusão com as situações enfrentadas e com as pessoas que partilham esse caminho.

Vivendo um eterno e inevitável desencanto, esquecemos que só há uma coisa que ainda não se tentou mudar: nós próprios. Mas a vida é sábia e conspira para nos impulsionar à transformação. De diferentes formas, às vezes até em condições Uvas passas e uma nêspera expectante tão dolorosas que nos derrubam sem contemplações, a vida impõe-nos mudanças. A dor, apesar de ingrata e invariavelmente surpreendente, estimula-nos a mudar.

O que acontece muitas vezes é que não aproveitamos essa dor para imprimir mudanças à vida. Preferimos concentrar esforços em esquecer a dor, arranjar bodes-expiatórios para ela, anestesiá-la de uma qualquer forma, passando ao capítulo seguinte sem mudar o que era indispensável mudar. Se um processo doloroso não conseguiu imprimir mudanças à nossa vida, é como se ele tivesse não tivesse acontecido. E isso é muito triste!

É triste porque existem dores que merecem existir, merecem servir o processo íntimo do nosso crescimento como indivíduos. Porque é que será assim tão difícil mudar? Porque exige abdicar de algo que até pode não produzir bons resultados, mas que é conhecido e dominamos. Quando, no mundo espiritual, idealizámos o percurso de vida que teríamos pela frente, por entre a ansiedade e o nervoso miudinho por mais uma aventura repleta de dificuldades que não sabíamos se teríamos arte para superar, um desejo maior pairava na mente de todos nós: a necessidade de mudança!

Víamos a nova vida como mais uma oportunidade para largar a dura crisálida que ainda nos atrofia os movimentos, ensaiando a construção de um ser mais livre, sábio e feliz. Como vai a sua mudança? Escutemos a vida! Ela indica-nos, através de breves, mas preciosos sussurros, aquilo que é preciso mudar. Votos de um magnífico ano de 2020 para si! Por Carlos Miguel O final do ano é uma época de balanços. Por entre a azáfama de um plano de festas preenchido até à exaustão, vamos refletindo à pressa sobre o que correu menos bem, as perdas que nos atingiram, os triunfos alcançados e, sobretudo, o muito que ficou por fazer.

foto pixabay JANEIRO.FEVEREIRO.