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Opinião (pág. 14)

Jornal de Espiritismo nº 98 · Novembro 2020Página 144 min

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Paternal, invariavelmente misericordioso, na Sua mirífica pedagogia aproveitou as travessuras do materialismo racionalista (que “matara Deus” e endeusara a Razão, na pena de Frederico Nietzsche), para o conduzir ao destronar da matéria na cosmologia materialista e levá-lo a concluir que, nada em si mesma, ela é mero estado temporário de energia. Mansamente, a sabedoria divina fez reverter o materialismo zombeteiro do racionalismo em servidor prestimoso da espiritualidade humana!

Se o racionalismo, aprofundando-se em conhecimento, largou o materialismo e chegou ao espiritualismo, não deixa de subsistir um certo espiritualismo de feição materialista. Movimenta-se dentro do Espiritismo e, abominando o termo religião, ateia a falsa questão de o Espiritismo se conciliar ou não com religião. Sim, falsa questão, já dirimida muito claramente no próprio texto e contexto da Codificação, assim como pelo Codificador.

É sobre Deus a primeira pergunta de O LIVRO DOS ESPÍRITOS à falange do Espírito de Verdade, desenvolvendo-se o tema por todo o capítulo. E o final do mesmo livro (Conclusão, cap. V) declara explicitamente: “O Espiritismo é forte porque se apoia nas próprias bases da religião: Deus, a alma, as penas e recompensas futuras”. No muito citado “Discurso de Finados” (Revista Espírita, dez./1868), Allan Kardec não nega ao Espiritismo o caráter de religião.

Expõe lucidamente a filologia da Novas de alegria – 23 palavra, concluindo que no sentido filosófico, puro, sim: o Espiritismo é religião “e disso nos gloriamos” (palavras suas). Nunca o negando, continua a discorrer e interroga: “Por que não nos declaramos religião?” E explica muito logicamente: a noção usual e popular da palavra religião conota-se demasiado com ritual, cerimónias, culto externo, hierarquia sacerdotal.

Evidentemente, neste sentido o Espiritismo não pode ser religião, nem consta haver dúvidas sequer. É infundado afirmar que o Espiritismo no Brasil se transformou em religião, nesse sentido pejorativo. E excessivo, injusto, impróprio, banalizar as nobilíssimas figuras espíritas de Chico Xavier e Divaldo Franco, acusando-os de autoproclamada liderança, rotulando de marketing pessoal a frutuosíssima mediunidade e atividade assistencial de ambos, dando-as por desfasadas do lema “fora da caridade não há salvação”.

“A ciência sem religião é coxa, a religião sem ciência é cega”. A obstinada alergia à grandeza humana e espiritual de Chico Xavier, faz o surpreendente favor de por uma vez conceder-lhe a dúbia nota abonatória “é um ser humano decente, mas…”. Ante a filosofia espírita, a descabida alusão constante à sua exígua escolaridade formal (que aliás nem se nota no impecável discurso oral ou escrito do medium), é esquecer a sua nítida probabilidade dum passado de inteletualidade muito superior à média.

O que, a par das alfinetadas à relevante e operosíssima instituição do panorama espírita internacional, que é a Federação Espírita Brasileira, peca por pouca racionalidade. A religião afasta da racionalidade? No sentido de inteligência racional, em parte sim, sem mal nenhum. A inteligência racional, newtoniana, mecanicista, imperou longamente como paradigma irredutível da ciência convencional e descambou “inteligentemente” em materialismo e ateísmo.

Kardec, sereno, seguro e frontal, demonstrou-a incompetente para se pronunciar sobre os fenómenos espíritas que então pululavam por todo o mundo, porque amarrada ao curto paradigma do princípio material do Universo. Kardec demonstrou a existência do princípio espiritual, e que só os dois princípios explicavam a estranha fenomenologia que já ninguém podia negar. Com método científico, fundou a ciência do Espiritismo, apta a estudar aqueles fenómenos, até aí interpretados supersticiosamente.

Introduzindo a inovadora fé raciocinada, Kardec fez-se precursor do que a ciência oficial só descobriu mais de cem anos depois: a inteligência emocional (1975, Daniel Gole) e a inteligência espiritual (1995, Michael Persinger, Vilaianur Ramachandra, Danah Zoar e outros), ambas mensuráveis (QE e QS, siglas inglesas, como o QI da inteligência racional). Albert Einstein falecera muito antes, em 1945. Não conheceu a teoria das inteligências emocional e espiritual, mas a sua praxis de cientista lidava muito familiarmente com elas.

Dizia ao professor Huberto Rodhen, seu biógrafo: “A descoberta científica não resulta dum processo racional, mas duma iluminação súbita, uma espécie de êxtase; só depois a razão testa-a experimentalmente”. De elevada espiritualidade sem aderir a nenhuma religião instituída, declarou-lhe também: “A ciência sem religião é coxa, a religião sem ciência é cega”. O espiritualismo permanece materialista e agnóstico em algumas mentes: viciadas na racionalidade (que continuará sempre insubstituível na sua área de ação), parecem desconhecer olimpicamente a inteligência emocional e a inteligência espiritual.

Mesmo à revelia do conhecimento formal, ao longo da História têm elas solvido problemas científicos, técnicos, artísticos, de saúde, de trabalho, sociabilidade, pessoais, etc. Felizmente são hoje cada vez mais utilizadas com métodos variadíssimos, em autorreprogramação consciente das mentes (renovação íntima) e consequente higienização da psicosfera de todos nós, no nosso mundo Terra a caminho da regeneração. Por João Xavier de Almeida foto pixabay O Infinito Amor, oculto e omnipresente, mostra-se exímio (ou não fora omnisciente) a escrever direito por linhas tortas.