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Opinião (pág. 15)

Jornal de Espiritismo nº 98 · Novembro 2020Página 154 min

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João pensava nos dois filhos que tinha para criar, de 15 e 17 anos. Almejava dar-lhes um curso superior, que agora ia pelo cano abaixo. Faltavam dez anos para acabar de pagar o empréstimo da casa, e agora não tinha como. O futuro tinha fugido, de repente. Não tinha saída. A solução estava ali à mão de semear. Vivia perto da linha de comboio, perto de uma curva, seria uma morte rápida e sem grande dor, pensava no seu íntimo.

Nessa noite, deitou-se pela última vez ao lado da esposa, carcomida pelas dificuldades da vida, tal como ele. Olhou para ela, dormindo, cansada, e uma lágrima de tristeza misturada com ternura rolou pela face. Não podia fraquejar! Levaria o seu plano por diante, após a rotina diária de desempregado, após o café diário, no café do sr. Joaquim. Assim não daria nas vistas. Ajeitou-se nas mantas, e sem saber como nem porquê, lembrou-se da sua falecida mãe, que lhe falava do seu anjo da guarda ou guia espiritual.

Nunca fora dado a essas coisas da espiritualidade. Ela morrera, e era apenas uma leve recordação. Adormeceu. Teve um sonho muito nítido, onde se via lado a lado com um ser luminoso, que o levava a visitar um local sinistro, sombrio, onde a dor não tem palavras para ser relatada. Olhou para uma tabuleta que encimava a entrada: “Vale dos suicidas”. O seu companheiro de viagem durante o sono (o seu guia espiritual) mostrava-lhe ali o estado de inúmeras pessoas que, pensando tudo acabar com a morte do corpo de carne, ali sofriam os horrores da desilusão, até que um dia, por mérito próprio, sejam resgatadas pelos espíritos benfeitores, levando-as para um local mais calmo, em preparação para nova reencarnação.

Gritos, tiros, apitos de comboios, gemidos de dores, de tudo um pouco ouvia, e aquilo perturbou-o imenso. Pediu para voltar. De repente, acordou alagado em suor. Cinco da manhã! A esposa dormia tranquila… “Que raio de sonho!”, pensou… Deviam ser preocupações devido ao que planeava. Mas, aquilo tinha sido tão nítido, que não conseguiu dormir mais, e continuou até de manhã a matutar naquele sonho que para ele parecia realidade.

Se fosse daqueles que acreditavam nas coisas da espiritualidade, iria jurar que tinha sido real. Mas não, a vida para além da morte não existe, cogitava ele, enquanto se procurava acalmar. No dia seguinte levantou-se, fez a rotina diária e, enquanto tomava o café no Café do seu bairro e lia as notícias do dia, antes do fatídico momento que tinha preparado, apareceu- lhe o Vítor, amigo de sempre. “Pobre coitado, o filho fora assassinado no bairro, faz quase um mês, sem ter culpa nenhuma, e o hoResistir ao suicídio João estava desesperado.

Fora despedido. A empresa falira, engolida no egoísmo de quem a geria. A esposa, empregada fabril, tinha sido despedida há 2 meses. mem, mesmo assim aguentou-se”, pensava com os seus botões. Depois dos cumprimentos da praxe, Vítor mandou vir um café, pousando um livro sobre a mesa. “Que andas a ler, perguntou o João?” “Ah, é um livro que me tem ajudado muito”, disse Vítor. “Imagina que o André, o nosso vizinho é espírita, faz parte daquelas reuniões todas as quartas-feiras, naquele grupo espírita ali à beira da mercearia do António.

Nunca acreditei nessas coisas. Ele convidou- me a lá ir, e destroçado com a morte do meu filho, lá fui”. “Oh homem! Vim de lá novo. Este livro, “O Livro dos Espíritos”, de Allan Kardec, abriu-me foto pixabay “Imagina que o André, o nosso vizinho é espírita, faz parte daquelas reuniões todas as quartas-feiras, naquele grupo espírita ali à beira da mercearia do António. Nunca acreditei nessas coisas. Ele convidou-me a lá ir, e destroçado com a morte do meu filho, lá fui”.

os horizontes da vida. Tenho ido às reuniões e venho sempre de lá melhor. Até tenho esperança de um dia receber uma mensagem do meu filho”. João estava atónito, pois desconhecia a fé daquele homem, a quem tinham morto o seu único filho e esperança para o fim da sua vida. “Queres ir lá um dia comigo?”, perguntou o Vítor. “Bem sei que não acreditas em Deus, mas vais ver que é diferente”. João irrompeu num pranto, soluçou, para espanto do seu colega de mesa e dos restantes que estavam nas mesas ao lado.

Depois de se acalmar, João lá lhe contou do seu projecto para dali a minutos quando o comboio passasse. Contou-lhe o sonho vívido que tivera, a lembrança repentina da sua mãe antes de adormecer e agora aquele encontro inopinado, e ainda as mais inopinadas revelações da frequência do seu amigo às reuniões. Seria um sinal para que não se matasse? Cogitava agora em voz alta. Vítor levou-o ao centro espírita. João pôde ali lavar a alma, com um dos dirigentes presentes, que lhe falou das inúmeras provas da imortalidade do espírito, da comunicabilidade dos espíritos, da reencarnação e da esperança em dias melhores.

O comboio acabou por passar, apitando na dita curva, enquanto eles iam falando da espiritualidade e da imortalidade. Ali, naquele momento, João apanhou o comboio da vida de novo e ainda hoje pensa que se não fosse o espiritismo, talvez estivesse naquele lugar do seu sonho, a carpir as mágoas, próprias de quem tenta em vão fugir da vida e das leis sábias de Deus. A esperança estava de novo ali, pois havia a perspectiva de ir trabalhar como jardineiro para a casa de um dos frequentadores do grupo espírita em que fora socorrido.

Pensava com os seus botões: nos momentos difíceis é fundamental… resistir ao suicídio. Texto: José Lucas JANEIRO.FEVEREIRO.